Brasil tem 10 anos para ficar rico antes de envelhecer, alerta McKinsey
Brasil tem 10 anos para ficar rico antes de envelhecer, alerta McKinsey
O Brasil, assim como a América Latina, mas ainda mais do que ela, vive sua “última chance de ficar rico antes de ficar velho” e, se não investir em ganhos de produtividade e em setores estratégicos, corre o risco de ficar para trás na atração de investimentos à região. Esses são os alertas de Nelson Ferreira, sócio sênior da McKinsey, ao comentar relatório da consultoria sobre produtividade na América Latina, antecipado ao Valor.
“A América Latina como região, talvez, tenha uma das últimas chances nos próximos dez, 15 anos de ficar rica antes de ficar velha. E o Brasil ainda mais. No Brasil, talvez não sejam 15 anos, talvez sejam dez anos”, afirma Ferreira, explicando que a população brasileira já é mais idosa e cresce menos do que em pares como Peru e Bolívia.
Com o Brasil chegando ao fim do “bônus demográfico”, o crescimento da produtividade precisará vir através de investimentos em capital físico e humano. A produtividade do trabalho no Brasil, porém, cresce menos de 1% ao ano há mais de uma década, segundo a McKinsey, enquanto outras economias próximas avançam perto de 2%.
A perda de relevância da América Latina para a economia global, sobretudo nos últimos 15 anos, é generalizada, segundo Ferreira. “A América Latina tem cerca de 7,5% da população mundial e já foi 7% do PIB global; hoje, é 6%. E, se continuar com a mesma taxa de crescimento, em 2050, será 3,5%”, diz.
A baixa produtividade é um indicador dessa situação “complicada”, como define Ferreira. Ele aponta que, enquanto outras economias emergentes crescem, em média, 3,4% ao ano, a América Latina cresce 2,3%. Disso, 1,5 ponto percentual (p.p.) vem do crescimento da população, e apenas 0,8 p.p., da produtividade, sendo que a produtividade do capital acrescenta 0,9 p.p., mas a da mão de obra retira 0,1 p.p. “Um trabalhador na América Latina, hoje, produz quase a mesma coisa ou até um pouco menos do que ele produzia no começo de século”, afirma Ferreira.
Apesar do quadro desafiador, a McKinsey aponta oportunidades. Existem diversas tendências mundiais ligadas, por exemplo, ao aumento do consumo de proteínas, à transição energética, à necessidade de digitalização e de novos polos de industrialização que podem tornar a América Latina - e o Brasil, se ele se preparar para isso - quase “campeã natural” em algumas dessas áreas, sugere Ferreira.
O custo atual de produção de eletrônicos e da indústria automotiva no México e na América Central, por exemplo, é comparável ou até inferior ao da China, diz o executivo. “Um terço das principais empresas de equipamentos médicos que exportam aos Estados Unidos está na Costa Rica, ela já é um ‘hub’ exportador”, exemplifica. “A região tem 58% das reservas de lítio e 35% das reservas de cobre, minerais fundamentais para a transição energética”, afirma.
Ao todo, são sete os setores mapeados pela McKinsey em que a América Latina deveria concentrar investimentos: manufatura de próxima geração, para Inteligência Artificial (IA) e automação; energias renováveis, não só para geração de energia em si, mas de produtos químicos e outros derivados; serviços digitais e digitalização da economia; centros de dados; agricultura e alimentos; combustíveis fósseis, que vão continuar importantes por um tempo; e minerais críticos.
“Esses são os sete setores em que nós enxergamos que a região pode ter um papel de bastante destaque mundial. E, em vários deles, o Brasil se sobressai, como em energia renovável, digitalização, agricultura, destino para data centers - até pela base de energia renovável e hidrelétrica - e minerais críticos”, afirma Ferreira.
Juntas, essas indústrias podem trazer cerca de US$ 400 bilhões em receitas para o Brasil até 2040, calcula a McKinsey. Para a região como um todo, se ela conseguir crescer nesses segmentos e trazer todos os serviços necessários para essas indústrias funcionarem, a McKinsey estima que o PIB pode sair de US$ 6,5 trilhões para US$ 10,5 trilhões até 2040.
"Trabalhador na América Latina produz quase a mesma coisa ou até um pouco menos do que no começo de século”
“Isso é importante porque, com US$ 10,5 trilhões, a região passa a ter uma renda per capita da ordem de US$ 15 mil, que é mais ou menos o limite inferior para entrar no patamar da OCDE”, diz Ferreira, em referência à Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, uma espécie de “clube dos países ricos”.
Segundo ele, o Brasil, por exemplo, tem uma renda per capita de US$ 10 mil, mas muito heterogênea entre seus Estados. “O Brasil, assim como a América Latina, poderia ter renda superior a US$ 15 mil e, aí sim, apesar de todos os problemas, poderíamos ter um nível mínimo de renda média compatível com países mais desenvolvidos.”
Para alcançar essas cifras e investimentos nos setores mapeados, a McKinsey sugere quatro ações aos países da América Latina.
A primeira é a diversificação de parceiros comerciais e de investimentos. “Tem de ir para Índia, Canadá, Japão, Sudeste Asiático, e não ficar apenas nessa bipolaridade de China e EUA”, diz Ferreira.
A segunda é a integração dentro da própria região. A América Central, por exemplo, tem taxas de crescimento comparáveis às do Sudeste Asiático e países vivendo “boom” similar ao do Brasil após o Plano Real, mas não está na agenda das empresas brasileiras, diz Ferreira. “Mas deveria estar”, afirma, citando como exemplos Guatemala, Honduras, Panamá e República Dominicana.
O terceiro ponto engloba avanços necessários em regulamentação. “Ainda temos na região, e no Brasil em particular, complexidades regulatórias e tributárias que afugentam investidores locais e estrangeiros”, diz Ferreira.
Por fim, a McKinsey aponta ser preciso atrair talentos internacionais - e, nesse quesito, até que o Brasil está em um momento de ascensão, segundo o executivo.
"Brasil tem risco de perder essa onda de investimentos que vão vir para a região, para México e Costa Rica, por exemplo”
Um trunfo para atrair investimentos é que a América Latina é, talvez, “a região mais geopoliticamente neutra do mundo”, diz Ferreira, o que é especialmente importante em tempos de multiplicação de conflitos como os atuais. Mas o Brasil pode perder investimentos para o México e a América Central, por exemplo, se permanecer caro e atrasado, alerta a McKinsey. A taxa média de investimento no Brasil entre 1997 e 2022 foi de 18% do PIB, abaixo da média regional de 19,7%, aponta o relatório.
“A América Latina tem condições de competir com a China. Só que, hoje, essa competição se dá em países como México, não o Brasil. O Brasil, hoje, é mais caro pela carga tributária, pela logística e pelo fato de que muitas das nossas fábricas são obsoletas do ponto de vista de processo produtivo”, afirma Ferreira. “O Brasil tem um risco de perder essa onda de investimentos que vão vir para a região, para México e Costa Rica, por exemplo”, alerta.
Segundo ele, reformas são necessárias, como a redução dos gastos públicos, que ajuda na queda dos juros, tornando investimentos mais atrativos. Além disso, diz, é preciso avançar em desburocratização e na consolidação da reforma tributária. “Em relação aos setores mencionados, é preciso ter uma visão de longo prazo do que o Brasil quer ser. Para os setores em que podemos ser ‘donos’ naturais globais, não há, necessariamente, visão clara do que o Brasil gostaria de ser em 2035”, afirma. “Setor privado e governo poderiam ajudar a articular isso.”
A inteligência artificial também será chave para o ganho de produtividade, segundo Ferreira. “A IA permite com que nós consigamos dar saltos de produtividade de mão de obra no agronegócio, na indústria e nos serviços, para fazer com que aquela produtividade que caiu nos últimos 25 anos na região passe a subir de novo. Têm segmentos da construção civil, infraestrutura, manufatura fabril e mesmo do agronegócio que ainda estão engatinhando na utilização de IA”, diz Ferreira.
O Brasil tem potencial nessa área por ser uma das sociedades mais digitalizadas do mundo, observa. “Essa é uma das principais prioridades que o país deveria ter em todos os setores para efetivamente buscar saltos grandes de produtividade”, afirma Ferreira.
“Talvez, seja nossa última chance de investirmos nesses setores, usarmos esses setores para virarmos a chave da produtividade, não crescermos apenas pelo crescimento populacional, mas pela produtividade da mão de obra e do equipamento”, conclui.
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 11/03/2026