Choque do petróleo força mercado a rever chance de alta de juros
Choque do petróleo força mercado a rever chance de alta de juros
O choque provocado pela disparada dos preços do petróleo se somou a discursos mais duros de vários bancos centrais e levou a uma reprecificação aguda nos mercados globais de renda fixa na semana passada. Em dias de estresse intenso, investidores passaram a embutir nos preços dos ativos a chance de elevações nos juros em diversas economias, incluindo os Estados Unidos. No Brasil, no auge da tensão, o mercado chegou a abandonar toda a precificação de cortes na Selic neste ano, passando a ver pouquíssimas reduções na taxa básica, apesar da sinalização de um ciclo de calibração dos juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.
Entre quinta e sexta-feira, os reflexos do salto do petróleo começaram a ser sentidos de forma mais agressiva nos mercados de juros, que passaram a incorporar mais diretamente os efeitos inflacionários do choque, em um comportamento motivado por discursos mais duros de autoridades monetárias ao redor do globo. A turbulência foi tão relevante que fez os mercados retirarem dos preços novos cortes de juros e, em certos casos, começarem a trabalhar com a chance de elevações nas taxas por alguns bancos centrais.
Alguns países já estavam imersos em ciclos de aperto monetário, como Austrália e Japão, antes do choque do petróleo, mas bancos centrais de outros países tinham adotado o viés de deixar os juros parados por mais tempo ou mesmo de reduzir as taxas ao longo do ano. Esse cenário mudou. O estresse nos juros de mercado fez os ativos trabalharem com a possibilidade de aumento nas taxas na zona do euro e no Reino Unido. E até mesmo nos Estados Unidos - onde o Federal Reserve mantém indicação de um novo corte nos juros até o fim do ano - os preços já sinalizam chance de alta nas taxas.
O cenário para o Banco Central Europeu (BCE), nesse contexto, é o mais claro. Após a reunião da semana passada, dirigentes apontaram, em condição de anonimato a agências de notícias, que na próxima reunião podem discutir uma elevação nos juros caso os preços dos combustíveis sigam pressionados. E, nesse contexto, o estresse dos mercados migrou também para uma reavaliação do cenário à frente pelos departamentos econômicos de grandes bancos.
Deutsche Bank, J.P. Morgan, Barclays, Rabobank e Morgan Stanley foram algumas das instituições que passaram a projetar aumentos nos juros pelo BCE ainda este ano. Alguns, inclusive, acreditam que a autarquia pode elevar as taxas de juros da zona do euro já em abril.
“Passamos a incorporar duas altas de juros em nosso cenário. Essa projeção está condicionada à nossa expectativa de inflação, que assume moderação apenas gradual dos preços do petróleo a partir de julho e dos preços do gás apenas no próximo ano”, afirma o economista Greg Fuzesi, do J.P. Morgan, que projeta aumentos nos juros na zona do euro em abril e em julho. “Nosso cenário para o BCE, assim, pressupõe que a situação no Oriente Médio seguirá desafiadora no curto prazo e que os mercados de energia levarão algum tempo para se reequilibrar.”
Se, na Europa, já há apostas efetivas em torno de um aperto nas condições monetárias, nos EUA a situação é bem mais nebulosa, ao se levar em conta a pressão da Casa Branca para novos cortes nos juros; a mudança na composição do “board” de diretores do BC com a entrada de Kevin Warsh; os sinais de desaquecimentos do mercado de trabalho americano; e a divisão do Fed quanto a uma redução adicional nas taxas neste ano. Ainda assim, nesse contexto, o mercado de juros americano sofreu um “squeeze” - movimento forçado de preços causado pela saída rápida de posições - na sexta, chacoalhando os mercados globais.
Em alguns momentos, na manhã de sexta-feira, os futuros dos “Fed funds” chegaram a embutir nos preços 45% de chance de pelo menos uma alta nos juros americanos até o fim deste ano, de acordo com dados do CME Group. No fim do dia, o estresse foi parcialmente revertido e o mercado indicava apenas 5,2% de probabilidade de uma alta ocorrer, o que, contudo, não deixa de ser uma reversão relevante de cenário.
“O mercado de juros continua gerando surpresas, com as taxas curtas disparando e já embutindo uma baixa probabilidade de alta de juros. E a volatilidade segue elevada nos trechos mais sensíveis à política monetária”, observam os estrategistas de derivativos de juros do Barclays em nota enviada a clientes. Para eles, contudo, o formato das curvas de juros mostra que o mercado americano ainda vê riscos para as taxas inclinado para baixo, ao contrário da Europa, “indicando que os investidores enxergam uma barra mais alta para o Fed elevar os juros do que para cortá-los”.
Na avaliação do economista-chefe para EUA do Société Générale, Jan Groen, as declarações recentes do presidente do Fed, Jerome Powell, e do diretor Christopher Waller sugerem que, caso haja um período prolongado de petróleo acima de US$ 100, o Fed tenderá a focar, sobretudo, nas implicações para a trajetória da inflação. Além disso, Groen observa que a dinâmica inflacionária no segundo semestre deste ano “será determinante para avaliar se as discussões dentro do Fed podem migrar para a possibilidade de altas de juros”.
“Se até meados de 2026 houver sinais de que essa desaceleração [da dinâmica da inflação] não está se materializando, as discussões dentro do Fed devem, a partir da reunião de junho, passar a considerar a possibilidade de altas de juros. Até lá, não se espera que o Fed abandone sua postura atual de manutenção das taxas”, enfatiza Groen, que tem passagens pelo Banco da Inglaterra (BoE) e pela distrital de Nova York do Fed.
No contexto de pressão sobre os mercados de juros globais na semana passada, o Brasil também ficou exposto ao mau humor e, mesmo com uma intervenção recorde do Tesouro Nacional ao recomprar títulos prefixados e NTN-Bs, os juros futuros dispararam ao longo de toda a curva. Nos vencimentos mais curtos, ligados à política monetária, houve uma reprecificação muito relevante: na sexta-feira, o mercado deixou de precificar cortes na Selic e passou a trabalhar com uma taxa que se mantém na casa dos 14% ao longo do ano.
"[A inflação] será determinante para avaliar se as discussões dentro do Fed podem migrar para uma chance de alta de juros”
— Jan Groen
Para se ter ideia da dimensão do estresse, no fim de fevereiro - antes, portanto, do início da guerra no Irã -, o mercado precificava cerca de 3 pontos em cortes na Selic, o que levaria a taxa a 12% no fim do ano. Na sexta-feira, a precificação estava um pouco acima de 14%, após um dia de estresse relevante nos mercados globais e domésticos, quando os preços do petróleo e a instabilidade dos juros americanos ditaram o rumo dos ativos.
A dinâmica recente dos mercados dá fortes indícios de um movimento de desalavancagem forçada de posições. O estrategista de uma importante instituição local nota que, nos últimos dias, os estrangeiros reduziram cerca de US$ 4,5 milhões em risco de mercado (“dv01”) em swaps no último mês, o que ele classifica como uma “desalavancagem bastante agressiva”. Ao mesmo tempo, o profissional lembra que o Tesouro Nacional retirou aproximadamente US$ 3,2 milhões de “dv01” em recompras de títulos, uma intervenção de tamanho recorde, superior inclusive à observada na pandemia de covid-19.
“A mensagem é clara: o posicionamento foi zerado e os prêmios de risco estão elevados. Mas o mercado agora se assemelha mais a uma ‘terra de ninguém’ - com liquidez reduzida, participação limitada e um processo de normalização que tende a levar tempo”, enfatiza o estrategista.
Situação semelhante é observada no mercado de juros reais, com a disparada das taxas das NTN-Bs desde o início da guerra. Na sexta-feira, de acordo com dados da Anbima, a taxa do papel com vencimento em agosto de 2050 subiu de 7,18% para 7,255%.
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 23/03/2026