Queda nas importações de aço já reflete antidumping, mas dimensão é dúvida

Queda nas importações de aço já reflete antidumping, mas dimensão é dúvida

Os dados da indústria brasileirade aço no mês de abril chamaram atenção quanto à queda nas importações, após um 2025 de entradas recorde. No quarto mês deste ano, a aquisição no exterior somou 363 mil toneladas, volume que representa um recuo de 33% na comparação anual e de cerca de 40% frente a março. A leitura do mercado é que a redução reflete os efeitos das medidas antidumping adotadas pelo governo federal, mas a dimensão desse movimento considerado positivo, para os próximos meses, ainda é incerta.

Para Daniel Sasson, analista de commodities do Itaú BBA, o movimento reflete os efeitos das iniciativas de proteção comercial, sobretudo em aço plano. “Depois de um primeiro trimestre mais forte, com antecipação de volumes, abril mostrou uma inflexão clara: a penetração do importado caiu de forma relevante e voltou para níveis mais próximos da média histórica. Em aços longos, o movimento também foi expressivo”, afirmou ao Valor.

Em relatórios, a instituição financeira já vinha destacando que a diminuição das exportações de países asiáticos (China e Coreia do Sul) estava aparecendo nos dados portuários desses países, e que a tendência era que isso se refletisse no Brasil com uma defasagem de três a quatro meses.

Neste contexto, ainda para o analista, a visão é que o decréscimo se apresente mais como uma tendência do que como um evento pontual. “O ponto principal aqui é que os dados de exportação de países como China e Coreia do Sul já sugeriam desaceleração dos embarques para o Brasil, e esse efeito costuma aparecer com alguma defasagem nas estatísticas locais. Esse ‘vácuo’ de produto importado chegando pode abrir espaço para reajustes de preço no mercado brasileiro e deixar o ambiente da indústria mais saudável ao longo dos próximos trimestres”, completou.

A visão foi referendada por empresas do próprio setor durante as teleconferências referentes aos resultados obtidos no primeiro trimestre. “No segundo e no terceiro trimestre, nós vamos ter, com certeza, uma demanda muito interessante por conta dessa queda brutal na importação. A China não chega mais no Brasil. Com as medidas que foram aplicadas corretamente pelo governo, de defesa comercial e de isonomia competitiva, não há a mínima possibilidade de chegar da China”, afirmou ainda em março o diretor executivo comercial da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Luis Fernando Martinez.

O presidente-executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo Lopes, por sua vez, vê a situação com mais cautela. “A expectativa é que as importações realmente caiam, mas não nessa intensidade. Nós vamos aguardar para ver o mês de maio, porque pode ter ocorrido algum grau de antecipação nas importações”, ponderou.

Ele avalia que, apesar das medidas tomadas, é preciso fazer um monitoramento para que os importadores não usem outros códigos de identificação, o chamado NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul), como alternativa para driblar as taxas aplicadas, para além de processos de antidumping ainda em andamento.

Os possíveis “dribles” dos importadores foram citados pela própria CSN na mesma teleconferência. “Ainda na questão de defesa comercial, a gente tem conversado muito sobre o cuidado com a questão de circunvenção, de desvio de comércio e de mudanças de NCMs para poder eventualmente reclassificar um item e não trazer com a tarifa”, afirmou o executivo da empresa em referência ao diálogo que vem sendo travado com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Márcio Elias Rosa.

De todo modo, a notícia é boa para o setor que, segundo Marco Polo, continua com a prioridade absoluta em retomar o mercado interno “sequestrado pelas importações predatórias em 2025”.

Neste contexto, ele aposta ainda em novas medidas nesta frente, como a extensão das iniciativas de proteção aos itens laminados a quente ainda este ano para além do reforço já realizado no fim de maio, quando a Câmara de Comércio Exterior (Camex), órgão do Mdic, estendeu a alíquota de 25% de Imposto de Importação para 23 tipos de aço. Anteriormente, eram 19 tipos atingidos pela taxação.

 
Fonte: Valor
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 12/06/2026