EUA apostam bilhões em empresas sem histórico no setor de terras raras

EUA apostam bilhões em empresas sem histórico no setor de terras raras

O governo Trump está prestes a investir US$ 1,6 bilhão em uma mineradora que pretende extrair terras raras e fabricar ímãs de alta tecnologia nos EUA. Mas a empresa, que opera no prejuízo, ainda não fez nenhuma das duas coisas comercialmente.

O acordo com a USA Rare Earth faz parte de uma série de tratados similares que o governo Trump fechou no último ano, na busca por cadeias de suprimentos domésticas seguras para minerais críticos, incluindo terras raras.

Mas alguns especialistas do setor questionaram se as empresas escolhidas pelo governo são capazes de cumprir suas promessas, enquanto um executivo observou que empresas em estágio inicial como a USA Rare Earth não estão preparadas para "resolver problemas".

Além disso, empresas que conquistaram apoio governamental têm vínculos financeiros com pessoas próximas ao governo Trump, o que levou democratas a questionar os acordos.

As terras raras são cruciais para a segurança e economia dos EUA, e são usadas em ímãs presentes em carros elétricos, armamentos e uma ampla gama de indústrias. Mas sua produção é dominada pela China, que tem explorado seu controle restringindo o acesso a elas.

Heidi Crebo-Rediker, pesquisadora sênior do Council on Foreign Relations e ex-economista-chefe do Departamento de Estado, disse sobre as negociações do governo: "É uma questão de assumir riscos maiores, o que acredito que este governo está disposto a fazer. Em vez de verificar se o governo perde dinheiro em cada investimento, devemos olhar se o dinheiro está ajudando a aumentar a resiliência".

O governo estava adotando uma "abordagem tipo capital de risco, onde se você investe em 10 empresas e, se algumas delas têm sucesso, você pode ter uma grande diferença", disse Ryan Castilloux, diretor-geral do grupo de pesquisa em terras raras Adamas Intelligence.

Round Top, o depósito da USA Rare Earth em Sierra Blanca, Texas, nunca foi minerado comercialmente, mas espera-se que contenha 15 dos 17 elementos de terras raras.

O plano da empresa de produzir as chamadas terras raras "pesadas", que são especialmente difíceis de obter fora da China, foi fundamental para o interesse do governo na empresa, disse Joel Fetter, diretor-geral do grupo de lobby Clark Street Associates, que trabalhou na transação.

Mas ainda não está claro quanto de cada metal pode ser extraído. A USA Rare Earth, fundada em 2019, ainda não concluiu um chamado "estudo de viabilidade definitivo", um marco que analisa se os metais são recuperáveis e economicamente viáveis para mineração.

Round Top tem um histórico que remonta a décadas de não ser desenvolvido, e especialistas do setor disseram que a concentração de terras raras no depósito — metal por unidade de rocha — era relativamente baixa, o que significa que podem ser mais caros e difíceis de extrair.

Em fevereiro, o Center for Strategic and International Studies dos EUA caracterizou o teor como "excepcionalmente baixo", o que, segundo eles, poderia desafiar a "viabilidade comercial" de Round Top.

Outro teste era a "sopa" de minerais do local, disse o Centro. A avaliação econômica preliminar de 2019 da USA Rare Earth disse que metade das vendas esperadas da mina viria não de terras raras, mas de outros metais, incluindo urânio, háfnio e lítio.

Merriman disse que produzir uma ampla variedade de minerais "complicaria significativamente o processamento e aumentaria os requisitos de capital".

A USA Rare Earth disse que a avaliação de 2019 não refletia mais seu plano de desenvolvimento atual — embora a CEO Barbara Humpton tenha dito a analistas em janeiro que o háfnio ainda seria um "divisor de águas" para a economia de Round Top.

A empresa mirava iniciar a mineração em escala comercial em 2028, em meio a um plano para competir com a China. O projeto envolve a extração de metais em Round Top, com testes indicando a possibilidade de recuperar quantidades relevantes de terras raras pesadas.

Humpton ingressou na USA Rare Earth em outubro, vinda da Siemens, onde liderava as operações nos EUA. Segundo Fetter, o acordo com o governo "se concretizou em questão de meses", após discussões iniciais com o secretário de Comércio, Howard Lutnick.

O antigo banco de investimentos de Lutnick, Cantor Fitzgerald, apoiou a empresa na oferta pública via Spac e na captação de US$ 1,5 bilhão anunciada em janeiro. Os recursos eram uma das condições para o financiamento governamental provisório, que também exige a conclusão do estudo de viabilidade e o cumprimento de outros marcos.

A ligação com Lutnick gerou críticas de parlamentares democratas, que apontaram possível benefício à sua família e à antiga empresa. O Departamento de Comércio afirmou que o secretário cumpriu integralmente as regras de ética e que a Cantor não participou do acordo. A Casa Branca, por sua vez, disse que a prioridade é reforçar cadeias de suprimento estratégicas para a segurança nacional.

Outras empresas apoiadas pelo governo incluem a Vulcan Elements e sua parceira ReElement Technologies, que garantiram US$ 1,4 bilhão. A ReElement integra o portfólio da American Resources Corporation, que, em relatório recente, indicou "dúvida substancial" sobre sua capacidade de continuar operando, embora espere avançar na captação de recursos.

O Pentágono afirmou que o financiamento é diretamente com a ReElement, e que haverá diligências adicionais antes do desembolso. A American Resources contestou as críticas públicas, mas sem detalhar. Em seu balanço mais recente, reportou cerca de US$ 2,1 milhões em caixa.

A companhia também enfrenta processo movido pelo UMB Bank por US$ 45 milhões, relacionado a um financiamento firmado em 2023. A ação alega transferências irregulares de recursos, o que é negado pela empresa, que entrou com reconvenção. O caso deve ir a julgamento em 2027.

Apesar das dúvidas sobre a viabilidade de Round Top, a USA Rare Earth adquiriu a britânica Less Common Metals por US$ 217 milhões —um ativo considerado estratégico. A empresa possui expertise na transformação de terras raras em metais usados na fabricação de ímãs, embora opere com prejuízo e receita limitada.

A USA Rare Earth pretende expandir essa operação com novas unidades na França e nos Estados Unidos, incluindo uma fábrica de ímãs em Oklahoma, com planos de produção em escala até o fim da década. Especialistas apontam a Less Common Metals como uma peça relevante da cadeia fora da China.

Para o setor, um desafio central é a dependência de apoio público. Empresas argumentam que não conseguem competir com rivais chineses, que operam com custos mais baixos e maior escala. Isso tem impulsionado a defesa de mecanismos como preços mínimos garantidos —modelo já adotado em acordo com a MP Materials.

Humpton, no entanto, afirmou que a empresa não depende desse tipo de instrumento, citando a existência de demanda suficiente fora da China para sustentar o negócio.
 

Fonte: Folha de São Paulo
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 31/03/2026