Mercado espera início de cortes na Selic, mas se divide sobre magnitude
Mercado espera início de cortes na Selic, mas se divide sobre magnitude
O cenário que parecia amplamente favorável para o início dos cortes de juros no Brasil foi alterado de modo brusco desde a eclosão da guerra no Oriente Médio. Com o salto dos preços do petróleo e as incertezas sobre os efeitos inflacionários que virão do conflito, economistas passaram a rever suas projeções nos últimos dias quanto aos próximos passos da política monetária. Se antes o mercado se ancorava na comunicação do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) para acreditar em um corte de 0,5 ponto percentual na Selic, agora há uma leve maioria que acredita em uma redução menor, de 0,25 ponto, na quarta-feira.
É o que mostra a pesquisa realizada pelo Valor com 103 participantes do mercado, entre bancos, gestoras de recursos e consultorias. Enquanto 49 casas esperam que o Copom inicie o afrouxamento com um corte de 0,5 ponto, 53 se mostram mais cautelosas e acreditam que o colegiado irá reduzir os juros básicos em 0,25 ponto. Apenas uma instituição, a Neo Investimentos, vê a Selic parada em 15%.
Com os preços do barril de petróleo Brent se mantendo na faixa dos US$ 100 nos últimos dias, houve uma mudança radical na percepção dos investidores globais sobre a capacidade de os bancos centrais cortarem mais os juros ao longo deste ano. Nos EUA, importantes instituições financeiras já esperam que a taxa dos fed funds se mantenha inalterada ao menos até o fim do ano.
No Brasil não foi diferente. Ainda que a guerra não tenha sido suficiente para fazer os investidores abandonarem totalmente a hipótese de o Banco Central cortar os juros, uma dose adicional de cautela passou a ser incorporada nas expectativas. Prova disso é que grandes instituições financeiras, que esperavam um corte de 0,5 ponto, alteraram suas projeções para uma redução menor na taxa.
O Goldman Sachs foi uma das primeiras a rever suas expectativas. “O cenário-base do Banco Central foi alterado pelo conflito no Oriente Médio, que levou a uma forte alta nos preços do petróleo, fortalecimento do dólar, achatamento da curva de juros nos Estados Unidos, aumento da aversão ao risco e condições financeiras mais apertadas — tudo isso em meio a um ambiente de maior risco geopolítico global. Se não fossem esses acontecimentos, acreditamos que o Copom provavelmente realizaria um corte de 0,5 ponto”, afirma a equipe liderada por Alberto Ramos, que ainda vê uma pequena probabilidade de não haver corte nenhum na decisão desta semana.
“Não fosse o fato de o Copom já ter sinalizado um corte para esta reunião, é provável que optasse por não reduzir os juros neste momento”, conclui.
O BNP Paribas seguiu caminho semelhante e também passou a esperar um corte de 0,25 ponto. Segundo a equipe de América Latina, liderada pela ex-diretora de assuntos internacionais do BC, Fernanda Guardado, o aumento nos preços do petróleo deve impactar as projeções do Copom, ainda que o colegiado utilize uma abordagem para suavizar o impacto do choque no modelo.
“Mesmo no cenário mais benigno, que projeta o petróleo a US$ 74 por barril no fim do ano, a projeção do BC para o horizonte relevante sobe 0,2 ponto, afastando-se da meta e mais do que compensando a apreciação de 2,8% do real desde a reunião de política monetária de janeiro. Vale notar que o modelo do BC também incorpora premissas mais benignas para o hiato do produto e para a taxa de juros neutra do que aquelas utilizadas por nós e pela maioria dos analistas”, lembra Guardado.
“Na nossa avaliação, uma estratégia preferível seria adotar uma postura de espera diante do cenário atual. O comitê poderia inclusive adiar o início do ciclo de afrouxamento para a reunião de abril, quando as autoridades presumivelmente teriam mais clareza tanto sobre a atividade doméstica quanto sobre o cenário geopolítico”, conclui.
Na visão de Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos, a “chacoalhada” que a guerra provocou nos preços do petróleo e no ambiente global de aversão a risco “dá subsídio” para o BC tomar qualquer uma das três decisões possíveis, diz. “No fundo, acho que ele tem uma escolha entre manter, ou não, o ‘guidance’”, pontua o profissional ao mencionar a indicação, dada no comunicado da decisão do Copom em janeiro, de que os juros começariam a ser cortados em março.
Sobral, no entanto, avalia que o BC pode optar por manter a Selic parada, já que a decisão geraria o menor custo de credibilidade à autoridade, “conquistada a duras penas ano passado”, após um período turbulento no processo decisório da política monetária. “Acho que não seria absurdo ou muito contestável eles falarem da incerteza elevada e dizer que o cenário mudou [desde a última decisão].”
O economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio Leal, foi outro que alterou sua projeção para o ritmo inicial do afrouxamento monetário após a eclosão do conflito no Oriente Médio. A estimativa inicial de uma redução de 0,5 ponto passou a ser de um corte de 0,25 ponto. Ainda que o episódio seja classificado como um choque de oferta, o que não deveria gerar uma resposta imediata de autoridades, a diretoria atual do Copom já demonstrou, em outras ocasiões, preferir adotar um viés mais conservador para a condução da política monetária.
“Teria espaço para um corte de 0,5 ponto, mas, dado o conservadorismo dessa diretoria, acreditamos que eles vão optar por começar de uma forma mais cautelosa. Se, na próxima reunião, o conflito tiver acabado, é possível acelerar o ritmo e compensar. Mas minha projeção de corte de 0,25 ponto é mais pelo conservadorismo da diretoria do que por achar que a cara da inflação no Brasil mudou”, avalia.
O corte na Selic neste momento, segundo Leal, é desejável, já que tem a função de calibrar a intensidade do aperto monetário vigente na economia.
“Começar a cortar os juros agora não é flexibilização: é normalização. Tivemos uma queda bastante importante da inflação corrente e das expectativas — um efeito colateral esperado dos juros altos. Ao reduzir a inflação corrente, houve um aperto adicional da política monetária. Os juros ficaram em 15%, mas a taxa real ex-post subiu. A partir do momento que você começa a reduzir os juros, você começa a trazer a política monetária para o mesmo nível de junho do ano passado, quando o Copom colocou a Selic em 15%”, avalia.
O argumento de que a restrição vigente na economia local é muito grande também é compartilhado pelo economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, para justificar o início dos cortes. Ele, no entanto, já possuía uma projeção de uma redução mais branda na Selic mesmo antes da eclosão da guerra.
“Sempre fomos mais cautelosos por duas razões: não vemos as expectativas ancoradas em nenhum horizonte de tempo. Isso não significa que não haja espaço para cortar os juros, mas que a prudência é necessária. E o segundo argumento é que há sinais de que a economia está acelerando e há preocupações com o comportamento de alguns preços, como a inflação de serviços e bens industriais”, afirma. “Esse já era o cenário de antes. Com as incertezas em relação à petróleo e ao câmbio, as preocupações ficam maiores”, aponta.
Assim, Padovani espera que o Banco Central comece o ciclo em um ritmo mais cauteloso, mas que acelere o passo adiante, quando houver mais convicção sobre o desenrolar do cenário macroeconômico. O BV espera que a autoridade monetária corte a Selic nas duas próximas reuniões em 0,25 ponto e, depois, acelera o ritmo para 0,5 ponto. Ao fim de 2026, a projeção para os juros básicos é de 12%.
A mediana das estimativas dos economistas para a Selic no fim do ano também subiu da última edição da pesquisa para cá. Em janeiro, o mercado esperava juros de 12,25% ao término de 2026, número que passou para 12,50% após a o início da guerra entre Estados Unidos e Irã.
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 16/03/2026