Guerra tarifária do aço amplia tensão entre China, Europa e Reino Unido
Guerra tarifária do aço amplia tensão entre China, Europa e Reino Unido
A escalada das disputas comerciais no mercado global do aço ganhou novos capítulos nas últimas semanas, envolvendo diretamente China, União Europeia e Reino Unido. Entre tarifas mais rígidas, subsídios bilionários, riscos de nacionalização e acusações de concorrência desleal, o setor siderúrgico vive uma reconfiguração profunda, marcada pelo avanço do intervencionismo estatal e pela crescente fragmentação das cadeias globais de produção.
A mais recente tensão surgiu após a União Europeia confirmar mudanças em sua política tarifária para o aço, com novas medidas previstas para entrar em vigor em 1º de julho. A reação da China foi imediata. O porta-voz do Ministério do Comércio chinês, He Yadong, afirmou que as decisões europeias poderão afetar diretamente o comércio siderúrgico entre os dois mercados e reduzir a competitividade da indústria europeia.
Segundo o governo chinês, as medidas podem gerar impactos sobre as cadeias globais de produção e suprimentos em um momento de desaceleração econômica e reorganização industrial em diversas regiões do mundo. Pequim também alertou que poderá adotar ações de proteção comercial caso empresas e produtos chineses sejam alvo de medidas consideradas discriminatórias.
A disputa ocorre enquanto China e União Europeia seguem negociando no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), em uma tentativa de evitar o agravamento das tensões comerciais. Ainda assim, o endurecimento tarifário europeu reflete um movimento cada vez mais amplo de defesa das indústrias locais diante da crescente pressão do aço chinês, historicamente beneficiado por elevados níveis de subsídios governamentais.
No Reino Unido, o cenário também se tornou motivo de preocupação para empresas da cadeia siderúrgica e da construção civil. A Cleveland Steel & Tubes, fornecedora britânica de aço, alertou que as mudanças tarifárias planejadas pelo governo poderão provocar perda de empregos e estimular a transferência da fabricação de estruturas metálicas para outros países.
As novas regras reduzem significativamente as cotas de importação isentas de tarifas e ampliam as taxas sobre o aço importado quando esses limites forem excedidos. Segundo a empresa, algumas categorias terão redução de cotas de até 90%, enquanto as tarifas podem dobrar, passando de 25% para 50%.
Para Roy Fishwick, diretor-geral da Cleveland Steel & Tubes, as medidas podem gerar efeitos contrários aos desejados pelo governo britânico. Embora o objetivo seja proteger a produção nacional, a indústria local não possui capacidade suficiente para atender integralmente à demanda doméstica, especialmente em produtos específicos utilizados pela construção civil.
“O Reino Unido não fabrica, em quantidade suficiente, alguns dos tipos e tamanhos de aço de que precisamos”, afirmou Fishwick. Segundo ele, a consequência prática pode ser o aumento das importações de aço já pré-fabricado, uma vez que as tarifas não se aplicam da mesma forma sobre componentes prontos vindos do exterior.
O executivo também alertou para impactos sobre projetos de construção sustentável. Empresas que utilizam aço reutilizado ou aço de baixo carbono produzido em fornos elétricos fora do Reino Unido podem enfrentar custos maiores, dificultando metas de descarbonização em grandes obras.
O debate europeu sobre proteção industrial ocorre em paralelo a um movimento mais amplo de fortalecimento dos subsídios estatais dentro da União Europeia. Desde a pandemia de covid-19 e da crise energética agravada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, os países europeus vêm ampliando significativamente os mecanismos de apoio às empresas.
Em 2024, os países da União Europeia desembolsaram juntos mais de 168 bilhões de euros em subsídios considerados compatíveis com as regras do bloco. O valor representa quase 1% do Produto Interno Bruto europeu e evidencia a mudança de postura da região em relação à intervenção estatal na economia.
A flexibilização das regras de ajuda estatal tem sido defendida por governos como os da França e Alemanha, que argumentam que a Europa precisa proteger suas indústrias estratégicas diante da concorrência de países como China e Estados Unidos, ambos adeptos de políticas industriais agressivas e altos níveis de subsídios.
No centro desse debate está a transição energética e a descarbonização da indústria pesada europeia. Empresas siderúrgicas afirmam que não conseguirão sustentar os elevados custos da transformação sem apoio financeiro dos governos.
O CEO da siderúrgica alemã Salzgitter, Gunnar Groebler, comparou a descarbonização a uma ponte cara de construir e impossível de atravessar sem ajuda estatal. Segundo ele, abandonar a transição no meio do caminho colocaria em risco a própria sobrevivência da indústria europeia.
A discussão, porém, divide economistas e governos do bloco. Países de perfil mais liberal, como Holanda e nações escandinavas, argumentam que o excesso de subsídios pode distorcer a concorrência dentro do mercado europeu e favorecer principalmente Alemanha e França, que possuem maior capacidade fiscal para financiar suas indústrias.
Além disso, críticos apontam que a dependência crescente de ajuda estatal pode reduzir os incentivos para reformas estruturais voltadas à competitividade, inovação e eficiência energética.
A disputa comercial envolvendo o aço ganhou dimensão ainda maior com a crise da British Steel. A empresa, adquirida em 2020 pelo grupo chinês Jingye, tornou-se símbolo das dificuldades enfrentadas por investidores chineses no Ocidente em meio ao avanço das barreiras comerciais e da rivalidade geopolítica.
Segundo analistas chineses, a compra da British Steel fazia parte de uma estratégia para usar a capacidade produtiva britânica como plataforma de acesso aos mercados ocidentais e forma de contornar tarifas norte-americanas sobre o aço chinês.
O plano, entretanto, sofreu forte impacto após o governo dos Estados Unidos ampliar tarifas sobre importações de aço e alumínio, incluindo produtos vindos do Reino Unido. Washington alegou que empresas chinesas vinham adquirindo siderúrgicas estrangeiras para driblar restrições comerciais impostas ao aço produzido diretamente na China.
Com dificuldades financeiras agravadas pelos altos custos de energia no Reino Unido e pela concorrência do aço chinês barato, a British Steel passou a operar com prejuízos elevados. O governo britânico então aprovou uma legislação emergencial que permite assumir o controle da companhia e até avançar para uma possível nacionalização.
A medida elevou a tensão diplomática entre Londres e Pequim. O governo chinês afirmou que a Grã-Bretanha deve agir com imparcialidade, respeitar os investimentos realizados pelo grupo Jingye e preservar os direitos das empresas chinesas.
A crise evidencia como a siderurgia se tornou um dos setores mais sensíveis da nova disputa geopolítica global. O aço, tradicionalmente associado à base industrial das economias, voltou ao centro das estratégias nacionais de segurança econômica, transição energética e defesa comercial.
Em um cenário marcado por tarifas crescentes, subsídios bilionários e reorganização das cadeias produtivas, governos e empresas buscam equilibrar proteção industrial, competitividade e sustentabilidade. O resultado dessa disputa tende a moldar os rumos da indústria siderúrgica mundial nos próximos anos.
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 29/05/2026