OCDE aponta excesso de aço chinês no mercado global e pressão sobre siderúrgicas brasileiras

OCDE aponta excesso de aço chinês no mercado global e pressão sobre siderúrgicas brasileiras

O mercado global de aço acumula um desequilíbrio que se aprofunda a cada ano: capacidade de produção crescendo, demanda estagnada e um volume crescente de aço subsidiado inundando mercados ao redor do mundo. O relatórioOCDE Steel Outlook 2026, divulgado nesta quinta-feira (4), projeta que o excesso de capacidade global chegará a 745 milhões de toneladas até 2028, um volume superior a toda a produção atual de aço dos países da OCDE.

No Brasil, a produção de aço bruto caiu 1,6% em 2025, os preços domésticos enfraqueceram com a chegada de aço asiático mais barato e as siderúrgicas nacionais apelam ao governo por mais barreiras de importação, enquanto aumentam as exportações brasileiras para a Europa, após o fechamento do mercado americano com tarifas mais altas, medidas que afetaram especialmente a Gerdau, Usiminas e CSN.

Excesso de capacidade ocorre quando a capacidade instalada de produção de uma indústria supera significativamente a demanda real pelo produto. No aço, esse desequilíbrio força os produtores a vender abaixo do custo para manter as usinas funcionando, derrubando preços globalmente.

China exporta mais aço do que a Europa produz

A China exportou um recorde de 131 milhões de toneladas de aço em 2025, alta de 153% em relação a 2020 e um volume superior a toda a produção da União Europeia no mesmo ano. A pressão vem de dentro: a crise no setor imobiliário chinês contraiu a demanda doméstica e forçou os produtores a escoar o excedente para o exterior.

O mecanismo que viabiliza essa estratégia é o subsídio estatal. Em 2024, a empresa de aço chinesa mediana recebeu 15 vezes mais em subsídios, em relação ao tamanho de seus ativos, do que produtores em outras regiões do mundo. Em 2023, essa proporção era de 10 vezes. A diferença cresce a cada ano.

Apesar das diretrizes internas para controlar a expansão, a China planeja adicionar até 38,6 milhões de toneladas de nova capacidade até 2028. Índia e Sudeste Asiático também seguem em expansão acelerada.

Tarifas não resolvem: o aço encontra outros caminhos

A resposta dos países importadores foi erguer barreiras. Brasil, Canadá, Índia, México e Estados Unidos aumentaram tarifas ou implementaram cotas sobre produtos básicos de aço entre 2025 e 2026. O Brasil foi o segundo país do mundo que mais abriu investigações antidumping em 2025, com nove novos casos, atrás apenas do Canadá, que registrou 20.

O problema é que as barreiras têm sido sistematicamente contornadas. O relatório da OCDE identifica um padrão: exportações de produtos como chapas laminadas a quente e bobinas da China para países do Sudeste Asiático aumentaram de forma expressiva, ao mesmo tempo em que esses mesmos países passaram a exportar os mesmos produtos para mercados da OCDE em volumes maiores.

As exportações chinesas de aço semiacabado para o Sudeste Asiático subiram 300% em 2025, sugerindo processamento em terceiros países antes da reexportação para driblar as tarifas. A velha tática da triangulação para driblar barreiras comerciais.

Descarbonização adiada, crise financeira à vista

Com margens espremidas, a indústria global recua nos projetos de menor emissão de carbono. No primeiro semestre de 2025, cerca de 19% dos projetos planejados de baixa emissão foram suspensos. A alta nos custos de energia provocada pelo conflito no Oriente Médio agrava o quadro: a energia pode responder por até 40% dos custos de produção do aço.

A pressão sobre os insumos também cresce. Nenhum país produtor de aço é autossuficiente nas matérias-primas que precisa, e 42 países já aplicam restrições à exportação de sucata ferrosa, material que seria central para a transição do setor a processos de menor emissão.

Brasil resiste sem restringir sucata

Dentro desse ambiente, o Brasil mantém uma posição distinta em relação à sucata: exportou 1,1 milhão de toneladas do material em 2025, com participação de 0,8% no mercado global, sem aplicar nenhuma restrição à saída do insumo, ao contrário de China e Índia.

No plano tarifário, o governo brasileiro endureceu as regras em fevereiro de 2026, elevando as tarifas de importação para 25%, sem cotas, para categorias adicionais de chapas e produtos de arame. O sistema de cotas tarifárias introduzido em junho de 2024 havia sido estendido em maio de 2025 com ampliação da cobertura de produtos.

A taxa de utilização das usinas globais deve cair para 74% ou menos até 2028, um nível considerado insustentável para a saúde financeira do setor. O secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann, resumiu o problema em pronunciamento durante a reunião ministerial da organização: “O excesso de capacidade cria problemas para todos. Distorce os mercados globais, prejudica a segurança econômica e desencoraja a inovação.”

 
Fonte: Times Brasil
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 05/06/2026