Notícias

Restrições da UE ao aço e ao óleo de soja aprofundam atritos com o Brasil após acordo

A União Europeia adotou recentemente medidas que devem resultar em novas restrições a produtos exportados pelo Brasil ao bloco, num movimento que aprofunda atritos com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poucas semanas depois da entrada em vigor provisória do acordo de livre comércio com o Mercosul.

Na última reunião do Grupo Mercado Comum (GMC), braço executivo do Mercosul, as delegações de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai registraram queixas sobre medidas europeias que devem limitar exportações de aço e óleo de soja. Essas restrições, que se aplicam globalmente e não apenas ao Brasil e seus vizinhos, se somam ao recente veto da Europa à compra de carne brasileira pelo uso de antibióticos.

A UE diz que a medida contra o aço importado tem como objetivo mitigar os efeitos de uma sobrecapacidade global, enquanto no caso da soja o problema estaria ligado ao efeito indireto sobre perdas de florestas e degradação do solo.

No caso do aço, os representantes dos países do Mercosul disseram, durante o encontro, que as barreiras planejadas pela Europa podem representar um descumprimento do tratado de livre comércio. A avaliação foi confirmada pelo Itamaraty, que em resposta à Folha disse que as medidas, caso adotadas, “podem vir a restringir ou esvaziar concessões obtidas sob o acordo”.

“Para o caso de identificação de descumprimento do acordo, há remédios no próprio acordo para lidar com eventual retirada de benefícios acordados, como no mecanismo de reequilíbrio presente no capítulo de solução de controvérsias”, afirmou a pasta, em nota.

O Parlamento Europeu endureceu, em votação realizada em 19 de maio, as regras para a entrada de produtos siderúrgicos nos países da UE. Além de cortar pela metade o volume que pode ingressar livre de tarifas -para 18,3 milhões de toneladas métricas-, o bloco elevou de 25% para 50% o imposto sobre o aço extracota.

A decisão deve vigorar a partir de 1º de julho, com aplicação inclusive para sócios com os quais a União Europeia tem tratado comercial, caso do Mercosul.

A medida atinge diretamente os interesses da indústria brasileira, uma vez que o acordo entre a UE e o Mercosul previa tarifa zero para diversos produtos siderúrgicos.

O Instituto Aço Brasil disse à Folha que a limitação das importações prevista pela União Europeia “inevitavelmente impactará as exportações brasileiras de aço, mesmo que os volumes exportados pelo Brasil não configurem ameaça ao mercado europeu”.

“O Aço Brasil entende que deveria prevalecer o que foi acordado no âmbito do [acordo] Mercosul-União Europeia. Num contexto em que países estão se fechando e em que o Brasil está perdendo mercado internamente devido às importações predatórias de aço, ter acesso restrito a mais um mercado é extremamente preocupante”, declarou a entidade.

Segundo o Itamaraty, a média das importações europeias oriundas do Brasil dos produtos cujas tarifas estão sendo elevadas foi de cerca de 444 milhões de euros (R$ 2,7 bilhões) entre 2022 e 2024.

A justificativa da UE ao decidir aumentar sua proteção ao setor siderúrgico é enfrentar a sobrecapacidade global, fenômeno causado por uma produção massiva de aço na China para exportação a preços inferiores aos dos concorrentes domésticos.

O problema também afeta as siderúrgicas no Brasil, que classificam a prática chinesa como predatória.

O bloco europeu adota salvaguardas na siderurgia desde 2018, mas elas eram mais brandas do que as recém-aprovadas e expiram no final de junho. Havia ampla expectativa no Brasil de que os termos de tarifa zero negociados no acordo de livre comércio com o Mercosul prevaleceriam.

A Delegação da União Europeia no Brasil declarou que a medida, além de compatível com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), é “necessária tendo em conta o nível insustentável de sobrecapacidade global e o crescente número de medidas restritivas ao comércio em outros países, resultando no desvio de comércio para o mercado da UE”.

A missão diplomática também declarou que a UE está discutindo as implicações de sua proposta com parceiros.
Por último, afirmou que ainda é cedo para saber o impacto sobre cada sócio comercial, mas destacou que o novo regulamento “estabelece que os parceiros que tenham um acordo de livre comércio com a UE poderão receber um tratamento especial e diferenciado”.

Óleo de soja

A renegociação tarifária do aço na OMC não é a única ação da União Europeia que é alvo de críticas no governo Lula.

Na mesma reunião do GMC, realizada nos dias 19 e 20 de maio, os delegados do Mercosul reclamaram de uma recente normativa europeia que classificou a soja como produto de alto risco de Mudança Indireta do Uso do Solo (ILUC, na sigla em inglês).

O ILUC é um conceito usado na União Europeia para estimar se o aumento da produção de determinadas culturas para biocombustíveis pode provocar, indiretamente, perda de florestas e outras mudanças no uso da terra.

Ao incluir a soja numa lista de alto risco de ILUC, os europeus colocam a cultura como uma espécie de vetor indireto de desmatamento. A consequência mais imediata é que o óleo de soja não mais poderá ser contabilizado para o cumprimento das metas europeias de uso de biocombustíveis, e precisará deixar de ser usado para essa finalidade até 2030.

A nova regra foi introduzida em 10 de abril pela Comissão Europeia e aguarda análise do Parlamento e do Conselho Europeu.
André Nassar, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), afirma que a medida “basicamente vai banir o óleo de soja como insumo para biocombustíveis” na Europa.

Embora o óleo de soja represente apenas 7% dos biocombustíveis usados na UE, Nassar prevê reflexos negativos para o consumo do produto também no setor de alimentos, uma vez que a soja recebeu uma espécie de selo de causadora indireta de desmatamento.

“Quando o óleo de palma foi classificado como de alto risco de ILUC, as importações europeias caíram drasticamente”, declara. “A indústria de alimentos europeia também vai começar a consumir menos óleo de soja.”

Segundo dados do Ministério da Agricultura, o Brasil exportou 6,2 milhões de toneladas de soja em grão -insumo do óleo tanto para biocombustíveis quanto para outras finalidades da indústria de alimentos- para a União Europeia em 2025.

Procurado, o Itamaraty disse que o Brasil “não concorda com a metodologia adotada pela União Europeia nem com as conclusões dela decorrentes”. Afirmou ainda que a medida restringe-se aos biocombustíveis, mas que “eventuais restrições futuras, entretanto, podem produzir efeitos sobre a cadeia de exportação da soja”.

Já a Delegação da UE no Brasil defendeu a diretiva no âmbito dos esforços de descarbonização do bloco, afirmando que, pela proposta, “os biocombustíveis de soja não serão elegíveis para as metas de descarbonização da UE após 2030”.

“Existem soluções alternativas que podem ser disponibilizadas aos países do Mercosul para contrabalançar as implicações esperadas”, disse.

Também destacou que os biocombustíveis apontados como de baixo risco de ILUC estão isentos da redução gradual e que a Comissão Europeia está em processo de revisão das regras de certificação, “o que poderia proporcionar uma abordagem mais matizada”.

A delegação afirmou que a “UE continuará dependendo da soja como reserva alimentar essencial no setor agrícola, com uma procura constante por importações de soja”.

 
Fonte: Diário do Comércio
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 05/06/2026

 

OCDE aponta excesso de aço chinês no mercado global e pressão sobre siderúrgicas brasileiras

O mercado global de aço acumula um desequilíbrio que se aprofunda a cada ano: capacidade de produção crescendo, demanda estagnada e um volume crescente de aço subsidiado inundando mercados ao redor do mundo. O relatórioOCDE Steel Outlook 2026, divulgado nesta quinta-feira (4), projeta que o excesso de capacidade global chegará a 745 milhões de toneladas até 2028, um volume superior a toda a produção atual de aço dos países da OCDE.

No Brasil, a produção de aço bruto caiu 1,6% em 2025, os preços domésticos enfraqueceram com a chegada de aço asiático mais barato e as siderúrgicas nacionais apelam ao governo por mais barreiras de importação, enquanto aumentam as exportações brasileiras para a Europa, após o fechamento do mercado americano com tarifas mais altas, medidas que afetaram especialmente a Gerdau, Usiminas e CSN.

Excesso de capacidade ocorre quando a capacidade instalada de produção de uma indústria supera significativamente a demanda real pelo produto. No aço, esse desequilíbrio força os produtores a vender abaixo do custo para manter as usinas funcionando, derrubando preços globalmente.

China exporta mais aço do que a Europa produz

A China exportou um recorde de 131 milhões de toneladas de aço em 2025, alta de 153% em relação a 2020 e um volume superior a toda a produção da União Europeia no mesmo ano. A pressão vem de dentro: a crise no setor imobiliário chinês contraiu a demanda doméstica e forçou os produtores a escoar o excedente para o exterior.

O mecanismo que viabiliza essa estratégia é o subsídio estatal. Em 2024, a empresa de aço chinesa mediana recebeu 15 vezes mais em subsídios, em relação ao tamanho de seus ativos, do que produtores em outras regiões do mundo. Em 2023, essa proporção era de 10 vezes. A diferença cresce a cada ano.

Apesar das diretrizes internas para controlar a expansão, a China planeja adicionar até 38,6 milhões de toneladas de nova capacidade até 2028. Índia e Sudeste Asiático também seguem em expansão acelerada.

Tarifas não resolvem: o aço encontra outros caminhos

A resposta dos países importadores foi erguer barreiras. Brasil, Canadá, Índia, México e Estados Unidos aumentaram tarifas ou implementaram cotas sobre produtos básicos de aço entre 2025 e 2026. O Brasil foi o segundo país do mundo que mais abriu investigações antidumping em 2025, com nove novos casos, atrás apenas do Canadá, que registrou 20.

O problema é que as barreiras têm sido sistematicamente contornadas. O relatório da OCDE identifica um padrão: exportações de produtos como chapas laminadas a quente e bobinas da China para países do Sudeste Asiático aumentaram de forma expressiva, ao mesmo tempo em que esses mesmos países passaram a exportar os mesmos produtos para mercados da OCDE em volumes maiores.

As exportações chinesas de aço semiacabado para o Sudeste Asiático subiram 300% em 2025, sugerindo processamento em terceiros países antes da reexportação para driblar as tarifas. A velha tática da triangulação para driblar barreiras comerciais.

Descarbonização adiada, crise financeira à vista

Com margens espremidas, a indústria global recua nos projetos de menor emissão de carbono. No primeiro semestre de 2025, cerca de 19% dos projetos planejados de baixa emissão foram suspensos. A alta nos custos de energia provocada pelo conflito no Oriente Médio agrava o quadro: a energia pode responder por até 40% dos custos de produção do aço.

A pressão sobre os insumos também cresce. Nenhum país produtor de aço é autossuficiente nas matérias-primas que precisa, e 42 países já aplicam restrições à exportação de sucata ferrosa, material que seria central para a transição do setor a processos de menor emissão.

Brasil resiste sem restringir sucata

Dentro desse ambiente, o Brasil mantém uma posição distinta em relação à sucata: exportou 1,1 milhão de toneladas do material em 2025, com participação de 0,8% no mercado global, sem aplicar nenhuma restrição à saída do insumo, ao contrário de China e Índia.

No plano tarifário, o governo brasileiro endureceu as regras em fevereiro de 2026, elevando as tarifas de importação para 25%, sem cotas, para categorias adicionais de chapas e produtos de arame. O sistema de cotas tarifárias introduzido em junho de 2024 havia sido estendido em maio de 2025 com ampliação da cobertura de produtos.

A taxa de utilização das usinas globais deve cair para 74% ou menos até 2028, um nível considerado insustentável para a saúde financeira do setor. O secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann, resumiu o problema em pronunciamento durante a reunião ministerial da organização: “O excesso de capacidade cria problemas para todos. Distorce os mercados globais, prejudica a segurança econômica e desencoraja a inovação.”

 
Fonte: Times Brasil
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 05/06/2026

Brasil amplia blindagem da indústria do aço contra avanço das importações

O governo brasileiro decidiu reforçar sua política de defesa comercial para o setor siderúrgico ao renovar a aplicação de tarifas de importação de 25% sobre uma ampla lista de produtos de aço. A decisão foi tomada pelo Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex) e integra o conjunto de medidas destinadas a proteger a indústria nacional diante do aumento da concorrência internacional e do excesso de oferta global, especialmente proveniente de mercados asiáticos.

A renovação das tarifas abrange 19 produtos siderúrgicos que já estavam sujeitos à medida e inclui ainda um novo item na Lista de Desequilíbrios Comerciais Conjunturais (DCC). O mecanismo permite ao governo elevar temporariamente as alíquotas de importação quando identifica condições de mercado consideradas prejudiciais à indústria doméstica. Diferentemente das medidas antidumping, que exigem investigações mais longas para comprovar práticas desleais de comércio, o DCC possibilita respostas mais rápidas para corrigir distorções causadas pelo aumento das importações.

A decisão representa mais um capítulo da estratégia brasileira de proteção ao setor do aço, que já conta com um sistema de cotas tarifárias aplicado a diversos produtos siderúrgicos importados. Nesse modelo, determinados volumes de importação podem ingressar no país com tarifas reduzidas, variando entre 9% e 16%. Entretanto, quando as importações ultrapassam os limites previamente estabelecidos, passa a ser aplicada uma tarifa adicional de 25% sobre o volume excedente.

Atualmente, as medidas de salvaguarda atingem 23 categorias de produtos siderúrgicos. O objetivo é evitar que grandes volumes de aço importado, frequentemente associados a mercados com elevados subsídios governamentais, provoquem desequilíbrios competitivos e prejudiquem os fabricantes brasileiros. Países como China e Rússia figuram entre os principais focos de preocupação da indústria nacional devido à elevada capacidade produtiva e aos preços mais competitivos praticados por seus exportadores.

Embora as medidas tenham caráter temporário, elas vêm sendo sucessivamente renovadas desde sua implementação, em 2024, consolidando-se como um dos principais instrumentos de política comercial utilizados pelo Brasil para o setor siderúrgico. Na prática, a continuidade das tarifas cria um ambiente mais protegido para os produtores nacionais, reduzindo as oportunidades de arbitragem por meio de importações e fortalecendo o poder de precificação das usinas brasileiras.

Entre os produtos contemplados pela renovação estão bobinas laminadas a quente e a frio, chapas galvanizadas, produtos de aço-liga, vigas estruturais e tubos para transporte de fluidos. Também foi incluída na lista uma categoria de barras redondas de aço carbono, ampliando o alcance das medidas de proteção.

A iniciativa atende a reivindicações recorrentes da indústria siderúrgica brasileira, liderada pelo Instituto Aço Brasil, que vem alertando para os impactos do excesso de oferta global e da crescente penetração de produtos importados no mercado doméstico. Segundo dados da entidade, as importações brasileiras de aço somaram 363 mil toneladas em abril deste ano, volume que representa uma redução de 33,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ainda assim, o setor considera que a concorrência externa continua exercendo pressão significativa sobre os preços internos.

Apesar do endurecimento das regras, a decisão foi recebida com alívio por importadores e distribuidores. Havia receio no mercado de que o governo elevasse as tarifas para até 35%, hipótese que acabou sendo descartada. Dessa forma, a manutenção do percentual em 25% foi interpretada como uma solução intermediária, capaz de atender às demandas da indústria nacional sem impor custos ainda maiores aos compradores de aço importado.

Os efeitos da medida tendem a ser mais expressivos nos segmentos de aços planos, que são tradicionalmente mais expostos à concorrência internacional e ao excesso de capacidade produtiva global. Já nos produtos longos, como vergalhões e perfis estruturais, o impacto deve ser mais limitado, servindo principalmente para sustentar os níveis atuais de preços no mercado interno.

O fortalecimento das barreiras comerciais ocorre em um contexto internacional marcado por crescentes tensões no comércio de aço. O Brasil também enfrenta desafios em suas relações com outros mercados relevantes, como os Estados Unidos, que historicamente ajustam suas próprias tarifas e mecanismos de proteção, influenciando diretamente a competitividade das exportações brasileiras.

Diante desse cenário, a renovação das tarifas reforça a estratégia do governo de preservar a competitividade da indústria siderúrgica nacional, considerada um segmento estratégico para cadeias produtivas como construção civil, infraestrutura, setor automotivo e bens de capital. Ao mesmo tempo, a medida evidencia a busca por um equilíbrio entre a proteção da produção doméstica e a necessidade de garantir o abastecimento de matérias-primas para diversos setores da economia brasileira.
 

 

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 05/06/2026

A decisão de Trump sobre aço, alumínio e cobre: o real impacto nas siderúrgicas e mineradoras brasileiras

As ações das siderúrgicas têm queda nesta quarta-feira, 3, devolvendo parte dos ganhos na terça, 2, quando a Usiminas (USIM5) subiu 8,6%, a CSN (CSNA3) teve alta de 8,9% e a Gerdau (GGBR4) valorização de 6,5%.  

Para a Genial Investimentos o mercado precificou “alívio e desescalada”, não uma queda real da tarifa que pesa sobre o aço brasileiro. 

O presidente norte-americano Donald Trump assinou em 1° de junho uma proclamação que ajusta a Seção 232 sobre aço, alumínio e cobre. A medida reduz a tarifa de alguns derivados (equipamento agrícola e de climatização caem de 25% para 15%), cria uma alíquota de 10% para bens de capital com pelo menos 85% de aço ou alumínio fundido nos Estados Unidos e acrescenta dois nichos à faixa de 25% (racks de aço e chapas litográficas de alumínio). A base de 50% sobre aço e alumínio primários não mudou. 

Para o analista Luca Vello a notícia que fez as ações das siderúrgicas e mineradoras (Vale e CSN Mineração) subir com força na terça-feira, embora o mercado a veja como positiva, é na prática “bastante simbólica”. 

Na avaliação da casa, o corte atinge equipamentos acabados que nenhuma das cinco companhias exporta. 

Ainda segundo a Genial, o risco real continua no desvio de importados. Com os Estados Unidos fechados a 50%, o aço asiático busca mercados abertos. A penetração de importados no Brasil já alcançou 27% no primeiro trimestre (1T26), pressionando preço e volume da Usiminas e CSN.

No entanto, Luca ressalta que a Vale e a CSN Mineração têm lastro melhor, já que na Seção 301 anunciada no mesmo dia (leia aqui), minérios metálicos ficaram isentos.

Para o analista, o que vai definir o resultado das siderúrgicas nos próximos trimestres é a intensidade do desvio de importados sobre os planos e a resposta da defesa comercial, não a Seção 232. 

A avaliação é que a Gerdau segue do lado favorável (a Gerdau produz longos dentro dos EUA e ganha com a proteção); a Usiminas é a mais sensível ao desvio de importados, por ser produtora de planos voltada ao mercado interno; e a CSN combina exposição moderada com sensibilidade financeira.



Fonte: Finance News
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 05/06/2026

Crise global do aço agrava-se com excesso de oferta em níveis alarmantes, alerta OCDE

A indústria siderúrgica mundial enfrenta uma crise crescente, com produção subsidiada e excesso de capacidade a distorcerem os mercados, alerta a OCDE. A produção apoiada pelo Estado, sobretudo na China, aumenta a pressão sobre produtores na Europa e noutras economias da OCDE.

Capacidade siderúrgica mundial continua a crescer apesar da fraca procura, o que ameaça pressionar os preços em baixa e distorcer a concorrência.

O aço é um material essencial para uma vasta gama de setores, da construção e indústria transformadora aos veículos elétricos e centros de dados.

A OCDE afirma (fonte em inglês) que os subsídios públicos são um dos principais motores do excesso de capacidade a nível mundial, sendo que grande parte do aumento da capacidade siderúrgica nas últimas duas décadas ocorreu fora dos países da OCDE, muitas vezes com apoio estatal.

Em 2024, a empresa siderúrgica chinesa mediana recebeu subsídios equivalentes a 15 vezes os concedidos a produtores de outras regiões, em proporção ao total de ativos, de acordo com a OCDE.

Ao mesmo tempo, os produtores siderúrgicos chineses exportaram um recorde de 131 milhões de toneladas de aço em 2025, mais 153% do que em 2020 e um volume superior à produção total de aço da União Europeia nesse ano.

O alerta surge numa altura em que a OCDE prevê que o excesso de capacidade siderúrgica mundial suba de 640 milhões de toneladas em 2025 para 745 milhões de toneladas até 2028, já que a capacidade de produção continua a crescer muito mais depressa do que a procura.

Embora se espere que a procura global de aço aumente apenas 34 milhões de toneladas entre 2026 e 2028, os produtores planeiam acrescentar até 139 milhões de toneladas de nova capacidade no mesmo período.

Prevê-se que a China tenha um papel central nessa expansão, com planos para adicionar até 38,6 milhões de toneladas de capacidade de produção de aço até 2028, o maior aumento previsto em qualquer país.

Se esses projetos avançarem, a OCDE indica que o excesso de capacidade mundial ultrapassará em quase 320 milhões de toneladas a atual produção anual de aço de todos os países da OCDE, o que evidencia a dimensão do desequilíbrio que o setor enfrenta.

Responsáveis políticos receiam que um excesso de capacidade persistente possa comprometer a rentabilidade e a viabilidade a longo prazo das indústrias siderúrgicas nacionais, aumentando a dependência de importações de um material considerado estratégico para a construção, a defesa, as infraestruturas energéticas e a indústria transformadora.

Durante a reunião do Conselho Ministerial da OCDE, o secretário-geral da organização, Mathias Cormann, afirmou: “É preciso atacar as causas profundas, incluindo subsídios nocivos e outras práticas que distorcem o mercado. Isso implica uma cooperação internacional mais forte e condições de concorrência equitativas para os produtores de aço em todo o mundo.”

A OCDE encontrou igualmente indícios de que alguns exportadores poderão estar a contornar barreiras comerciais ao enviar aço semiacabado para o Sudeste Asiático para posterior transformação e reexportação para mercados da OCDE. Um aumento de 300% das exportações chinesas de aço semiacabado para a região aponta para uma possível via de evasão a tarifas e medidas anti-dumping.

Custos da energia e tensões comerciais agravam pressão sobre o setor

Ao mesmo tempo, o setor enfrenta também a subida dos custos da energia associada à guerra no Irão. A energia pode representar até 40% dos custos de produção de aço, tornando a indústria particularmente vulnerável a preços mais elevados.

O relatório destaca ainda a crescente pressão sobre o aprovisionamento de matérias-primas. Nenhum país produtor de aço é totalmente autossuficiente nos insumos necessários à produção, enquanto as restrições às exportações de materiais essenciais estão a aumentar em todo o mundo. Atualmente, 42 países limitam a exportação de sucata de aço, uma matéria-prima crucial para a produção em fornos de arco elétrico.

A Europa está particularmente exposta a estas pressões. Os produtores de aço na região enfrentam, em regra, custos laborais e energéticos mais elevados, bem como normas ambientais mais rigorosas do que muitos concorrentes internacionais.

Como consequência, os produtores europeus têm muitas vezes menos margem para suportar períodos prolongados de preços baixos do que rivais que beneficiam de custos mais reduzidos ou de um apoio público mais forte.

“Se as tendências atuais continuarem, a viabilidade a longo prazo do setor e a segurança económica de muitos países ficarão comprometidas”, advertiu a OCDE.

 
Fonte: EuroNews
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 05/06/2026

Aço ficou de fora de novas tarifas de Trump: Aço brasileiro é pressionado por novo tarifaço apesar de escapar da tarifa de 25%

O aço brasileiro ficou de fora da proposta americana de impor tarifa de 25%sobre parte das exportações brasileiras, divulgada nesta terça-feira (2). Produtos como aço, alumínio e outros metais são enquadrados em um dispositivo separado, a Seção 232, que trata essa classe de produtos como tema de segurança nacional.

Ficar fora da lista, no entanto, não significa ficar fora do impacto. Gerdau, Usiminas e CSN podem enfrentar riscos nos próximos trimestres, diante de pressão de custos, concorrência importada e um ambiente diplomático mais difícil para negociações com os Estados Unidos.

O primeiro canal de pressão passa pela macroeconomia brasileira. Uma tarifa de 25% sobre produtos do agronegócio e manufaturados tende a reduzir a receita de exportação do país, desacelerar o crescimento e comprimir a demanda por aço em construção civil, infraestrutura e bens de capital, setores que respondem por parcela relevante do consumo doméstico de aço no Brasil.

O agravante é que o mercado interno já estava fragilizado antes da nova tensão comercial. A penetração de importações de aço longo saltou de 9% para 16% entre fevereiro e março de 2026, enquanto as margens Ebitda das siderúrgicas brasileiras seguem abaixo de 10%.

Esse é um patamar que analistas do setor não veem se alterando de forma sustentável no curto prazo, mesmo após os reajustes de preço anunciados para o vergalhão em abril e maio. A demanda ainda não sustenta a implementação plena desses aumentos.

A pressão tarifária sobre outros setores da economia brasileira reduz ainda mais o espaço para que essa recuperação ganhe consistência.

Cadeia automotiva é o flanco mais sensível

O segundo canal de pressão é mais específico e atinge um ponto que o setor siderúrgico já monitorava com atenção. O segmento automotivo americano depende de peças e componentes fabricados no Brasil, e esses itens figuram entre os produtos que passam a enfrentar a tarifa de 25% proposta pela Seção 301.

A medida pode desorganizar cadeias de fornecimento que abastecem diretamente montadoras instaladas nos Estados Unidos.

A ruptura nessa cadeia afeta a produção de aços especiais, insumo para o segmento automotivo americano, em um momento em que relatórios recentes ao mercado já sinalizavam que o setor automotivo representava a dinâmica mais difícil dentro das operações siderúrgicas na América do Norte.

A proposta americana adiciona uma nova variável a esse quadro. A pressão deixa de vir apenas da demanda final e passa a alcançar também o fornecimento de peças que organiza a produção das próprias montadoras.

Diplomacia envenenada nas negociações de cotas

O terceiro canal é o mais silencioso e, possivelmente, o de consequências mais duradouras. A Seção 232, que regula o aço, prevê a possibilidade de negociação de cotas e isenções bilaterais.

Em 2018, no primeiro governo Trump, o Brasil conseguiu fechar um acordo desse tipo, garantindo acesso sem tarifa para até 3,5 milhões de toneladas de aço semiacabado por ano. O volume representa mais de 60% da necessidade americana de aço semiacabado.

Hoje, porém, o Brasil acumula frentes de acusação abertas pelos Estados Unidos em um único documento, que vão de censura digital e corrupção a desmatamento ilegal.

Tentar abrir uma negociação de isenção tarifária para o aço nesse ambiente é uma tarefa mais complexa do que foi em 2018. A Seção 301 não toca o aço diretamente, mas contamina a mesa onde qualquer acordo sobre o setor precisaria ser negociado.

Essa deterioração estreita a margem diplomática justamente no momento em que o setor mais precisaria dela.

Capital chinês já encontrou a janela aberta

Enquanto o Brasil administra esse ambiente, um movimento silencioso avança em suas fronteiras. Um grupo empresarial ligado às províncias de Zhejiang e Fujian, na China, está construindo uma planta de cerca de 200 mil toneladas por ano de vergalhão e fio-máquina em Yguazú, no Paraguai.

O projeto, sob o nome Acereste, deve direcionar cerca de 70% da produção ao mercado brasileiro. Representantes comerciais do grupo já percorrem distribuidores em São Paulo e no Paraná para prospectar contratos de fornecimento antes mesmo da inauguração, prevista para junho deste ano.

- Vergalhão e fio-máquina são produtos de aço longo usados principalmente na construção civil. O segmento de aço longo é hoje o único sem cobertura ativa de medidas antidumping no Brasil, o que o torna o ponto de entrada natural para importações de origem chinesa.

O movimento é uma resposta ao fechamento parcial do mercado de aço plano pelas medidas antidumping implementadas em fevereiro de 2026, que reduziram a penetração do aço plano importado de 33% para 23% em março.

Com isso, o capital chinês migra para onde a porta ainda está aberta, e o faz de dentro do Mercosul, com uma fábrica paraguaia que formalmente não está sujeita às mesmas barreiras.

A escala da Acereste ainda é pequena, mas o modelo, se demonstrar viabilidade comercial, pode ser replicado com rapidez. O canal com distribuidores brasileiros já está sendo construído antes da primeira tonelada sair da linha de produção.

Um relatório do Bradesco de junho de 2025 estimou que a tarifa de 50% imposta pela Seção 232 sobre o aço estrangeiro nos Estados Unidos, vigente desde 4 de junho daquele ano, já era capaz de derrubar as exportações brasileiras do metal em 11%.

Isso equivaleria a 1,6 milhão de toneladas a menos e perda de US$ 1,5 bilhão em receitas. A nova proposta tarifária não entra nessa conta, mas aprofunda o isolamento do Brasil em uma negociação que já estava complicada.

O setor passa a administrar pressões simultâneas por diferentes frentes, sem alívio claro no horizonte próximo.

 
Fonte: Times Brasil
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 03/06/2026