Construtoras apontam disparada nos custos de cimento, aço e resinas em meio à guerra
Construtoras apontam disparada nos custos de cimento, aço e resinas em meio à guerra
O setor de construção civil já está sentindo os efeitos do aumento dos preços de combustíveis, fretes e insumos importados, como reflexo da guerra no Irã. O conflito gerou um salto nos preços internacionais do petróleo e afetou o trânsito global de navios.
O Sindicato da Indústria da Construção do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) relata que as cimenteiras aumentaram, em conjunto, o preço do insumo em 12% no Estado no fim de março e comunicaram mais um reajuste de 10% na semana passada. Isso vai reverberar nos custos de derivados, como argamassa, concreto e blocos.
As siderúrgicas avisaram as construtoras de uma elevação de 8% nos custos do aço nesta semana, afetando vergalhões, chapas, perfis e telas, entre outros. Já a situação mais drástica é das resinas e polímeros - materiais importados - com um salto de 100% no início de abril, dobrando os custos de peças plásticas, como tubos e conexões.
Os dados foram colhidos pelo Sinduscon-SP e compartilhados em primeira mão com a Coluna. “Estamos muito preocupados com a inflação que estamos vendo na construção civil. É um momento realmente difícil”, diz o presidente do Sinduscon-SP, Yorki Estefan. “Está todo mundo rezando para voltarmos a ter alguma normalidade.”
Como os dados foram captados há poucos dias, ainda não incorporaram o Índice Nacional dos Custos da Construção (INCC), que é divulgado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) no fim de cada mês, observa Estefan. São Paulo tem um peso relevante, de cerca de 35%, no indicador.
Momento lembra a pandemia
O presidente do sindicato compara a situação atual provocada pela guerra ao cenário visto em 2020, quando eclodiu a pandemia. “Estamos vivendo um momento parecido com o da época da Covid, quando houve desestruturação na cadeia de fornecedores e disparada dos preços de insumos”, afirma.
Segundo Estefan, a situação tende a piorar nas próximas semanas, com outros insumos subindo de preços assim que os estoques locais acabarem. Esse é o caso de tintas, por exemplo. “Acredito que ainda vem mais [reajustes] por aí. Mesmo que a guerra acabasse hoje, levaria um tempo para ter a normalização de todas as cadeias produtivas ao redor do mundo.”
Consequências
O Sinduscon-SP está agendando uma reunião extraordinária com os líderes dos departamento de compras das construtoras para estudar quais medidas emergenciais poderiam ser adotadas para enfrentar essa situação.
Na avaliação dele, o cenário tende a levar as empresas a postergarem o início das obras ou até reduzirem o ritmo nos canteiros, deixando para comprar materiais mais adiante, na torcida para encontrar um ambiente mais normalizado. “Quem tem flexibilidade no calendário de entrega das obras tende a segurar um pouco”.
Outros projetos, porém, devem acabar engavetados pela perda de viabilidade. É o caso de imóveis destinados à classe média - geralmente, com valores entre R$ 600 mil e R$ 1,5 milhão, aproximadamente. Neste setor, os lançamentos já estavam fracos devido aos juros altos dos financiamentos. “O aumento do custo vai desestimular ainda mais novos projetos nesse setor”, prevê Estefan.
Já no caso da habitação popular, dentro do Minha Casa Minha Vida (MCMV), a situação das construtoras é mais grave. Isso porque elas repassam o cliente para o financiamento bancário logo após fechar a venda do imóvel na planta, e não após a entrega das chaves. Com isso, não têm correção monetária no contrato. “Aí o impacto da alta dos custos é na veia. Afeta diretamente as margens de lucro. Na pandemia, o lucro foi embora por causa da mesma situação”, relembra o presidente do Sinduscon-SP.
Ele também acredita que as construtoras tendem a subir o preço de venda das unidades na planta para lidar a situação. “As empresas não vão conseguir absorver esses aumentos de custos. O preço do imóvel novo com certeza vai ficar maior”, estima.
Sincronia
O presidente do Sinduscon-SP reclama ainda que, no caso das cimenteiras, o reajuste feito pelas empresas do setor aconteceu ao mesmo tempo, com aparência de uma ação sincronizada. “Vemos todas pedindo reajuste do mesmo valor, ao mesmo tempo. E não temos explicação alguma para isso. Estamos avaliando até recorrer ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade)”, comenta.
Fonte: Estadão
Seção: Construção, Obras & Infraestrutura
Publicação: 15/04/2026