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Importações de aço voltam a pressionar governança brasileira

Segundo números do Instituto Aço Brasil, as importações brasileiras de aço somaram mais de 2 milhões de toneladas apenas no primeiro quadrimestre de 2025 e voltaram a pressionar a logística e a governança aduaneira no país.

O resultado foi impulsionado principalmente por produtos asiáticos, enquanto a produção interna cresceu em ritmo mais lento. Porém, com o aumento do volume, surgiram gargalos que vão muito além de tarifas e políticas de defesa comercial.

Para Matheus Antonio Rodrigues, estrategista de negócios e especialista em comércio internacional com mais de 20 anos de atuação no setor siderúrgico, os principais entraves não estão apenas no porto, mas sim antes do embarque da carga.

“Existe a ideia de que a mercadoria fica parada por culpa da Receita Federal, mas mais da metade dos atrasos são provenientes de erros documentais, especialmente na classificação fiscal”, explica.

Para Rodrigues, as falhas no enquadramento da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) geram dúvidas fiscais, ampliam o nível de fiscalização e comprometem prazos e custos. Com isso, surge a necessidade de auditoria documental e validação técnica ainda no país exportador.

“A inteligência aduaneira deve começar na origem, e se o NCM vem errado, toda a cadeia fica comprometida”, pontua.

Outro ponto crítico apontado por Rodrigues é a escolha do porto, que frequentemente é tratada como decisão operacional, quando deveria ser estratégica.

Os portos mistos e sem especialização em cargas pesadas tendem a gerar mais gargalos, enquanto terminais dedicados e organizados oferecem mais previsibilidade e eficiência. “Porto adequado reduz tempo de atracação, risco e custo logístico”, destaca o especialista.

 
Fonte: Grandes Construções
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 05/02/2026

Decisão do Gecex sobre defesa comercial para a indústria do aço: Instituto Aço Brasil divulga nota

O Instituto Aço Brasil avaliou como positiva a decisão do Comitê Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex), na reunião de 28 de janeiro (quarta-feira), de elevar para 25% a alíquota do imposto de importação para nove NCMs (Nomenclatura Comum do Mercosul) de produtos de aço, anunciada no dia 28 de janeiro (quarta-feira). Para a entidade, a medida representa um passo a mais no sistema de defesa comercial para conter as importações predatórias de aço.

De acordo com a nota técnica divulgada pelo governo, foram analisadas informações da Organização para Colaboração e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre o mercado global de aço, que sinalizaram excesso de capacidade de produção no mundo, prática de subsídios pelo governo da China e queda nos preços de aço no mercado global, conforme vinha sendo anunciado pelo setor.

A indústria do aço, diante do reduzido número de posições disponíveis para enquadramento na LDCC (Lista de Elevações Tarifárias por Razões de Desequilíbrios Comerciais), reconhece os esforços do governo brasileiro para aprovação desta medida, além do anterior enquadramento de 16 NCMs no mecanismo Cota Tarifa, em vigor no país desde 2024.

O setor, entretanto, permanece atento e preocupado, diante da crescente guerra no mercado de aço no mundo, motivo pelo qual vários países já adotaram medidas de defesa comercial robustas e de mais amplo espectro de produtos de aço que as adotadas no Brasil, gerando risco de aumento do fluxo de importações para o país.

É importante que o governo siga monitorando o comportamento das importações de aço e avaliando as causas de aumentos anormais de entrada de produtos no país, para evitar que ocorram impactos irreversíveis sobre o parque produtor aqui instalado e consequências negativas em toda a cadeia de produção— Conclui a nota.

 
Fonte: Portal Fator
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 04/02/2026

 

Vista como urgente, venda de ativos da CSN ainda está em fase inicial

Apesar da urgência da venda de ativos da CSN, que acumula uma dívida líquida de R$ 37,5 bilhões, os processos ainda estão em fase bem inicial. Os nomes dos bancos de investimento Morgan Stanley e Santander, para a venda da operação de cimentos, e do Citi, em conjunto com o Bradesco, para a tentativa de atrair sócios do negócio de infraestrutura, estariam bem encaminhados. No entanto, a companhia ainda segue em conversa com outras instituições, inclusive em busca de novos créditos em troca de mandatos de venda, de acordo com fontes.

A empresa teve ao menos mais duas conversas com bancos diferentes nesta semana, deixando ainda em aberto os nomes dos responsáveis por vender os ativos, em transações que podem somar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões.

Na prática, o entendimento de bancos e fontes do setor é de que apenas a venda de controle da CSN Cimentos deve encontrar compradores com maior facilidade. Os ativos de infraestrutura têm menor apelo, até porque ainda precisa ser constituída uma holding para agrupar as partes da CSN que atuam na área, enquanto, na siderurgia, a menção feita pela companhia em teleconferência com analistas de “busca de parceiro” para o negócio ainda se mostra em processo muito inicial e tem gerado descrença na Faria Lima.

Siderurgia não passou por negociação

Apesar de informações que circularam no mercado sobre conversas da companhia com pares nacionais e internacionais, o controlador da CSN, Benjamin Steinbruch, afirmou, em nota, à Broadcast que não teve conversa alguma com possíveis compradores ou sócios nacionais ou internacionais para a venda da siderúrgica.

“Estamos em fase de avaliação da melhor estratégia”, afirmou. A companhia falou em busca de parceiros que aportem “tecnologia e equipamentos” para modernização da usina de Volta Redonda (RJ), que está com instalações obsoletas e requer capital para se atualizar tecnologicamente e se tornar competitiva.

A venda do controle de ativos é considerada o caminho mais viável para Steinbruch, dada a dificuldade do empresário em ter sócios minoritários em seus negócios. Há cerca de três anos, Steinbruch anunciou a busca de um sócio estratégico para o negócio de energia. Não avançou. Depois, em 2024, disse que estava aberto a vender uma fatia da empresa fabricante de cimento, a CSN Cimentos. Também não evoluiu.

A exceção é na CSN Mineração, companhia de minério de ferro, formada em 2016, por razões específicas: os sócios são uma trading e usinas siderúrgicas da Ásia. O grupo é liderado pela trading japonesa Itochu e inclui Posco (Coreia do Sul) e China Steel (Taiwan). As sócias têm direitos de preferência na compra da matéria-prima produzida pela CMIN, para uso em suas usinas de aço. A empresa abriu o capital na B3 em 2021.

Pressão dos bancos

Desta vez, a movimentação da CSN de apresentar um plano detalhado de venda de ativos e cogitar, pela primeira vez, perder o controle de sua operação de produção de cimentos fez parte de uma pressão mais forte dos bancos para que o empresário reduzisse de fato seu endividamento, após uma série de declarações que não haviam se traduzido em ações concretas.

Exemplo da descrença que a empresa vinha enfrentando no mercado são os recentes rebaixamentos de rating. Em novembro, a agência de classificação de risco S&P Global Ratings rebaixou os ratings da companhia de ‘AA+’ para ‘AA’ e os colocou em observação por alavancagem elevada. Ontem foi a vez da Fitch rebaixar de ‘BB’ para ‘BB-’ o rating de emissor da CSN e atribuir uma observação negativa para a nota da siderúrgica, indicando que pode ser rebaixada novamente. Segundo a classificadora, o rebaixamento reflete o endividamento total e líquido “persistentemente elevado” da CSN, o fluxo de caixa livre negativo contínuo e o alto risco de refinanciamento no nível da holding.

Outro sinal de que a confiança dos credores está abalada para com a empresa e seu controlador, é a recente exigência de alguns bancos de que o irmão do CEO e dono da companhia, Benjamin Steinbruch, participe de reuniões sobre as vendas de ativos. Ricardo Steinbruch é considerado mais pragmático e funcionaria como uma garantia de que o empresário, conhecido por evitar vender seus ativos, não adiasse os planos mais uma vez.

Questionada sobre o processo de venda dos ativos de cimentos e infraestrutura, a CSN não comentou até a publicação deste texto.


Os mandatos da CSN
Companhia quer levantar cerca de R$ 18 bi em desinvestimentos

 

O desinvestimento de até R$ 18 bilhões que Benjamin Steinbruch se diz disposto a fazer na CSN está movimentando os bancos de investimento. Ainda não há mandatos formais, mas Bradesco BBI e Citi devem ficar responsáveis pela venda de infraestrutura — ferrovias, portos e terminais. Esses ativos ainda precisam ser segregados em uma holding, que deve fazer venda minoritária, de até 30%.

O Morgan Stanley e o Santander são os assessores mais próximos da operação de cimentos, que pode ser uma venda integral, e ao menos três bancos avançam na disputa pelo mandato de siderurgia, cuja estratégia ainda está sendo discutida com Steinbruch. O empresário quer crédito na contrapartida, para refinanciamento e caixa de subsidiárias.

O desinvestimento tem como objetivo desalavancar a holding. Pessoas próximas à companhia admitem que Steinbruch tem dificuldade em desapegar, mas avaliam que, como o plano desta vez partiu inicialmente dele e não da pressão de credores, vai ser efetivado em algum volume.

As agências de risco podem dar um empurrãozinho para isso. Na segunda-feira, a Fitch colocou os ratings da CSN em observação negativa dado alto endividamento da companhia - a agência projeta um índice bruto fechado em 2025 de 5,9 vezes e líquido de 4,4 vezes. Já para 2026, a projeção é que subam para 6,7 e 4,2 vezes. Excluindo o segmento de mineração, a alavancagem líquida consolidada do ano passado estaria em 13,7 vezes.

A agência pondera que a CSN espera vender uma participação majoritária em cimento e uma minoritária no negócio de infraestrutura, o que ajudaria na questão de alavancagem mas pode reduzir significativamente a diversificação do portfólio - mineração e siderurgia representam a maior parte da geração de Ebitda.


Com agências de notícias (Broadcast+ e Pipeline)


 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 04/02/2026

Setor do aço do Brasil vê avanço com medida antidumping na disputa comercial com a China e a Índia

A aprovação de medida antidumping para as importações de aços pré-pintados, originárias da China e da Índia trouxe uma vitória para o setor no Brasil, que vinha alertando para os riscos de os gigantes asiáticos abocanharem o mercado nacional.

O Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex)confirmou a iniciativa na quarta-feira, 28, mas o valor exato da taxação ainda não foi divulgado, o que deve ocorrer nos próximos dias. Operadores do setor estimam que seja de US$ 400 a US$ 450 por tonelada.

Embora essa especificação de produto alvo da medida seja menos representativa do que os laminados a frio e os galvanizados, para os quais se espera aprovação de antidumping entre fevereiro e março, a sinalização é de que o governo começou a dar mais atenção ao pleito da indústria siderúrgica.

Além do antidumping, com aplicação imediata assim que os valores vierem a público, a Camex determinou alíquota de 25% sobre as importações de nove tipos de produtos siderúrgicos, identificados por nove Nomenclaturas Comuns do Mercosul (NCM) diferentes. Dentre os produtos estão chapas e bobinas revestidas, inoxidáveis e siliciosas, fio máquina, bobinas a quente e trefilados.

O que o setor havia pedido ao governo

O presidente do Instituto Aço Brasil, Marco Polo Lopes, diz que o primeiro pleito do setor ao governo era da implementação de um sistema “hard quota”, quando os órgãos responsáveis estabelecem um limite de importações e não permitem que a entrada de produtos estrangeiros exceda esse montante. Como o pedido não prosperou, foram propostas outras medidas; entre elas, processos antidumping e imposição de tarifas para determinadas NCMs.

O setor já conta com o sistema cota tarifa, que estabelece alíquotas para importações que excedam determinados limites. Ao todo, 16 NCMs estão inclusas neste tipo de taxação considerada falha pelo setor.

“Fechamos 2025 com 5,7 milhões de toneladas de aços laminados importados. A média histórica anual, de 2000 a 2019, era de 2,2 milhões de toneladas. Vínhamos trabalhando com o governo na busca de soluções. Após o pleito da ‘hard quota’ não prosperar, houve celeridade do governo aos pleitos do setor para ampliar a defesa comercial”, afirma Lopes.

Para o presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), Carlos Jorge Loureiro, as medidas apresentadas ontem sinalizam que o governo está começando a dar atenção ao temas levantados pela siderurgia nacional, além de trazer uma expectativa maior de que os processos antidumping de aços laminados a frio e galvanizados também sejam aprovados.

“Entre os importadores, cresce a leitura de que importações fechadas agora possam ser taxadas daqui dois ou três meses e isso já reduz as negociações”, diz Loureiro. Ele explica que a produção brasileira de aços pré-pintados é menos relevante do que as outras duas especificações com processos antidumping em fase final.

O analista do Itaú BBA, Daniel Sasson, lembra que as ações da Usiminas chegaram a subir mais de 7% durante a quarta-feira. “Estamos confiantes em que haja espaço para que as demais medidas antidumping sejam aprovadas: laminado a frio, laminado a quente, galvanizado. A Usiminas é a mais beneficiada nesse cenário; depois, a CSN; e, depois, a Gerdau”, afirma.

 
Fonte: Estadão
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 02/02/2026

Novas medidas do governo tendem a frear a importação de aço

Em resposta às demandas da siderurgia por maior proteção frente à concorrência externa, o governo federal anunciou, nesta semana, novas medidas de defesa comercial que tendem a frear o ritmo da importação de aço, aliviando a pressão sobre o setor, embora ainda sejam esperadas outras ações defensivas capazes de resolver a situação de forma definitiva.

Na quarta-feira (28), o Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex) aprovou a aplicação de direito antidumping definitivo, por até cinco anos, sobre as importações de aços pré-pintados da China e da Índia. Autorizou ainda o aumento das tarifas de importação, para 25%, por 12 meses, de nove Nomenclaturas Comuns do Mercosul (NCMs) de produtos de aço, mas sem o estabelecimento de cotas.

Sobre o antidumping, o analista de investimentos da plataforma AGF, Pedro Galdi, afirma que a medida visa combater a entrada de produtos vendidos a preços artificiais ou abaixo do valor de mercado, protegendo produtores nacionais de práticas consideradas desleais.

Bancos de investimentos apontam que, entre as empresas, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) é a que está mais exposta aos aços pré-pintados – que representam cerca de 10% de suas vendas – e deve ter a margem operacional protegida contra preços predatórios. Além disso, indicam que a decisão aumenta a probabilidade de aplicação de novos antidumpings no primeiro trimestre, focados em laminados a frio e galvanizados.

Quanto à elevação tarifária, a medida engloba laminados a quente, revestidos, trefilados, chapas, bobinas inoxidáveis e silicosas e fio-máquinas. E deve beneficiar ArcelorMittal, Gerdau, Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas) e CSN, sendo que as três últimas e, sobretudo, a companhia de Benjamin Steinbruch, tendem a recuperar rentabilidade com a menor pressão do aço estrangeiro, conforme análises de algumas instituições.

Galdi avalia que as novas tarifas aumentam a proteção à produção interna, especialmente em segmentos em que houve crescimento expressivo de importações nos últimos meses. Entretanto, o analista da AGF pondera: “Essas medidas já eram pleiteadas há muito tempo pelo setor, mas entendo que seria necessário expandi-las para todos os tipos de aço, preservando o parque brasileiro, que caminha para o sucateamento”.

Nesse contexto, cabe citar que, segundo nota técnica da Camex, entre novembro de 2024 e outubro de 2025, as importações das nove NCMs atingiram aproximadamente 572 mil toneladas. Já o volume total de aço importado pelo País no ano passado alcançou 6,4 milhões de toneladas, de acordo com dados do Instituto Aço Brasil.

Aço Brasil avalia decisão como positiva, mas faz ressalvas

Em nota, o Aço Brasil não comentou sobre o antidumping em aços pré-pintados, porém avaliou o aumento tarifário das nove NCMs como positivo e disse que a medida representa um passo a mais no sistema de defesa comercial para conter a importação predatória de aço.

A entidade também reconheceu o esforço do governo federal para aprovação da medida, diante do reduzido número de posições disponíveis para enquadramento na Lista de Elevações Tarifárias por Razões de Desequilíbrios Comerciais (LDCC), além do anterior enquadramento de 16 NCMs no mecanismo de cota-tarifa, em vigor desde 2024.

O instituto, no entanto, ressaltou que o setor permanece atento e preocupado com a crescente guerra no mercado de aço no mundo, motivo pelo qual vários países já adotaram medidas de defesa comercial robustas e de mais amplo espectro de produtos de aço do que as implementadas no Brasil, gerando risco de aumento do fluxo de importações para o País.

“É importante que o governo siga monitorando o comportamento das importações de aço e avaliando as causas de aumentos anormais de entrada de produtos no País, para evitar que ocorram impactos irreversíveis sobre o parque produtor aqui instalado e consequências negativas em toda a cadeia de produção”, reiterou.

 
Fonte: Diário do Comércio
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 02/02/2026

O que trava o apetite de interessados na CSN de Steinbruch?

Benjamin Steinbruch ainda nega em público, mas já admite a interlocutores a possibilidade de sair totalmente da siderurgia no processo de venda de ativos para reduzir o endividamento do grupo.

Nos bastidores, a avaliação é que a CSN acumulou problemas que afastam potenciais interessados: endividamento elevado, descumprimento de normas ambientais, tecnologia defasada e disputas judiciais.

A recuperação da empresa exigiria recursos que o grupo não possui, mesmo com a venda de ativos relevantes, como a divisão de cimento. Para driblar a crise, em 2025 a CSN passou a importar grandes volumes de aço. Foram cerca de 300 mil toneladas vindas da Ásia.
 

CSN: Dívida, Passivos e a Possível Saída de Steinbruch Travam Negócios na Siderurgia
A Encruzilhada da CSN: Dívida Elevada, Passivos Ambientais e a Possível Saída de Steinbruch Travam Negócios em 2026

O mercado siderúrgico brasileiro atravessa um momento de especulação intensa e reposicionamento estratégico que tem como epicentro uma das companhias mais tradicionais e emblemáticas do país. A Companhia Siderúrgica Nacional, mundialmente conhecida pela sigla CSN, vive uma encruzilhada histórica que pode redefinir não apenas o futuro do conglomerado, mas a própria estrutura da indústria de base nacional. Nos corredores da Faria Lima e nos gabinetes de Brasília, a informação circula com força e riqueza de detalhes: Benjamin Steinbruch, controlador e presidente da companhia, embora negue publicamente com veemência, já admite a interlocutores próximos a possibilidade de uma saída total do segmento de siderurgia.

Esta movimentação sísmica faz parte de um robusto e doloroso plano de desalavancagem que a CSN tenta implementar para sobreviver em um mercado global cada vez mais hostil e competitivo. No entanto, o apetite de investidores estratégicos e fundos globais pelos ativos da CSN esbarra em uma “tempestade perfeita” de entraves corporativos. A análise de bastidores indica que a companhia acumulou, ao longo da última década, uma combinação tóxica de endividamento elevado, passivos ambientais complexos, obsolescência tecnológica e um emaranhado jurídico que afasta o capital estrangeiro.

Neste dossiê de mercado, dissecamos os quatro pilares que travam a venda e a recuperação da CSN, a estratégia de importação de aço asiático como paliativo para a ineficiência industrial e o que o futuro reserva para o império de Steinbruch no ano fiscal de 2026.

A Muralha da Dívida e o Desafio da Desalavancagem da CSN

O ponto central que afasta potenciais compradores da operação siderúrgica da CSN é, inegavelmente, a estrutura de capital da empresa. A alavancagem financeira (relação entre dívida líquida e EBITDA ajustado) da CSN tem sido, historicamente, um ponto de fricção com o mercado e motivo de atenção constante para as agências de classificação de risco. Em um cenário de juros globais ainda restritivos, carregar um passivo bilionário torna-se um fardo insustentável para a geração de caixa livre.

O plano anunciado pela diretoria da CSN visa a venda de ativos não core (não essenciais) ou até mesmo de divisões inteiras, como a operação de cimentos (CSN Cimentos) e participações no setor elétrico, para gerar liquidez imediata. Contudo, a matemática financeira por trás dessa operação não é simples. O valor de mercado desses ativos, quando descontados os passivos atrelados e a necessidade urgente de Capex (investimento em bens de capital) para modernização, muitas vezes não cobre o montante necessário para sanear o balanço da CSN de forma definitiva e satisfatória para os credores.

Investidores estratégicos olham para a CSN e veem uma geradora de caixa operacional forte na mineração, mas que é drenada pelo serviço da dívida da holding e da operação siderúrgica. Para que uma transação de M&A (fusão e aquisição) ocorra, o valuation da CSN precisaria sofrer um desconto agressivo, algo que a família Steinbruch, conhecida por sua dureza em negociações, historicamente reluta em aceitar. A “muralha da dívida” da CSN atua, portanto, como o primeiro e mais alto obstáculo para qualquer negociação, exigindo uma engenharia financeira que poucos players globais estão dispostos a estruturar no cenário atual.

O Risco Operacional: Tecnologia Defasada na CSN

Além do balanço financeiro, a due diligence (diligência prévia) de qualquer interessado na CSN esbarra na dura realidade do chão de fábrica. Nos bastidores da indústria, a avaliação técnica consensual é de que a CSN postergou investimentos cruciais em atualização tecnológica e manutenção preventiva pesada ao longo dos últimos anos para preservar caixa.

Enquanto concorrentes globais na Ásia e na Europa migraram para fornos mais eficientes, automação avançada e tecnologias de redução direta com menor pegada de carbono, parte do parque industrial da CSN, especialmente em Volta Redonda (RJ), ainda opera com tecnologias que demandam manutenção intensiva e possuem menor eficiência energética. Isso resulta em um Custo dos Produtos Vendidos (CPV) mais alto, pressionando as margens da CSN em momentos de baixa do ciclo das commodities.

A recuperação da competitividade industrial da CSN exigiria um aporte de recursos — fresh money — que o grupo simplesmente não possui disponível em caixa neste momento. Mesmo com a venda de ativos relevantes, como a divisão de cimento, o montante arrecadado seria majoritariamente consumido pelo abatimento da dívida bancária e de debêntures, sobrando pouco para o revamp (modernização) industrial necessário.

Essa defasagem tecnológica coloca a CSN em desvantagem competitiva estrutural. O custo de produção por tonelada de aço da CSN tende a ser maior do que o de players modernos, comprimindo a rentabilidade. Para um comprador, adquirir a CSN significa assinar um cheque bilionário para a compra das ações e outro cheque, possivelmente maior, para a reforma do parque industrial, o que afeta drasticamente a Taxa Interna de Retorno (TIR) do investimento.

A Importação de Aço: A CSN Virou uma Trader?

Um sintoma claro das dificuldades operacionais e da falta de competitividade momentânea da produção interna da CSN foi a mudança tática e silenciosa observada ao longo de 2025. Para driblar a crise, manter o market share e atender à demanda de seus clientes sem incorrer em custos de produção proibitivos ou gargalos operacionais, a CSN passou a atuar agressivamente na importação de produtos siderúrgicos.

Dados de mercado apurados e confirmados por fontes do setor apontam que foram cerca de 300 mil toneladas de aço importadas da Ásia pela CSN no último ano. Este movimento é emblemático e preocupante sob a ótica industrial. Quando uma siderúrgica, cujo core business é a transformação de minério de ferro em aço, passa a importar volumes massivos do produto final acabado ou semiacabado, ela sinaliza ao mercado que sua eficiência produtiva está comprometida ou que sua capacidade instalada não consegue operar com rentabilidade nas condições atuais de preço de energia e insumos.

Essa “traderização” da CSN pode resolver o problema de fluxo de caixa e atendimento ao cliente no curto prazo, evitando a perda de contratos para a concorrência chinesa, mas corrói o valor da tese industrial no longo prazo. Para um investidor que busca ativos industriais reais (ativos fixos produtivos), ver a CSNdependendo de aço chinês, indiano ou vietnamita é um sinal de alerta vermelho sobre a saúde e a viabilidade econômica dos altos-fornos e laminadores históricos da companhia.

O Passivo Ambiental e o Fator ESG na CSN

No ano de 2026, a pauta ESG (Ambiental, Social e Governança) deixou de ser um diferencial para se tornar um pré-requisito de sobrevivência corporativa. Nenhum grande fundo de investimento global, fundo de pensão ou multinacional do setor de materiais básicos realiza aquisições sem um escrutínio rigoroso desses critérios. É neste quesito que a CSN enfrenta, talvez, sua batalha mais complexa e custosa.

O descumprimento de normas ambientais e o histórico de tensões com órgãos reguladores (como o INEA e o Ibama) e comunidades locais em Volta Redonda e Congonhas pesam significativamente contra a avaliação da CSN. O passivo ambiental da empresa não é apenas uma questão de multas passadas ou Termos de Ajustamento de Conduta (TAC); é uma questão de licença social para operar e de “risco de cauda” (eventos catastróficos de baixa probabilidade mas alto impacto).

Interessados na compra da CSN ou de partes dela calculam na ponta do lápis o custo de adequação ambiental (compliance). As barragens de rejeitos da mineração, as emissões atmosféricas da siderurgia e a gestão de resíduos sólidos exigem investimentos vultosos para atingir os padrões internacionais exigidos por investidores e consumidores. Em um mundo que caminha a passos largos para o “Aço Verde” e a descarbonização total da cadeia, ativos antigos e intensivos em carbono, como alguns detidos pela CSN, são negociados com descontos profundos (deságio) ou simplesmente descartados das carteiras de investimento institucional.

O Labirinto Jurídico e a Governança da CSN

Somando-se à dívida, aos problemas operacionais e ambientais, a CSN carrega um portfólio de disputas judiciais que assusta os departamentos jurídicos de potenciais compradores. Litígios societários antigos, disputas tributárias bilionárias com a União e questões trabalhistas formam um contingente de risco jurídico que dificulta a precificação exata do ativo CSN.

A incerteza sobre o desfecho dessas ações judiciais obriga qualquer comprador a provisionar garantias e escrow accounts (contas de garantia), o que, mais uma vez, reduz o valor líquido a ser pago aos acionistas da CSN em uma eventual venda. Além disso, a figura de Benjamin Steinbruch, conhecido no mercado por sua postura litigiosa, centralizadora e firme em negociações, é vista por muitos players como um fator que adiciona complexidade. Steinbruch é um vendedor difícil, e a governança da CSN é moldada à sua imagem, o que pode gerar conflitos culturais em processos de fusão.

A Visão de Steinbruch: O Fim de uma Era na CSN?

A informação de bastidores de que Benjamin Steinbruch admite, em privado, sair totalmente da operação de siderurgia da CSN é o fato novo que pode destravar valor ou precipitar uma crise de identidade na companhia. Se confirmada, essa saída representaria o fim de uma era no capitalismo industrial brasileiro. Steinbruch, que transformou a CSN privatizada em um conglomerado diversificado (com braços em mineração, cimento, logística e energia), parece ter chegado à conclusão pragmática de que o ciclo do aço, nas condições financeiras e operacionais atuais da empresa, se esgotou ou exige um parceiro com bolsos mais fundos.

No entanto, a negação pública dessa intenção é uma estratégia clássica de defesa de valor. Admitir abertamente a venda sob pressão (fire sale) derrubaria o preço das ações da CSN na Bolsa e daria um poder de barganha desproporcional aos compradores. O jogo de cena, portanto, é manter a narrativa oficial de “busca por parcerias estratégicas” e “reciclagem de ativos”, enquanto se busca nos bastidores uma porta de saída honrosa e financeiramente viável para o controle da siderurgia.

O Futuro da CSN: Desmembramento ou Venda Total?

O cenário mais provável desenhado por analistas de mercado para a CSN em 2026 envolve o desmembramento (break-up) do grupo. A mineração (CSN Mineração – CMIN3) é considerada a “joia da coroa”, com margens altas, custos competitivos e reservas de qualidade mundial. A siderurgia, por outro lado, tornou-se o ativo problemático que drena recursos.

É possível que a solução para a dívida da CSN passe pela venda separada e fatiada dos ativos de cimento, logística e energia, e talvez uma fusão ou joint-venture da operação siderúrgica com um playerinternacional (asiático ou europeu) que aporte tecnologia e capital. Nesse desenho, restaria à família Steinbruch uma participação minoritária na siderurgia ou o foco exclusivo na rentável operação de mineração.

Contudo, para que qualquer um desses cenários se concretize, a CSN precisa resolver sua equação de liquidez de curto prazo. A importação de 300 mil toneladas de aço asiático ajuda a manter o mercado abastecido e gera caixa comercial, mas não resolve o problema do endividamento estrutural. O ano de 2026 será decisivo para a história da empresa: ou a CSN executa seu plano de desinvestimento com perfeição cirúrgica, ou será forçada a uma reestruturação de dívida mais agressiva, que pode diluir o controle acionário atual e mudar a face da siderurgia brasileira.

O Gigante CSN em Transformação

A CSN de 2026 é uma gigante que luta contra o peso de sua própria história e de suas escolhas de alocação de capital do passado. O “apetite travado” dos investidores não reflete falta de interesse no mercado brasileiro, mas sim uma aversão racional aos riscos específicos e idiossincráticos que a CSNcarrega em seu balanço, em seus tribunais e em suas chaminés.

Para o investidor minoritário e para o mercado em geral, a volatilidade das ações e dos títulos da CSNcontinuará alta. A cada rumor de venda, o papel reage; a cada balanço mostrando o peso do serviço da dívida, ele corrige. A possível e discreta admissão de Steinbruch sobre a saída da siderurgia seria o catalisador final para uma reestruturação profunda. Mas, como mostra a análise fria dos fundamentos, encontrar quem queira assumir o passivo operacional, ambiental e financeiro da CSN exigirá mais do que habilidade de negociação: exigirá um alinhamento de astros econômicos que, por ora, permanece fora de órbita.

O mercado aguarda ansiosamente os próximos movimentos. Até lá, a CSN segue importando aço da Ásia, vendendo cimento e tentando convencer o mundo financeiro de que seu valor intrínseco vai muito além da soma de suas dívidas bilionárias.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 02/02/2026