Brasil e EUA aproximam agendas sobre minerais críticos e ampliam articulação estratégica em Nova York
Brasil e EUA aproximam agendas sobre minerais críticos e ampliam articulação estratégica em Nova York
O Brasil entrou definitivamente no radar estratégico dos Estados Unidos na disputa global por minerais críticos e terras-raras. Em meio ao avanço da transição energética, à corrida tecnológica e às tensões geopolíticas envolvendo a China, representantes dos governos brasileiro e americano, executivos e investidores defenderam, em Nova York, o fortalecimento de uma parceria bilateral voltada à construção de novas cadeias globais de mineração, processamento industrial e tecnologia.
O tema ganhou protagonismo durante o painel “Critical Minerals: Brazil-USA Strategic Partnerships”, realizado dentro da terceira edição do Summit Valor Brazil-USA 2026, evento promovido pelo Valor Econômico durante a chamada “Brazil Week”, nos Estados Unidos. O encontro reuniu integrantes do governo federal, representantes do setor financeiro, diplomatas e empresários para discutir como o Brasil pode se transformar em um dos principais polos globais de minerais estratégicos fora da influência chinesa.
A discussão ocorre em um momento de crescente reorganização geopolítica das cadeias globais de suprimentos. Atualmente, a China domina cerca de 90% do processamento mundial de terras-raras — insumos considerados essenciais para a fabricação de baterias, chips, carros elétricos, turbinas eólicas, equipamentos militares e sistemas de inteligência artificial. Diante desse cenário, os Estados Unidos buscam alternativas para reduzir sua dependência estratégica de Pequim, e o Brasil aparece como um dos principais candidatos a ocupar parte desse espaço.
Durante o painel em Nova York, a secretária de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Débora Freire, afirmou que o Brasil reúne condições para deixar de ser apenas exportador de matéria-prima e se consolidar como um centro global de processamento mineral. Segundo ela, o país possui não apenas reservas abundantes, mas também capacidade industrial para atender à crescente demanda internacional por minerais críticos.
A estratégia brasileira defendida no evento passa justamente pela agregação de valor local. Em vez de exportar apenas minério bruto, o governo e o setor produtivo querem atrair investimentos para beneficiamento, refino, transformação mineral e produção de componentes industriais ligados à economia verde.
Essa visão também foi reforçada pelo diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, José Luis Gordon. Em entrevistas durante a Brazil Week, ele destacou que o Brasil pretende se transformar em um “grande polo de transformação mineral”, combinando mineração, tecnologia, indústria de baterias, semicondutores e inteligência artificial. Segundo Gordon, qualquer parceria internacional deverá envolver investimentos produtivos e transferência de valor agregado para o país.
Além da dimensão econômica, o avanço da agenda mineral ganhou contornos diplomáticos e geopolíticos. O ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, afirmou que o país sul-americano pode desempenhar papel estratégico no equilíbrio das relações entre Washington e Pequim. Segundo ele, minerais críticos e terras-raras devem se tornar elementos centrais da aproximação entre Brasil e Estados Unidos nos próximos anos.
Shannon avaliou que a recente aproximação diplomática entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump pode abrir espaço para acordos mais amplos envolvendo cadeias minerais estratégicas. O diplomata afirmou que o Brasil pode funcionar como uma espécie de “elo de ligação” entre as duas maiores potências globais, mantendo autonomia diplomática enquanto amplia cooperação econômica com os americanos.
O interesse internacional sobre o potencial brasileiro não é apenas teórico. O país possui atualmente a segunda maior reserva de terras-raras do planeta, atrás apenas da China, além de liderar a produção global de nióbio e ocupar posições relevantes em minerais como lítio, níquel, grafita e minério de ferro — todos considerados estratégicos para a nova economia de baixo carbono.
Nos bastidores do evento, executivos e investidores destacaram que o Brasil vive uma janela histórica de oportunidade para captar capital estrangeiro. A combinação entre abundância mineral, matriz energética relativamente limpa e estabilidade regulatória crescente vem fortalecendo a imagem do país como fornecedor confiável de matérias-primas para a transição energética mundial.
Esse movimento já começa a se refletir em indicadores internacionais. Nos últimos levantamentos globais de atratividade para investimentos em mineração, o Brasil avançou posições importantes e passou a ser visto como um dos mercados mais promissores da América Latina para projetos ligados a minerais críticos.
Ao mesmo tempo, representantes do setor alertaram que o país ainda enfrenta desafios relevantes para transformar seu potencial geológico em liderança industrial efetiva. Entre os principais obstáculos citados estão a necessidade de ampliar infraestrutura logística, acelerar licenciamentos ambientais, expandir linhas de crédito e desenvolver tecnologia nacional para processamento mineral.
Outro ponto sensível é justamente a dependência tecnológica do Ocidente em relação à China. Embora países como Brasil, Estados Unidos, Canadá e Austrália possuam reservas significativas de terras-raras, o domínio chinês sobre as etapas de separação química, refino e industrialização continua sendo uma das principais barreiras para a reorganização das cadeias globais.
Nesse contexto, o Brasil busca se posicionar não apenas como fornecedor de recursos naturais, mas como parceiro estratégico em uma nova arquitetura industrial global baseada em segurança energética, descarbonização e autonomia tecnológica.
As discussões em Nova York também reforçaram o avanço da pauta regulatória brasileira voltada aos minerais estratégicos. O governo federal vem defendendo medidas para ampliar rastreabilidade, segurança jurídica e certificação ambiental da produção mineral, numa tentativa de alinhar competitividade econômica e exigências ESG do mercado internacional.
A percepção predominante entre empresários e autoridades presentes ao Summit Valor Brazil-USA é de que a disputa global por minerais críticos deverá se intensificar nos próximos anos. E, diante da reorganização geopolítica em curso, o Brasil pode deixar de ocupar apenas posição periférica na mineração mundial para se tornar uma das peças centrais da economia verde e tecnológica do século XXI.
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 14/05/2026