Carbono passa a influenciar o custo de exportação do aço e do alumínio brasileiros

Carbono passa a influenciar o custo de exportação do aço e do alumínio brasileiros

Durante décadas, a competitividade das exportações brasileiras de aço e alumínio foi determinada principalmente por fatores como preço, qualidade, produtividade e eficiência logística. A partir da entrada em vigor do Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM, na sigla em inglês) da União Europeia, um novo elemento passa a integrar essa equação: as emissões de carbono associadas ao processo produtivo.

O novo sistema europeu estabelece que importadores deverão contabilizar as emissões incorporadas aos produtos adquiridos e arcar com certificados de carbono correspondentes, aproximando o custo climático das importações daquele enfrentado pelos fabricantes instalados na Europa.

Embora a obrigação legal recaia sobre os importadores europeus, especialistas apontam que o mecanismo tende a influenciar diretamente a competitividade dos exportadores. Produtos com menor intensidade de carbono poderão ganhar vantagem comercial, enquanto cadeias produtivas mais emissoras poderão enfrentar maior pressão sobre preços e margens.

Para o Brasil, cuja pauta de exportações para a União Europeia inclui aproximadamente US$ 2,2 bilhões em aço e alumínio, segundo levantamento citado pela revista Exame, a nova regulamentação representa simultaneamente um desafio regulatório e uma oportunidade para valorizar características da indústria nacional.

O carbono deixa de ser apenas indicador ambiental

Durante muitos anos, a discussão sobre emissões esteve concentrada em políticas ambientais, sustentabilidade corporativa e compromissos climáticos.

O CBAM altera esse cenário ao transformar o carbono em uma variável econômica capaz de influenciar decisões de compra, formação de preços e acesso a mercados internacionais.

Na prática, a intensidade de carbono deixa de representar apenas um indicador ambiental e passa a integrar a análise de competitividade industrial.

Empresas que conseguirem produzir com menores emissões — e comprovar essas emissões de forma auditável — tendem a ocupar posição mais favorável nas negociações comerciais com compradores europeus.

Essa mudança amplia o papel estratégico das informações ambientais dentro das empresas industriais.

A siderurgia brasileira não será afetada de forma uniforme

A nova regulamentação também evidencia que a indústria siderúrgica brasileira não pode ser analisada como um bloco homogêneo.

As emissões variam significativamente conforme a rota tecnológica utilizada na produção do aço.

Usinas integradas baseadas em minério de ferro e carvão mineral apresentam características distintas daquelas que utilizam carvão vegetal proveniente de florestas plantadas ou fornos elétricos abastecidos predominantemente por sucata metálica.

Consequentemente, o impacto do CBAM tende a variar entre empresas e produtos.

Mais do que um desafio para o setor como um todo, o mecanismo poderá ampliar diferenças competitivas entre produtores que apresentem intensidades de carbono distintas.

O Brasil pode transformar vantagens naturais em vantagem comercial

Nesse contexto, o Brasil reúne características que podem favorecer parte de sua indústria.

A elevada participação de fontes renováveis na matriz elétrica nacional, a utilização de sucata em diferentes processos siderúrgicos e a existência de uma cadeia relevante baseada em carvão vegetal certificado colocam determinados produtores em posição potencialmente mais favorável em relação a concorrentes cuja produção depende fortemente de combustíveis fósseis.

Entretanto, essa vantagem não será automática.

O diferencial competitivo dependerá da capacidade das empresas de medir, registrar e comprovar suas emissões segundo as metodologias aceitas pelas autoridades europeias.

Sem dados confiáveis, inventários auditados e sistemas robustos de monitoramento, produtos de baixa intensidade de carbono poderão deixar de capturar plenamente esse benefício.

Informação passa a ser ativo industrial

A implementação do CBAM amplia a importância de processos internos de medição das emissões.

Até recentemente, conhecer detalhadamente a pegada de carbono era uma prática associada principalmente à elaboração de relatórios de sustentabilidade.

Agora, essas informações passam a integrar o próprio processo comercial.

Inventários auditados, rastreabilidade da cadeia produtiva, certificações ambientais e sistemas de monitoramento tornam-se instrumentos capazes de influenciar negociações internacionais.

Em outras palavras, não basta produzir com menor emissão.

Será necessário demonstrar, de forma transparente e verificável, que essa emissão realmente é inferior.

A informação ambiental passa a representar um ativo industrial.

O alumínio também entra na nova lógica

A mudança não se restringe à siderurgia.

O setor brasileiro de alumínio também deverá conviver com o novo ambiente regulatório europeu.

Nesse segmento, a elevada participação de fontes renováveis na geração de eletricidade utilizada pela indústria brasileira poderá representar uma vantagem competitiva importante, uma vez que a produção de alumínio é altamente dependente de energia elétrica.

Da mesma forma, a ampla utilização de alumínio reciclado reduz significativamente o consumo energético e, consequentemente, a intensidade de carbono do produto final.

Assim como ocorre no aço, entretanto, essas vantagens precisarão ser devidamente comprovadas para produzir efeitos comerciais.

A competitividade industrial ganha uma nova dimensão

O avanço do CBAM demonstra que a competição internacional deixa de depender exclusivamente de fatores tradicionais como custo de produção, produtividade e escala.

Questões relacionadas à intensidade de carbono passam a integrar o conjunto de variáveis analisadas por compradores, investidores e governos.

Essa transformação acompanha um movimento mais amplo observado nas principais economias do mundo, no qual política industrial, transição energética e segurança das cadeias produtivas tornam-se cada vez mais interligadas.

Nesse novo ambiente, eficiência produtiva e eficiência ambiental deixam de seguir caminhos paralelos.

Passam a fazer parte da mesma estratégia de competitividade.

O debate poderá avançar para outros segmentos industriais

Embora o mecanismo tenha sido inicialmente direcionado a setores intensivos em emissões, como ferro, aço, alumínio, cimento, fertilizantes, hidrogênio e eletricidade, a tendência é que sua influência se estenda gradualmente a cadeias industriais de maior valor agregado.

À medida que componentes metálicos, máquinas, equipamentos e produtos manufaturados incorporem matérias-primas sujeitas ao CBAM, cresce a possibilidade de que exigências relacionadas ao carbono avancem para etapas posteriores da cadeia industrial.

Esse movimento amplia a importância da descarbonização não apenas para os produtores de insumos básicos, mas também para a indústria de transformação.

Perspectivas

A implementação do CBAM marca uma mudança relevante na dinâmica do comércio internacional ao aproximar política climática e política industrial.

O carbono deixa de representar apenas um compromisso ambiental e passa a influenciar decisões de investimento, estratégias produtivas e relações comerciais entre países.

Para a indústria brasileira, o novo cenário impõe custos de adaptação e aumenta a necessidade de investimentos em monitoramento, rastreabilidade e certificação das emissões. Ao mesmo tempo, abre espaço para que vantagens estruturais do país — como uma matriz elétrica predominantemente renovável, o uso crescente de sucata metálica e a produção baseada em biomassa certificada em parte da siderurgia — sejam convertidas em diferenciais competitivos.

Nos próximos anos, a capacidade de produzir com menor intensidade de carbono continuará importante. Mas será igualmente decisivo comprovar essa condição por meio de dados consistentes e reconhecidos internacionalmente. Em um mercado cada vez mais orientado pela transição energética, medir emissões deixa de ser apenas uma exigência regulatória e passa a integrar a própria estratégia industrial das empresas brasileiras.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 21/07/2026