Indústrias calculam o ‘preço’ do tarifaço
Indústrias calculam o ‘preço’ do tarifaço
A fabricante de armas Taurus espera em algum momento reaver US$ 18 milhões pagos em tarifas de exportação para os Estados Unidos, as quais foram derrubadas em fevereiro pela Suprema Corte do país. Assim como ela, outras grandes companhias brasileiras, exportadoras ou com produção na América do Norte, passaram a segunda metade de 2025 buscando formas de contornar os impactos do tarifaço.
Passada a safra de balanços do quarto trimestre e do exercício de 2025, indústrias como Tupy, Iochpe-Maxion, WEG e a própria Taurus fazem as contas dos estragos que as tarifas americanas fizeram em suas contas.
“A nossa guerra acabou”, afirmou o diretor-presidente da Taurus, Salesio Nuhs, na teleconferência de resultados do quarto trimestre da companhia, ao referir-se ao fim da cobrança da tarifa de 50% que vinha incidindo sobre os embarques para os EUA. Armas não entraram na lista de produtos isentos da sobretaxa de 40%, anunciada por Donald Trump em julho do ano passado e somada à alíquota “recíproca” de 10% aplicada inicialmente.
A multinacional brasileira Iochpe-Maxion, com atuação em 14 países na produção de rodas para veículos e insumos para a indústria de transporte, registrou um impacto de R$ 700 milhões em sua receita devido ao tarifaço. Como tem quatro unidades no México e nos EUA, a companhia não teve efeitos diretos das tarifas, já que, por acordos regionais, seus produtos fabricados no México são isentos quando o destino é o mercado americano. Mas sua produção foi impactada por uma queda no volume de vendas de rodas de aço e chassi para caminhões de grande porte. Foi um efeito indireto, já que, com as tarifas, as importações americanas caíram, levando junto o volume e o preço dos fretes e a vontade dos transportadores de renovar a frota.
“A queda de volumes esteve muito mais relacionada ao enfraquecimento da demanda final do que a um efeito direto das tarifas”, resume Renato Salum, diretor financeiro e de relações com investidores da Iochpe-Maxion, ao Valor. “A queda da produção de caminhões na América do Norte no ano passado teve um efeito mais indireto do que direto das tarifas. O comprador final não percebe imediatamente o impacto inflacionário nos preços, o que aumenta a incerteza e leva ao adiamento da decisão de compra, afetando a demanda ao longo da cadeia, inclusive no México”, afirma Salum.
Segundo o executivo, em termos financeiros, a Iochpe-Maxion teve “uma redução de aproximadamente R$ 700 milhões no faturamento, o equivalente a cerca de 35% da receita [da área] de componentes estruturais na América do Norte”.
Segundo Salum, com base em conversas com clientes e análises de consultorias especializadas, há expectativa de normalização da demanda no segundo semestre de 2026. “Essa visão é sustentada pelo aumento dos pedidos de veículos extrapesados observado desde o fim de 2025, movimento que se intensificou no início deste ano.”
Para a Taurus, a nova tarifa de 10% anunciada por Trump no mesmo dia da decisão judicial, com base em outro dispositivo, este da Lei de Comércio, foi praticamente compensada pelo aumento de 7% que a companhia implementou sobre os preços dos seus produtos praticados nos EUA ainda no início do tarifaço, segundo Nuhs.
"Queda de volumes esteve mais relacionada ao enfraquecimento da demanda final”
— Renato Salum
Para minimizar os efeitos, a companhia também ativou linhas de montagem na subsidiária Taurus USA, no Estado da Geórgia, passando a exportar peças, que têm valor agregado menor do que os produtos já montados. Hoje, são fabricadas na unidade todas as pistolas da família G.
“Além disso, tomamos medidas radicais com relação à produtividade, seja por redução de pessoas, ou por alteração dos nossos processos produtivos”, conta Nuhs ao Valor. Mesmo assim, a Taurus estima em US$ 18 milhões o montante pago em tarifas em 2025 e no início deste ano.
A Taurus chegou a contratar dois escritórios de advogados nos EUA para buscar a devolução das tarifas e recentemente decidiu seguir com um só.
A fundição Tupy citou o tarifaço como um fator de pressão sobre as vendas de componentes estruturais, como blocos e cabeçotes de motores, no seu desempenho do quarto trimestre. A receita líquida com esse segmento de produtos recuou 5,1% na base anual, para R$ 1,31 bilhão no período.
Para este ano, o comando da fundição disse, na teleconferência de resultados, enxergar sinais positivos no cenário externo, com a redução de incertezas relativas às tarifas refletindo-se em um aumento de pedidos em montadoras, o que deve ampliar a produção da Tupy a partir do segundo semestre. Procurada, a empresa não quis comentar.
Em relatório, analistas do banco Safra apontaram que a remoção da tarifa de 50% deve aumentar a competitividade da WEG, permitindo a ela retomar exportações diretas do Brasil para os EUA, em vez de necessariamente usar o México como intermediário. Em entrevista ao Valor em outubro do ano passado, o diretor-financeiro, André Rodrigues, contou que a unidade mexicana da companhia estava quase que totalmente dedicada ao mercado dos EUA.
Na teleconferência do quarto trimestre, após a derrubada das tarifas, Rodrigues afirmou que ainda era cedo para desenhar um novo cenário e ressaltou que continua em vigor a tarifa de 50% colocada sobre importações de aço e alumínio e vários derivados, por meio da Seção 232 da Lei de Expansão do Comércio. Em uma análise do balanço, o Citi afirmou que, apesar de a receita ter seguido pressionada, a margem bruta de 34% alcançada no quarto trimestre sugere que a WEG “está melhorando seu ‘mix’ e enfrentando os impactos das tarifas mais rapidamente do que o mercado havia antecipado”. Procurada, a WEG não quis comentar.
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 01/04/2026