Lula e Trump têm reunião ‘sem tabus’ e disposição para parcerias
Lula e Trump têm reunião ‘sem tabus’ e disposição para parcerias
A primeira reunião bilateral nos EUA entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o americano Donald Trump foi marcada pela discussão de “assuntos que pareciam tabus” e pela promessa de que o Brasil está disposto a fazer parcerias com diferentes países, sem restrições geopolíticas, segundo o petista.
“Volto ao Brasil mais otimista. Acho que o presidente Trump também ficou otimista e espero que as coisas comecem a avançar”, disse Lula em entrevista coletiva nesta quinta-feira (7) em Washington, após reunião bilateral seguida de almoço com Trump. O encontro era esperado para ocorrer em março, mas, devido ao envolvimento dos EUA em conflitos internacionais, a data foi alterada.
Segundo Lula, a conversa não evitou assuntos complexos, mas dois temas que se tornaram alvo dos EUA contra o Brasil (Pix e classificação de facções criminosas como terrorismo) não foram abordados no encontro.
O presidente ressaltou que o Brasil está aberto a construir parcerias internacionais com diferentes países, sem restrições geopolíticas, em referência a terras raras. “A única coisa que ele [Trump] precisa saber é o seguinte: o Brasil está disposto a construir parcerias onde eles quiserem construir parceria. Não há veto aos Estados Unidos, como também não há veto à China, à França, à Índia ou à Alemanha.”
O presidente brasileiro disse que ao contrário do que aconteceu no passado, com minerais como ouro e prata, desta vez o Brasil terá um comportamento diferente. “Não queremos ser meros exportadores de minerais”, disse, e completou: “Queremos que o Brasil seja o grande ganhador”, em referência ao beneficiamento e refino de minerais críticos no Brasil.
No encontro, Lula pediu a Trump o fim da investigação aberta contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei do Comércio, segundo informou fonte do governo. No entanto, não foram discutidos os temas listados no processo, que vão do Pix ao desmatamento, de big techs a etanol. São práticas supostamente desleais e prejudiciais ao comércio, na visão dos EUA. Assim, essa investigação pode resultar em tarifas adicionais sobre produtos brasileiros.
Ficou acertado que as equipes técnicas dos dois países vão discutir, ao longo dos próximos 30 dias, os pontos de controvérsia. O debate, disse a fonte, ficará concentrado sobretudo em tarifas, pois há diferentes entendimentos sobre o nível delas. Ao final, a expectativa do lado brasileiro é que a investigação acabe sem a imposição de tarifas.
A investigação da Seção 301 é o ponto de atenção mais imediato do Brasil, pois poderá resultar, na prática, em um novo “tarifaço”. Nesse processo, os negociadores têm apresentado dados para justificar as práticas brasileiras. As reuniões têm caminhado bem, o que aumenta o otimismo no governo.
"Acho que o presidente Trump também ficou otimista e espero que as coisas comecem a avançar”
— Lula
Em relação às tarifas, o presidente Lula disse que reforçaram a vantagem dos EUA na balança comercial com o Brasil. Buscaram esclarecer ainda que a média de tarifas do Brasil é de 2,7% para os produtos dos EUA, mas o representante de Comércio americano, Jameson Greer, presente ao encontro, parece ter atuado como o “bad cop” do diálogo apontando percentuais maiores. Ficou acertado que as equipes dos dois governos vão trabalhar por mais 30 dias para avançar nas negociações sobre tarifas de importação sobre produtos brasileiros.
Segundo Lula, durante a conversa ele falou a Trump sobre a importância de os EUA voltarem a “ter interesse nas coisas do Brasil”. Ele afirmou ter falado a Trump que tanto EUA como a União Europeia deixaram de perceber a importância da América Latina, citando como exemplo a falta de interesse de empresas americanas em licitações de obras públicas no Brasil.
Em relação às facções criminosas brasileiras, Lula disse que o tema não foi discutido no encontro. No entanto, o presidente afirmou que o combate ao crime organizado sim foi discutido, Lula destacou que o Brasil tem expertise no assunto e sugeriu que essa seja uma ação conjunta entre diversas nações não cabendo a um ou outro país fazer isso isoladamente.
“Eu disse para ele [Trump] que nós [Brasil] estamos dispostos a construir um grupo de trabalho com todos os países da América do Sul, com todos os países da América Latina e, quiçá, com todos os países do mundo para criar um grupo forte de combate ao crime organizado. Não é a hegemonia de um país ou de outro querer combater o crime organizado. É uma coisa que tem que ser compartilhada com todos.”
O assunto também foi abordado pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que destacou que ações de cooperação entre Brasil e EUA no combate ao crime organizado e defendeu a ampliação de ações conjuntas entre os países para melhorar os resultados. Segundo ele, na área aduaneira, a troca de dados entre maio de 2025 e abril de 2026 resultou na apreensão de meia tonelada de armas e uma tonelada de drogas sintéticas provenientes dos EUA.
Sobre eventual intervenção do presidente americano nas eleições brasileiras, Lula disse acreditar que Trump irá se “comportar como presidente dos Estados Unidos, deixando que os brasileiros decidam”. E reforçou que ele, como presidente do Brasil, respeita Trump por ele ter sido eleito pelo povo dos Estados Unidos. O presidente disse ainda que os apoios eleitorais no Brasil não entram na pauta de suas conversas com nenhum presidente. A agenda ocorreu em um momento em que o governo Lula enfrenta desaprovação. De olho no pleito de outubro, o presidente quer usar a defesa dos interesses nacionais como instrumento para reverter esse cenário.
Pelo lado americano, Trump afirmou em suas redes que considerou a reunião “muito boa” e não descartou novos encontros com Lula, a quem se referiu como “alguém muito dinâmico”. “Tivemos uma ótima reunião com o presidente do Brasil. Estamos fazendo muito comércio e vamos aumentar esse comércio ainda mais. Falamos sobre tarifas. Falamos também que, você sabe, eles gostariam de algum alívio nas tarifas. Mas tivemos uma reunião muito boa. Ele é um bom homem. É um cara inteligente”, escreveu Trump.
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 08/05/2026