Importação de aço da China deixa investimentos da siderurgia em compasso de espera
Importação de aço da China deixa investimentos da siderurgia em compasso de espera
A indústria siderúrgica brasileira acompanha em compasso de espera a definição de novas medidas contra a importação de aço da China. As empresas do setor suspenderam investimentos em expansão na capacidade produtiva e reivindicam que o governo federal adote mecanismos de defesa comercial mais efetivos do que o sistema cota-tarifa.
O sistema foi criado pela União em 2024 e combina taxas de 25% com cotas de importação para 25 produtos de aço classificados na Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), mas não tem conseguido impedir o crescimento do aço importado chinês no mercado nacional.
De acordo com o Instituto Aço Brasil, as importações de aço no mercado brasileiro seguiram em expansão em 2025, com a entrada de 6,4 milhões de toneladas. Desse volume, 5,7 milhões de toneladas foram de laminados, um salto de 20,5% em comparação ao ano anterior. A importação de produtos laminados alcançou o maior volume em 15 anos.
Atualmente, o volume de laminados de aço que entra no país é 168% superior à média das importações entre 2000 e 2019, de 2,2 milhões de toneladas. Esse crescimento levou a penetração de importados (“import penetration”) para 21%, ante o patamar histórico de 9,7%.
Consequentemente, a produção brasileira de aço bruto alcançou 33,3 milhões de toneladas em 2025, uma queda de 1,6% frente ao ano anterior, segundo o Instituto.
O Aço Brasil afirma que a atual penetração de importados é “inaceitável” e que a concorrência com uma competição considerada predatória no comércio mundial do aço já causou o fechamento de 5 mil vagas de emprego e o corte de R$ 2,5 bilhões em investimentos no setor.
Para o presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço do Brasil (Inda), Carlos Loureiro, a alíquota do sistema cota-tarifa não tem sido efetivo para impedir uma inundação de aço chinês no país, que já sofre o impacto de uma alta taxa básica de juros (Selic), que inibe investimentos.
“Se não vier nada com relação a dumping, nós vamos ter de novo mais um ano perdido. O sistema cota-tarifa não serviu para nada, porque 25% não segura nada da China. Da China tem que vir muito mais que 25%”, declarou.
O CEO da Aperam South America, Rodrigo Villela, apontou que a empresa tem investimentos importantes para serem feitos no Brasil, como a ampliação da capacidade da usina siderúrgica de Timóteo, no Vale do Aço, mas que estão os planos estão “absolutamente suspensos” por conta do cenário com a concorrência contra o aço importado chinês.
A retomada dos investimentos passará pelos movimentos do ambiente de negócios brasileiro, afirmou, em um cenário que hoje desafia a indústria instalada no Brasil. Villela apontou que o crescimento das importações é mais do que o dobro do crescimento do mercado brasileiro de aço inoxidável e o cenário não é muito diferente também na linha de aço eletrolíticos.
“Em um cenário de crescimento dessa magnitude da importação versus o próprio crescimento do mercado, os investimentos de crescimento e capacidade deixam de ser atrativos no curto prazo, até que a gente veja uma luz no fim do túnel, para que o mercado brasileiro passe a ter regras mais justas de competição”, destacou o CEO da Aperam.
Perto da Aperam, em Ipatinga, cidade vizinha a Timóteo no Vale do Aço, a Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas) também avalia recalcular a rota dos investimentos frente ao aço importado com origem na superpotência asiática.
O diretor corporativo de relações institucionais e comunidades da Usiminas, André Chaves, cita uma frustração da siderúrgica após passar por um plano de investimento robusto. A empresa investiu pesado nos últimos anos para aumentar a produtividade e esperava estar com um nível de ocupação da capacidade instalada em um nível muito maior do que o atual.
Somente a reforma do Alto-forno 3, responsável por 70% da produção da Usiminas, consumiu R$ 2,7 bilhões.
“Hoje a gente tem uma ociosidade que é muito acima daquilo que são os níveis saudáveis para a indústria siderúrgica. Isso para nós é um motivo de muita preocupação e um motivo de colocar sob muita atenção. Não tomamos uma decisão clara de um cancelamento de algum projeto específico, mas a gente olha com muita atenção e revisa semanalmente, periodicamente, a nossa agenda de investimentos”, apontou.
Ele ressaltou que hoje, a Europa, os Estados Unidos e alguns países asiáticos têm medidas para combater o comércio considerado desleal com o aço chinês e que o Brasil deveria adotar o mesmo caminho. “Nós não estamos pedindo proteção. A gente está precisando combater algo que é desleal, ilegal, uma vez que é reconhecido internacionalmente que a prática de dumping é algo ilegal”, argumentou.
Brasil e mundo com excesso de capacidade na produção
O líder de Energia e Recursos Naturais da EY, Afonso Sartório, aponta que a siderurgia não só nacional, como a internacional, enfrenta grandes excessos de capacidade instalada. No Brasil, com uma produção de 33 milhões de toneladas no último ano, há ainda capacidade para produzir mais 17 milhões, o que resultaria no potencial de 50 milhões de toneladas produzidas por ano.
No mundo o cenário é ainda mais impressionante. O excesso de capacidade é da ordem de 600 milhões de toneladas por ano. Cerca de metade da produção mundial de aço, de 1,8 trilhão de toneladas, vem da China, o que gera uma necessidade do gigante asiático alocar o produto no mercado.
Ele analisa que a adoção de qualquer medida comercial tem que ser balanceada, para não impactar negativamente outros setores da economia brasileira.
“É importante proteger a indústria de produção de aço, mas a gente tem que olhar a indústria e os consumidores como um todo. Se encarece muito o custo do aço a partir dessa importação, vai tendo efeitos nas outras etapas da cadeia produtora do Brasil - a indústria de manufatura pesada, por exemplo", analisa.
"Isso reflete na capacidade de investimento das empresas que vão usar esses produtos e na capacidade ou de rentabilizar esses produtos ou a demanda dos consumidores por um encarecimento. Tem um impacto na economia do país”, complementa.
Saída pode estar na descomoditização e economia verde
O consultor da EY apontou que uma alternativa frente ao desafiador cenário para a indústria siderúrgica seria focar na sustentabilidade, por meio de um entendimento entre governo federal e a indústria para o fomento e/ou parcerias comerciais com mineradoras para projetos verdes, que tem acesso a fundos diferenciados.
“Uma siderurgia mais verde e menos descomoditizada. São mercados de muito volume e um mercado que tem muito excesso de capacidade, então não vale a pena focar a estratégia futura nos próximos anos em volume. Você tem que tentar encontrar nichos em que o seu produto tenha uma aceitação diferenciada, e a descarbonização e a descomoditização, as aplicações especiais, formam um caminho legal”, avalia.
Esta seara tem sido analisada com lupa pela Aperam. A empresa recentemente fechou contratos para o fornecimento de energia solar e eólica e produz carvão vegetal com certificação florestal, selo que garante uma gestão responsável das florestas. Além disso, produz um aço inox com níquel que é composto por aproximadamente 50% de sucata.
Apesar de se considerar bem posicionada na economia sustentável, a valorização do aço verde no mercado ainda gera certa dúvida para o futuro da Aperam.
“A gente cada vez mais busca alternativas para evoluir mais ainda. Hoje nós temos uma pegada de carbono muito eficiente e eu acredito que trará uma vantagem competitiva para nós. O mercado ainda vai, assim, não na velocidade que a gente gostaria de valorização, mas eu acredito que esse é um caminho sem volta”, disse.
A Usiminas também tem investido no fornecimento de energia solar e gás natural como foco em uma produção com menores emissões de gases de efeito estufa, mas a utilização da sucata é mais limitada tecnicamente. A siderúrgica é voltada para a produção de aços planos, insumo em que a aplicação da sucata não é tão viável, especialmente em alguns nichos de mercado, como o setor automotivo.
“A Usiminas é uma produtora de aço que considera a sucata, dentro dos limites técnicos para as propriedades de aplicação dos aços, que considera o benchmarking internacional para todas essas classes de aço. E a gente considera outras alternativas”.
Fonte: O Tempo
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 27/01/2026