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China reduz produção de aço, enxuga estoques e sustenta recuperação gradual dos preços globais

O mercado siderúrgico chinês começou a dar sinais mais claros de recuperação no fim de abril de 2026, impulsionado por uma combinação de cortes de produção, redução expressiva dos estoques e melhora gradual da demanda doméstica. Ainda que o cenário econômico chinês permaneça marcado pelas fragilidades do setor imobiliário e por uma atividade industrial desigual, o movimento recente trouxe maior sustentação aos preços do aço e elevou o otimismo entre produtores e traders internacionais.

Dados divulgados pela associação chinesa da indústria siderúrgica mostram que as principais usinas do país reduziram significativamente os níveis de produção na reta final de abril. A produção média diária de aço bruto caiu cerca de 3,6% em comparação com o período anterior do mês, enquanto a produção de gusa também recuou, refletindo um esforço coordenado de contenção da oferta diante das margens comprimidas e da demanda ainda moderada.

Esse movimento ocorre em um contexto no qual o governo chinês e as siderúrgicas seguem tentando combater o problema estrutural de excesso de capacidade produtiva. Nos últimos anos, o país acumulou um enorme parque industrial voltado à produção de aço, mas o enfraquecimento do mercado imobiliário reduziu substancialmente o consumo interno de materiais ligados à construção civil, pressionando os preços e afetando a rentabilidade do setor.

A desaceleração da produção, porém, começou a produzir efeitos imediatos sobre o equilíbrio do mercado. Os estoques de aço nas usinas chinesas registraram uma queda expressiva no fim de abril, em um dos movimentos de desestocagem mais relevantes dos últimos meses. A redução superior a 17% nos volumes armazenados indicou uma melhora na circulação de materiais e uma recomposição parcial da demanda antes do feriado do Dia do Trabalho na China.

Além da diminuição dos estoques nas usinas, os estoques spot de diversos produtos siderúrgicos também recuaram nos principais centros de distribuição do país. Produtos como vergalhões, bobinas laminadas a quente e fio-máquina apresentaram retração nos níveis armazenados, sinalizando maior absorção pelo mercado doméstico.

O comportamento da produção também revelou uma mudança importante no foco das siderúrgicas chinesas. Embora o aço bruto tenha recuado, a fabricação de produtos acabados registrou avanço moderado, demonstrando uma preferência crescente por materiais de maior valor agregado e maior competitividade internacional. Esse movimento acompanha a estratégia chinesa de ampliar a participação de produtos siderúrgicos mais sofisticados em sua pauta exportadora.

No mercado doméstico, os preços do aço reagiram positivamente ao aperto da oferta e ao fortalecimento sazonal da demanda. As bobinas laminadas a quente registraram recuperação ao longo das últimas semanas, sustentadas tanto pela redução da produção quanto pela melhora do sentimento do mercado.

No segmento de vergalhões, utilizado principalmente na construção civil, a recuperação foi ainda mais perceptível. Distribuidores relataram aumento no volume de negócios após o feriado prolongado, com reforço da demanda em regiões industriais e intensificação das movimentações entre diferentes províncias chinesas, aproveitando diferenças regionais de preços.

Outro fator importante para a valorização do aço foi a alta dos custos das matérias-primas utilizadas na produção siderúrgica. O coque metalúrgico, insumo fundamental para os altos-fornos, registrou novas tentativas de reajuste por parte dos produtores, elevando os custos operacionais das usinas e contribuindo para sustentar os preços finais dos produtos siderúrgicos.

Além dos fundamentos internos, questões macroeconômicas e geopolíticas também ajudaram a fortalecer o sentimento positivo no mercado chinês. A expectativa de possíveis avanços nas relações comerciais entre China e Estados Unidos trouxe maior apetite especulativo para os contratos futuros de commodities metálicas, favorecendo o mercado de aço nas bolsas chinesas.

No comércio exterior, a China voltou a ampliar seus embarques de aço acabado em abril na comparação com março, beneficiada pela recuperação parcial da logística global. Muitos carregamentos que haviam sido adiados anteriormente, em função das tensões no Oriente Médio e das dificuldades no transporte marítimo, acabaram sendo embarcados ao longo de abril.

Apesar dessa recuperação mensal, as exportações chinesas ainda permanecem abaixo dos níveis registrados no mesmo período do ano anterior. No acumulado dos primeiros meses de 2026, os embarques seguem em trajetória de retração, refletindo tanto a desaceleração da demanda global quanto as crescentes barreiras comerciais impostas por diferentes mercados ao aço chinês.

Mesmo assim, a competitividade internacional da siderurgia chinesa continua elevada. Os preços de exportação de produtos como bobinas laminadas, galvanizados, chapas grossas e vergalhões registraram alta moderada ao longo de abril, mas ainda permanecem atrativos frente aos materiais produzidos em outros grandes polos siderúrgicos globais.

Produtos de maior valor agregado, especialmente os aços elétricos utilizados em setores industriais avançados, ganharam destaque nas exportações chinesas recentes. Esse segmento vem apresentando crescimento consistente, apoiado pela expansão da indústria automotiva elétrica, de equipamentos eletrônicos e de infraestrutura energética.

Ainda assim, analistas seguem cautelosos quanto à sustentabilidade dessa recuperação. O setor imobiliário chinês continua sendo o principal ponto de preocupação para o mercado siderúrgico. A atividade da construção civil permanece fraca, limitando uma retomada mais robusta da demanda doméstica por aço.

Por isso, embora o corte de produção esteja oferecendo suporte imediato aos preços e melhorando o equilíbrio entre oferta e demanda, a expectativa predominante é de apenas uma leve redução da produção total chinesa de aço em 2026 na comparação com 2025.

O cenário atual aponta para um mercado mais equilibrado no curto prazo, mas ainda altamente dependente da recuperação econômica chinesa, da evolução das tensões comerciais globais e da capacidade do setor siderúrgico de manter a disciplina produtiva diante de qualquer melhora adicional das margens.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 12/05/2026

Mercado brasileiro do aço busca estabilidade em meio à pressão das importações e incertezas econômicas

O mercado brasileiro do aço atravessa um momento de aparente estabilização no início de 2026, mas o equilíbrio ainda é considerado delicado pelos agentes da cadeia siderúrgica. Após meses de intensa competição com materiais importados e sucessivas pressões sobre margens de lucro, produtores nacionais tentam reorganizar preços e preservar rentabilidade em um ambiente marcado por demanda moderada, excesso de oferta internacional e elevada cautela dos compradores.

O principal fator de pressão continua sendo o forte avanço das importações de produtos siderúrgicos, especialmente os laminados planos. Mesmo com medidas antidumping, elevação de tarifas e esforços de proteção comercial adotados ao longo de 2025, o volume de aço estrangeiro que ingressa no país seguiu elevado. A expectativa do setor é de que as importações de produtos laminados cresçam cerca de 10% em 2026, ultrapassando a marca de 6 milhões de toneladas.

Na prática, isso significa que uma parcela cada vez maior do consumo doméstico brasileiro vem sendo atendida por materiais importados, limitando o crescimento das usinas nacionais e pressionando a indústria local a operar com disciplina de custos. Grandes produtores, como a Gerdau, vêm classificando o ambiente atual como estável, porém fortemente pressionado pela concorrência externa, principalmente no segmento de aços planos.

Apesar desse cenário desafiador, os preços domésticos começaram a mostrar sinais de acomodação nas últimas semanas. Distribuidores e agentes do mercado relatam que os valores praticamente não se moveram na primeira quinzena de maio, após uma sequência de anúncios de reajustes por parte das siderúrgicas. O entendimento predominante é de que o setor entrou em um período de espera, aguardando a efetiva implementação de uma nova rodada de aumentos programados pelas usinas.

A ArcelorMittal anunciou reajustes para diferentes linhas de produtos, incluindo aumentos de 5% em diversas categorias de aços planos e uma elevação mais agressiva, de 10%, na linha Galvalume. O mercado acredita que a Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, deverá acompanhar esse movimento.

Ainda assim, há considerável ceticismo entre distribuidores e compradores industriais. Muitos preferem aguardar para verificar se os novos preços realmente serão aplicados nas entregas futuras ou se as usinas irão manter condições antigas para pedidos já negociados. Segundo participantes do setor, a efetivação dos reajustes dependerá diretamente da percepção das siderúrgicas sobre o nível real de demanda e da necessidade de preservar volumes de venda.

No segmento de aços longos, especialmente vergalhões utilizados na construção civil, o movimento de alta vem se consolidando de forma mais consistente. As siderúrgicas anunciaram um cronograma escalonado de reajustes mensais entre abril e junho, totalizando 6% ao mês. Parte desse aumento já foi absorvida pelo mercado, refletindo a tentativa das usinas de recompor margens após um longo período de compressão de preços.

Ainda assim, operadores avaliam que apenas a primeira etapa desses reajustes possui sustentação clara no atual contexto econômico. Há dúvidas sobre a capacidade do mercado de absorver novas altas ao longo dos próximos meses, especialmente diante da demanda considerada apenas moderada e da crescente incerteza econômica relacionada ao ambiente político e ao ciclo eleitoral brasileiro.

O setor da construção civil, um dos principais consumidores de aço longo no país, também demonstra sinais de desaceleração. Fontes do mercado apontam redução no ritmo de novos empreendimentos imobiliários, aumento da inadimplência de construtoras e maior cautela nos investimentos. Esse ambiente reduz a confiança dos compradores e dificulta movimentos mais agressivos de recomposição de preços.

Além das questões domésticas, fatores internacionais seguem influenciando diretamente o comportamento do mercado brasileiro. As tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre determinados produtos siderúrgicos alteraram o perfil das exportações brasileiras, aumentando a participação de semiacabados na pauta externa. Paralelamente, as oscilações nos preços globais do aço e nos custos de frete marítimo contribuem para ampliar a volatilidade e a insegurança nas negociações.

Importadores e distribuidores também evitam assumir posições mais longas neste momento. A percepção predominante é de que os preços internacionais ainda podem sofrer correções nos próximos meses, especialmente caso haja redução das tensões geopolíticas globais e reequilíbrio entre oferta e demanda no mercado externo.

Nesse contexto, o mercado brasileiro do aço entra no segundo trimestre de 2026 sustentado por uma estabilidade considerada frágil. De um lado, as siderúrgicas tentam recuperar margens e implementar reajustes gradativos. De outro, consumidores seguem cautelosos, enquanto o avanço das importações continua limitando o poder de reação da indústria nacional.

O resultado é um setor que opera em compasso de espera, monitorando simultaneamente o comportamento da demanda interna, os desdobramentos da economia global e a capacidade real das usinas de sustentar novos aumentos de preços em um ambiente ainda marcado pela concorrência intensa e pela incerteza.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 12/05/2026

 

Como a China transformou terras raras em vantagem estratégica global?

O avanço da disputa global por minerais estratégicos colocou as terras raras no centro das tensões econômicas e tecnológicas entre grandes potências.

Utilizados em carros elétricos, semicondutores, turbinas eólicas, equipamentos militares e dispositivos eletrônicos, esses elementos passaram a ser tratados como ativos estratégicos por governos e indústrias ao redor do mundo.

O tema ganhou força no Brasil após a Câmara dos Deputados acelerar a tramitação do Projeto de Lei 2.780/24, que cria diretrizes para a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

Segundo O Brasilianista, o país possui cerca de 21 milhões de toneladas em reservas conhecidas de terras raras, ficando atrás apenas da China no cenário internacional.

Para o especialista em comércio exterior e sócio da Saygo Comex, Ronaldo Félix, o protagonismo chinês foi construído por meio de planejamento estatal e integração industrial ao longo de décadas. Segundo ele, Pequim compreendeu cedo o valor geopolítico desses minerais.

“A China desenvolveu sua cadeia produtiva de terras raras a partir de uma estratégia de Estado de longo prazo, iniciada ainda nas décadas de 1980 e 1990. O país entendeu cedo que esses minerais seriam fundamentais para a indústria tecnológica, militar e energética do futuro”, afirma Félix.

Estratégia chinesa concentrou investimentos em tecnologia

Segundo Ronaldo Félix, o diferencial da China não ficou restrito à extração mineral. O país estruturou uma cadeia integrada que reúne mineração, refino químico, produção de ligas metálicas e fabricação de componentes industriais.

“Diferentemente de outros países, a China não focou apenas na mineração, mas em toda a cadeia industrial: extração, refino, separação química, produção de ligas metálicas, magnetos e componentes industriais”, explica o especialista.

Félix afirma que o governo chinês ofereceu subsídios, crédito barato, incentivos fiscais e proteção regulatória para consolidar empresas nacionais ligadas ao setor mineral. Ele destaca ainda que houve forte investimento em engenharia química e formação técnica especializada.

“O investimento chinês em tecnologia e refino foi extremamente elevado ao longo das últimas décadas. O refino de terras raras é uma etapa muito mais complexa e estratégica do que a própria extração mineral”, avalia.

A concentração mundial do processamento na China ampliou a dependência internacional em cadeias produtivas ligadas à energia limpa, indústria eletrônica e defesa.

O país lidera tanto a produção quanto o refino dos minerais utilizados em tecnologias de alto valor agregado.

Processamento virou centro da disputa geopolítica

Ronaldo Félix afirma que o principal controle estratégico chinês está no processamento industrial das terras raras.

Segundo ele, muitos países possuem reservas minerais relevantes, mas poucos dominam as etapas químicas necessárias para transformar o minério em produtos industriais.

“O principal domínio da China está no processamento e refino, e não apenas na extração. Esse é o ponto mais relevante do debate geopolítico atual”, destaca.

De acordo com o especialista, o país asiático desenvolveu capacidade industrial capaz de reduzir custos e aumentar produtividade em larga escala. Ele afirma que o domínio tecnológico criou uma relação de dependência global.

“Na prática, isso significa que o controle estratégico não está apenas em possuir o minério, mas em controlar a tecnologia e a capacidade industrial necessária para transformar esse recurso em produtos essenciais para a economia moderna”, explica Félix.

As terras raras são utilizadas em smartphones, chips, baterias de carros elétricos, equipamentos médicos, foguetes e armamentos. A concentração da cadeia produtiva em poucos países elevou o interesse internacional por novos fornecedores.

Brasil tenta ampliar capacidade industrial

O projeto em análise na Câmara prevê a criação de um fundo garantidor de até R$ 5 bilhões para estimular investimentos no setor.

O texto também estabelece incentivos ligados ao processamento nacional e critérios ambientais para empresas interessadas em acessar benefícios públicos.

Regiões como Maranhão, Piauí, Ceará, Goiás, Amazonas, Minas Gerais e Bahia aparecem entre as áreas consideradas promissoras para exploração mineral.

Ronaldo Félix afirma que o Brasil possui potencial relevante, mas ainda enfrenta gargalos estruturais ligados à industrialização e ao refino. Segundo ele, o país historicamente concentrou esforços na exportação de commodities minerais.

“O modelo chinês se diferencia do brasileiro principalmente pela presença de planejamento estatal de longo prazo e integração industrial. No Brasil, historicamente houve maior foco na exportação de commodities minerais com baixo valor agregado”, explica.

O especialista avalia que o cenário internacional abriu espaço para o Brasil se integrar a cadeias globais alternativas, principalmente diante da tentativa de países ocidentais de reduzir dependência da China.

“Estados Unidos, União Europeia, Japão e outros países estão buscando diversificar fornecedores e reduzir a dependência chinesa. Isso abre oportunidades para países com reservas minerais relevantes e estabilidade institucional”, destaca Félix.

O Brasil também tenta ampliar sua produção industrial ligada ao setor. Uma planta-piloto instalada em Lagoa Santa, em Minas Gerais, possui capacidade para produzir cerca de 100 toneladas anuais de ímãs permanentes, utilizados em motores elétricos e equipamentos industriais.

Debate envolve soberania econômica

Ronaldo Félix afirma que o Brasil corre o risco de continuar capturando apenas uma parcela reduzida do valor econômico da cadeia global caso não avance em tecnologia e industrialização.

“Sem estratégia industrial consistente, existe o risco de o país permanecer apenas como exportador de matéria-prima, capturando uma parcela muito menor do valor econômico gerado pela cadeia global”, completa.

A professora de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Terra Budini, afirmou em entrevista ao portal O Brasilianista que o debate envolve capacidade de negociação internacional e estratégia econômica de longo prazo.

“É um cenário problemático porque anula um poder importante que coloca o Brasil com um espaço de negociação, de manobra política internacional importante. Você simplesmente abrir mão disso não faz sentido do ponto de vista do lugar histórico do Brasil, da política externa brasileira no mundo”, afirmou Budini ao O Brasilianista.

 
Fonte: O Brasilianista
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 12/05/2026

Vale a pena levar o seu negócio para o Paraguai? Veja prós e contras da mudança

A pressão por competitividade e os altos custos tem levado um número crescente de empresas brasileiras a redesenhar suas operações e atravessar a fronteira rumo ao Paraguai. No centro desse movimento está a Lei de Maquila, regime fiscal estratégico do nosso ‘vizinho’ que permite a produção por lá com tributação reduzida de 1% sobre o valor agregado (IVA), desde que o foco seja em exportação.

O movimento ganhou força nos últimos anos, impulsionado pelo chamado “Custo Brasil” e por mudanças recentes na legislação paraguaia. Mais de 200 indústrias brasileiras já passaram a operar no país, atraídas por benefícios fiscais e custos operacionais mais baixos. Ainda assim, especialistas alertam que a decisão está longe de ser simples.

“Não é só imposto. Quando a gente olha só imposto, a gente erra na conta. A mudança, quando bem feita, representa um ganho estrutural”, afirma Suelen Raizer, fundadora da consultoria tributária Frontexa. Segundo Raizer, o Paraguai combina fatores como energia mais barata, menor custo trabalhista e logística mais eficiente para atender o Sul e o Sudeste do Brasil. “A gente consegue reduzir até 60% de custos em alguns casos, mas a média fica entre 28% e 35%.”

Para quais negócios o Paraguai faz sentido?

Priscila Campos, fundadora e CEO da consultoria Grupo International, pondera que há uma leitura simplificada do modelo. “O Paraguai não é offshore. Os benefícios existem, mas são condicionados a regras claras e a uma operação real no país”

A mudança para o Paraguai tende a funcionar melhor para empresas industriais, especialmente aquelas com produção padronizada e forte pressão por preço. Setores como têxtil, autopeças e bens de consumo concentram boa parte das operações maquiladoras, refletindo a busca por competitividade frente a produtos importados, sobretudo asiáticos.

“A operação no Paraguai costuma absorver o trabalho fabril – corte, costura, montagem. Já o Brasil fica com as funções estratégicas, como marca, design e comercial”, diz Suelen.

Um dos conceitos centrais desse modelo é o de transformação produtiva. Para acessar os benefícios da Maquila, não basta transferir a empresa para o Paraguai ou apenas importar e revender produtos. É necessário que o bem passe por algum processo industrial no país, gerando valor local. Na prática, isso significa ter que realizar etapas como corte, montagem, costura, acabamento ou industrialização em solo paraguaio. O produto precisa sair diferente do que entrou.

Operações apenas comerciais ou logísticas não são suficientes para enquadramento no regime – e sem se enquadrar na Maquila, o negócio é submetido à taxação normal do país, de 10% sobre o Lucro e IVA de 10%.

Campos concorda que o modelo de negócio de indústria é o principal beneficiado pela Maquila. “Para serviço, geralmente a mudança não faz sentido, porque você não consegue gerar o volume de custo necessário para acessar os benefíciostributários paraguaios”.

Isso porque, para que o projeto seja viável dentro do regime paraguaio, é necessário deslocar uma parte relevante dos custos ao país. “Para ter benefícios fiscais, você precisa ter custo lá: cerca de 40% da estrutura do negócio, isto é, do seu custo total, precisa estar no Paraguai. Podem entrar nessa conta o custo da folha de pagamento, aluguel, operação fabril, serviços contratados no país”, afirma Campos.

Os desafios da mudança

“A Lei de Maquila não é simples. Você precisa de um plano de negócios, passar por aprovação do governo, e isso tem custo”, afirma Campos.

O processo pode levar cerca de 90 dias até a empresa estar apta a operar – o que significa três meses sem operação.

Há também exigências práticas que impactam o dia a dia da empresa, especialmente na relação com o sistema financeiro local. “O relacionamento bancário no Paraguai ainda é muito presencial. Você precisa estar lá para resolver as coisas”, diz Campos.

Por isso, a escolha do representante local faz diferença no processo. “Quando você tem um paraguaio domiciliado como representante, você consegue acessar mais rápido crédito e produtos financeiros.”

Além disso, existe uma limitação em relação à mão de obra qualificada – voltada à tecnologia da informação, por exemplo – que é bem mais escassa, o que também prejudica o setor de serviços ou indústrias mais tecnológicas.

Outro ponto a se considerar é a economia dolarizada do Paraguai. “Como a moeda paraguaia, o Guarani, não é forte, a compra de maquinário e estrutura é feita em dólar. Isso precisa ser considerado quando você está saindo do Brasil, com o seu caixa inteiro em reais”, pontua.

Também é importante considerar que os produtos fabricados no Paraguai entram no Brasil como importação, o que exige planejamento tributário e logístico.

Exemplo bem sucedido: transferência de parte do negócio para o Paraguai

Uma indústria brasileira de confecção, com mais de 15 anos de atuação, decidiu redesenhar sua operação após perder espaço para produtos asiáticos mais baratos – 40% mais baratos em algumas linhas. A Frontexa, que desenhou e implementou a transferência do negócio para o Paraguai, anonimizou os dados da empresa, para preservá-la.

Antes da mudança, com toda a operação e 150 funcionários no Brasil, a empresa produzia 1,05 milhão de peças e faturava cerca de R$ 42 milhões por ano. Por aqui a empresa operada sob o regime de lucro real – que impõe Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) de 15% sobre o lucro, mais um excedente de 5% quando o lucro ultrapassa R$ 20 mil no mês, e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) de 9%, além do ICMS.

“Nos últimos anos, sua rentabilidade vinha sendo pressionada por diversos fatores, como custos trabalhistas mais elevados, encargos sobre a folha, altos preços de energia elétrica e a complexidade tributária. Isso sem falar, claro, na concorrência direta com importados asiáticos, que vinham tomando cada vez mais de seu espaço de mercado no país, devido a principalmente seus custos mais competitivos”, conta Suelen Raizer.

No Brasil, foi realizado um estudo de eficiência tributária para identificar oportunidades legais de redução de carga fiscal dentro da própria operação nacional. A análise envolveu a revisão da estrutura operacional, análise tributária da operação brasileira, identificação de ineficiências fiscais, reorganização estratégica das atividades mantidas no Brasil e mapeamento de oportunidades de recuperação tributária.

“O estudo resultou em uma redução aproximada de 10% da carga tributária da operação brasileira, além da identificação de créditos tributários relevantes decorrentes de tributos recolhidos a maior, possibilitando compensações futuras dentro dos limites legais”, explicou Raizer.

Após a reorganização da estrutura da companhia, o Brasil passou a concentrar atividades estratégicas e de gestão, enquanto a produção de maior escala foi transferida para o Paraguai – corte, costura, acabamento e embalagem, caracterizando a transformação produtiva exigida pela legislação, sob o Regime de Maquila. A empresa também internalizou a produção, passando a operar com 95 funcionários no Brasil e 85 no Paraguai.

O custo médio por peça caiu de R$ 38,60 para R$ 29,85 – uma redução de cerca de 22,7%. A produção anual subiu para 1,2 milhão de unidades e o faturamento avançou para R$ 49 milhões.

Lei de Maquila

A Lei de Maquila, criada em 1997 e regulamentada em 2000, estabelece um regime de incentivo à produção voltada à exportação no Paraguai.

O modelo permite importar máquinas, insumos e matéria-prima com isenção de impostos, desde que esses itens sejam utilizados em processos produtivos no país e o produto final seja exportado. Em troca, a empresa paga um tributo único de 1% sobre o valor agregado da operação.

Para aderir ao regime, é necessário apresentar um ‘programa de maquila’ ao governo, com detalhamento da operação, estrutura de custos e projeções. A aprovação é obrigatória.

A legislação também exige presença real no país e a chamada transformação produtiva, ou seja, a realização de etapas industriais que gerem valor local. Na prática, isso significa que a operação precisa ter substância econômica no Paraguai, com estrutura, equipe e custos alocados no país.

Embora não esteja explicitamente previsto na lei, especialistas apontam que projetos costumam exigir que uma parcela relevante da estrutura de custos – muitas vezes em torno de 40% – esteja no Paraguai, como forma de demonstrar operação real e viabilizar a aprovação.

O regime passou por atualização recente, com ampliação para incluir atividades de serviços e tecnologia, além de novos incentivos fiscais voltados à atração de investimentos.

Em paralelo, o Paraguai tem avançado também na agenda migratória para investidores. O país lançou o chamado Paraguay Investor Pass, que permite acesso direto à residência permanente para estrangeiros que realizem aportes a partir de US$ 150 mil em projetos produtivos ou turísticos, ou US$ 200 mil em imóveis e mercado financeiro.

A medida elimina a etapa anterior de residência temporária e busca acelerar a entrada de empresários no país, reduzindo barreiras jurídicas e burocráticas.

“O Paraguai está removendo uma trava importante para quem quer investir com mais previsibilidade. Quando a residência permanente sai logo no começo, o empresário ganha mais segurança jurídica para decidir sobre operação, patrimônio e até planejamento fiscal”, afirma Raizer.

Segundo a especialista, a mudança pode antecipar decisões de investimento. “Para muitos empresários, o atrativo não é só migratório. É a combinação entre ambiente mais competitivo para negócios e um processo mais direto para se estabelecer no país.”

Dados oficiais citados pela Frontexa indicam que o Paraguai concedeu cerca de 47 mil residências em 2025, sendo aproximadamente 30 mil para brasileiros. A expectativa é de até 100 mil novas concessões em 2026, com cerca de 70 mil ligadas a brasileiros.

A tendência de brasileiros no Paraguai

Existe hoje um movimento mais amplo de brasileiros em direção ao Paraguai. No campo empresarial, grandes companhias como a Lupo e a Riachuelo já estruturaram ou ampliaram operações no país, aproveitando o regime para produção voltada à exportação.

No campo das pessoas físicas, o país também abriga uma das maiores comunidades brasileiras no exterior. Estimativas indicam que entre 300 mil e 350 mil brasileiros vivem atualmente no Paraguai, com crescimento recente impulsionado não apenas pelo agronegócio, mas também por empreendedores e profissionais urbanos.

Segundo a BBC, 2025 foi um ano recorde de pedidos de residência de brasileiros no Paraguai, com 23.526 solicitações, uma alta de quase 38% em relação a 2024, de acordo com dados da Direção Nacional de Migrações Paraguaia. Em 2022 o número de pedidos foi de 12.409.

 
Fonte: Infomoney
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 11/05/2026

 

China triplica apostas na mineração brasileira e coloca país no topo do ranking global de investimentos

Os investimentos chineses no Brasil somaram US$ 6,1 bilhões em 2025, maior volume desde 2017 e alta de 45% sobre o ano anterior, segundo levantamento do Conteúdo e Pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). O desempenho foi muito superior ao dos investimentos estrangeiros como um todo no país, que avançaram 4,8% no mesmo período, e ao crescimento dos aportes da China no mundo, de apenas 1,3%.

 

O grande destaque de 2025, porém, não é o volume total, mas para onde o dinheiro foi. Os aportes chineses no setor de mineração mais que triplicaram, passando de US$ 557 milhões em 2024 para US$ 1,76 bilhão, o equivalente a 29% de todo o capital chinês que entrou no Brasil no ano. O resultado colocou a mineração tecnicamente empatada com o setor de eletricidade, historicamente o principal destino dos investimentos do gigante asiático no país, que ficou com 29,5% do total.

 

O movimento se deu sobretudo por fusões e aquisições. A CMOC comprou minas de ouro da canadense Equinox Gold em Minas Gerais, Bahia e Maranhão por cerca de US$ 1 bilhão. A MMG adquiriu os ativos de ferroníquel da Anglo American no Brasil por US$ 500 milhões. A Baiyin Nonferrous, recém-chegada ao país, pagou US$ 243 milhões pela Mineração Vale Verde, em Alagoas, com foco em cobre. As três operações têm um denominador comum: empresas ocidentais vendendo ativos para compradores chineses.

O que muda quando a China compra uma mina

Para Henrique Costa de Seabra, advogado especialista em Direito Minerário e Ambiental, comprar uma operação já em funcionamento tem vantagens e riscos. “O investidor compra velocidade, considerando que entra em uma operação que já produz, já tem licenças, contratos, empregados, fornecedores e mercado. Mas, juridicamente, ele também compra um pacote de riscos”, afirma. Do ponto de vista regulatório, o Brasil não cria obstáculos pela origem do capital. “O Brasil não distingue, em regra, investidor chinês, europeu ou americano”, diz Seabra.

Esse cenário pode estar prestes a mudar, ao menos para os chamados minerais críticos. Na quarta-feira (6), a Câmara dos Deputados aprovou projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, abrindo caminho para que o Estado revise mudanças de controle societário envolvendo estrangeiros em empresas com direitos minerários sobre esses recursos. “O projeto introduz uma camada nova de análise estatal. Esse movimento aproxima o Brasil de uma tendência internacional, mas com um desenho ainda em construção”, avalia o advogado. O texto ainda depende de aprovação no Senado.

O interesse chinês pela mineração brasileira tem motivação clara. A China lidera a fabricação de produtos ligados à transição energética, de painéis solares a carros elétricos, mas depende de importações para abastecer sua demanda por matéria-prima. O Brasil, por sua vez, detém 26,5% das reservas globais de grafite e é o segundo maior detentor de terras raras do mundo, com 23% do total, atrás apenas da própria China, segundo dados da Cepal citados no relatório do CEBC. O país também figura como terceiro maior detentor de reservas de níquel e tem a quarta maior reserva global de bauxita e alumina.

Carros elétricos

O setor automotivo completou em 2025 um ciclo que havia começado anos antes com a aquisição de plantas industriais ociosas. A GWM, que comprou em 2021 a antiga fábrica da Mercedes em São Paulo, inaugurou sua linha de produção de veículos eletrificados no país. A Geely, por sua vez, adquiriu 26,4% da Renault do Brasil, criando a Renault Geely do Brasil e anunciando investimentos de R$ 3,8 bilhões para o período 2025-2027. No total, o setor automotivo recebeu ao menos US$ 965 milhões em investimentos chineses em 2025, alta de 66% sobre o ano anterior.

O Brasil não chegou ao topo do ranking por acaso, nem pela primeira vez. Nos últimos cinco anos, o país foi o único a aparecer consistentemente entre os cinco maiores receptores de investimento direto da China no mundo, tendo liderado o ranking também em 2021.

 

 
Fonte: Times Brasil
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 11/05/2026

Fabricantes veem avanço chinês na Agrishow, mas apontam barreiras para consolidação no Brasil

O crescimento das fabricantes chinesas de máquinas agrícolas ganhou força na 31ª Agrishow 2026 e passou a mobilizar a atenção de empresas tradicionais instaladas há décadas no Brasil. Neste ano, o grupo asiático reuniu mais de 50 expositores, número superior aos 18 participantes da edição anterior, em um espaço organizado pela Rhino Agri, associação que representa mais de 500 fabricantes chineses interessados em ampliar operações no mercado brasileiro.

O CEO da plataforma, Neeson Cheng, afirmou ao Estadão, em 30 de abril, que a estratégia envolve apresentar o portfólio tecnológico das empresas chinesas ao agronegócio brasileiro e preparar a instalação de um “balcão de negócios permanente” no País para facilitar a importação de máquinas e equipamentos.

Pós-venda e confiança entram no centro da disputa

Apesar do avanço asiático, fabricantes já consolidados no Brasil afirmam que a disputa vai além do preço das máquinas. O CEO da Baldan, Fernando Capra, classificou o movimento como uma “concorrência saudável”, mas ressaltou que a consolidação das marcas chinesas ainda depende de etapas importantes.

“Tropicalização, rede de assistência técnica e construção de marca levam tempo. Tudo tem seu ciclo”, afirmou Capra ao Broadcast Agro. O executivo destacou ainda que a Baldan, sediada em Matão (SP), levará 98 anos de atuação no mercado brasileiro neste ano.

A avaliação é compartilhada por executivos de multinacionais do setor. Para o head global da Massey Ferguson e vice-presidente sênior da AGCO, Luis Felli, o principal desafio para novos concorrentes é estruturar uma rede sólida de concessionárias e suporte técnico.

“O agricultor brasileiro não compra apenas um equipamento, mas um pacote de confiança que inclui peças, assistência técnica e previsibilidade ao longo de muitos anos de uso”, afirmou.

Revenda e adaptação técnica pesam na decisão

Outro ponto apontado por executivos do setor envolve o valor de revenda das máquinas. Segundo Felli, esse fator ainda favorece fabricantes com presença consolidada no País e mercado secundário estruturado.

“Uma coisa é comprar uma máquina mais barata. Outra é saber por quanto você vai vender essa máquina no fim da vida útil e quem vai comprar”, afirmou o executivo.

A adaptação das máquinas ao ambiente brasileiro também aparece como obstáculo para empresas estrangeiras. Felli afirmou que os equipamentos operam em condições severas no Brasil, muitas vezes durante 24 horas por dia, o que exige processos extensos de tropicalização e testes de engenharia.

Segundo ele, o desenvolvimento necessário para atingir os padrões exigidos pelos produtores rurais pode levar anos.

Cadeia global e competição mais intensa

O COO da Indústrias Colombo, Neto Colombo, afirmou que a expansão chinesa também reflete mudanças na cadeia global de suprimentos. Segundo ele, parte da indústria já depende de componentes asiáticos, inclusive no Brasil.

“O que a gente busca é capturar valor dessa nova dinâmica, oferecendo soluções mais próximas, com menos risco logístico e mais previsibilidade”, afirmou. A estratégia da empresa inclui fabricar localmente componentes atualmente importados da China, como redutores planetários.

Para Colombo, há espaço para diferentes modelos de negócio, mas fatores como proximidade e relacionamento continuam relevantes. “O produtor busca eficiência, mas também segurança”, afirmou.

Rede de atendimento segue como diferencial

O vice-presidente da Fendt e Valtra e gerente-geral da AGCO América Latina, Marcelo Traldi, afirmou que o pós-venda tende a ganhar ainda mais importância em um cenário de margens apertadas no campo.

“A máquina agrícola é uma ferramenta de trabalho. O produtor não pode correr riscos”, declarou durante coletiva na Agrishow. Segundo ele, a disponibilidade de peças, a rapidez no atendimento e a capilaridade das concessionárias são fatores decisivos na escolha dos fornecedores.

Traldi também ressaltou o histórico das empresas já instaladas no Brasil. “São décadas investindo, desenvolvendo produto, testando em campo. Isso constrói uma base que não se replica de um dia para o outro”, afirmou. O executivo acrescentou que nenhum equipamento chega ao mercado sem passar por 15 mil a 20 mil horas de testes.

Apesar da preocupação com a chegada de novos concorrentes, executivos do setor avaliam que o diferencial competitivo no agronegócio brasileiro ainda está ligado ao suporte oferecido ao produtor.

“Não é só colocar a máquina no campo. É provar, ao longo dos anos, que ela vai continuar lá, funcionando”, resumiu Luis Felli.

 
Fonte: Times Brasil
Seção: Agro, Máquinas & Equipamentos
Publicação: 11/05/2026