Indústria processadora do aço entra em 2026 sob ambiente defensivo, pressionada por importações recordes e retração da produção nacional

Indústria processadora do aço entra em 2026 sob ambiente defensivo, pressionada por importações recordes e retração da produção nacional

A indústria processadora do aço inicia 2026 em um ambiente de elevada incerteza e concorrência acirrada, após encerrar 2025 marcada pelo avanço expressivo das importações, especialmente de origem chinesa, e pela retração da produção nacional. Dados consolidados pela Abimetal-Sicetel, com base em estatísticas do ComexStat e do IBGE, indicam que o setor enfrenta uma mudança estrutural no padrão competitivo, com impacto direto sobre margens, investimentos e estratégias empresariais, exigindo postura cada vez mais defensiva por parte das indústrias instaladas no país.

Importações atingem maior nível desde o período pré-pandemia

O desempenho da indústria processadora de aço em 2025 foi fortemente condicionado pelo crescimento das importações, que alcançaram 821,2 mil toneladas de produtos processados, o maior volume desde antes da pandemia de Covid-19. O número representa alta de 16,1% em relação a 2024 e quase o dobro do registrado em 2019, configurando um salto relevante na penetração de produtos estrangeiros no mercado brasileiro.

A China consolidou-se como principal origem dessas importações, respondendo por 489,9 mil toneladasem 2025 — mais de três vezes o volume importado em 2019. O movimento reforça a dependência crescente do mercado brasileiro em relação à produção asiática e amplia a pressão competitiva sobre os fabricantes nacionais.

Segundo a entidade setorial, o avanço não ocorreu de forma uniforme. Pelo contrário, concentrou-se em segmentos estratégicos e altamente sensíveis a preço, justamente aqueles com maior participação no consumo interno e relevância para a cadeia produtiva doméstica.

Segmentos estratégicos concentram o avanço dos produtos importados

De acordo com o presidente da Abimetal-Sicetel, Ricardo Martins, o aumento das importações incide de forma direta sobre itens-chave da indústria processadora. Entre 2019 e 2025, os dados revelam uma mudança estrutural no ambiente competitivo, com elevação expressiva das importações em diversos produtos:

Perfis de ferro ou aço não ligado: +134%
Cabos de aço: +133,9%
Arames de aço: +120,8%
Pregos: +88,3%
Tiras e fitas de aço: +82,1%
Na comparação mais recente, entre 2024 e 2025, o crescimento permaneceu concentrado em itens específicos, como tiras e fitas de aço (+41,5%), cabos de aço (+33,6%) e arames de aço (+14,1%).

Embora alguns produtos tenham apresentado retração pontual — como arame farpado (-29,8%), pregos (-27,0%) e telas (-1,0%) —, esses movimentos não foram suficientes para alterar o quadro geral de alta penetração de importados em segmentos estratégicos, segundo avaliação da entidade.

Pressão competitiva exige postura defensiva das empresas

Segundo o presidente da Abimetal-Sicetel, Ricardo Martins, o cenário enfrentado pela indústria processadora do aço em 2025 não foi episódico, mas estrutural, e tende a se prolongar ao longo de 2026.

“A combinação entre preços chineses artificialmente baixos e o fechamento de grandes mercados, como os Estados Unidos, criou um ambiente internacional altamente desfavorável à indústria processadora brasileira. Em 2025, competimos em condições desiguais, e, sem medidas internas de defesa comercial, o Brasil continuará exposto a esse movimento”, afirmou Martins.

Na avaliação do dirigente, mesmo eventuais ajustes tarifários ou mudanças pontuais no comércio internacional não são suficientes para alterar, no curto prazo, a assimetria competitiva enfrentada pelo setor.

“O ano exigirá das empresas capacidade de adaptação, eficiência operacional e posicionamento estratégico, em um contexto de margens comprimidas e elevada incerteza”, acrescentou.

Produção nacional recua pelo quarto ano consecutivo

O avanço das importações tem reflexos diretos sobre a atividade industrial doméstica. Dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF), do IBGE, indicam que a produção de trefilados, segmento que inclui cabos, cordoalhas, grampos, pregos e telas metálicas, recuou 10,8% em novembro de 2025, na comparação anual.

No acumulado do ano, a queda foi de 1,6%, consolidando o quarto ano consecutivo de retração para esse segmento específico. O desempenho negativo evidencia a dificuldade das empresas nacionais em competir com produtos importados a preços mais baixos e com condições comerciais mais favoráveis.

No agregado de Produtos de Metal — exceto máquinas e equipamentos, que inclui trefilados e outros itens fabricados por associadas da Abimetal-Sicetel, houve crescimento pontual de 2,7% em novembro frente a outubro, movimento insuficiente para compensar a queda de 6,8% na comparação anual e o recuo de 1,9% no acumulado de 2025.

Preços internacionais deprimidos ampliam a assimetria competitiva

Além do aumento das importações, o cenário internacional de preços contribuiu para aprofundar a assimetria competitiva enfrentada pela indústria brasileira. Levantamento da Abimetal-Sicetel mostra que, ao longo de 2025, os preços internacionais do aço permaneceram em patamares baixos ou estáveis, com destaque para os produtos de origem chinesa.

Na comparação entre 1º de janeiro de 2026 e 1º de janeiro de 2025, os preços chineses, em dólares, apresentaram queda em itens relevantes da cadeia:

Fio-máquina: -2,1%
Vergalhão: -4,2%
Bobina a quente: -1,0%
Bobina a frio (aço carbono): -5,0%
Mesmo com reajustes pontuais no início de 2026, os preços seguem considerados baixos, refletindo a fraqueza do mercado interno chinês e a estratégia de direcionar o excedente de capacidade produtiva para mercados mais abertos, como o brasileiro.

Protecionismo dos EUA intensifica redirecionamento de fluxos

O cenário foi agravado por medidas protecionistas adotadas pelos Estados Unidos, que elevaram para 50% as tarifas sobre produtos siderúrgicos e processados de aço, inclusive aqueles exportados por empresas brasileiras. Como efeito colateral, parte desses volumes passou a ser redirecionada para mercados com menor nível de proteção, intensificando a concorrência no Brasil.

Na avaliação da Abimetal-Sicetel, a combinação entre preços chineses deprimidos e barreiras tarifárias em grandes mercados consumidores criou um ambiente internacional particularmente desfavorável à indústria processadora nacional. Sem mecanismos internos de defesa comercial, o país tende a permanecer exposto a esse movimento.

Estratégias defensivas e seletividade nos investimentos em 2026

Diante desse contexto, a entidade projeta para 2026 um ambiente de baixa perspectiva de recuperação, com margens comprimidas, elevada incerteza e necessidade de adaptação constante. A gestão das empresas deverá se concentrar em eficiência operacional, controle rigoroso de custos e decisões seletivas de produção e investimento.

O acompanhamento da evolução do comércio internacional e das políticas de defesa comercial é apontado como elemento central para a formulação de estratégias, que tendem a ser cada vez mais individualizadas, conforme o grau de exposição de cada segmento à concorrência externa.

Concorrência externa, assimetria regulatória e riscos à base industrial

O desempenho da indústria processadora do aço em 2025 evidencia uma tensão estrutural entre a abertura do mercado brasileiro e a ausência de instrumentos eficazes de defesa comercial diante de um cenário global marcado por excesso de capacidade produtiva e políticas protecionistas seletivas. O avanço das importações não se limita a um ciclo conjuntural, mas sinaliza uma mudança duradoura no padrão competitivo.

A concentração das importações em segmentos estratégicos revela um risco direto à densidade industrial da cadeia do aço no Brasil, com impactos potenciais sobre emprego, investimentos e inovação. A retração da produção nacional, pelo quarto ano consecutivo em alguns segmentos, reforça a leitura de que o problema vai além de flutuações temporárias de demanda.

Sem uma estratégia coordenada de política industrial e defesa comercial, o país tende a aprofundar sua dependência de produtos importados em áreas sensíveis, comprometendo a capacidade de resposta da indústria nacional a choques externos e limitando sua competitividade no médio e longo prazos.

 
Fonte: Jornal Grande Bahia
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 28/01/2026