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EUA reformulam tarifas sobre metais e ampliam incentivos para uso de aço e alumínio produzidos no país

O governo dos Estados Unidos promoveu uma nova reformulação em sua política tarifária para produtos relacionados ao aço, alumínio e cobre, reforçando a estratégia de fortalecimento da indústria nacional e de estímulo à produção doméstica de metais. O presidente Donald Trump assinou uma proclamação que altera as tarifas aplicadas a determinados equipamentos agrícolas, máquinas industriais e bens de capital, criando incentivos para fabricantes que utilizem insumos produzidos em território norte-americano.

As mudanças passam a valer a partir de 8 de junho de 2026 e permanecerão em vigor até 31 de dezembro de 2027. Segundo a Casa Branca, o objetivo é incentivar investimentos industriais de curto prazo, reduzir custos em setores considerados estratégicos e ampliar a demanda por aço e alumínio fabricados nos Estados Unidos.

Uma das principais alterações envolve os equipamentos agrícolas. A tarifa aplicada a determinadas categorias de máquinas que contêm quantidades significativas de aço, alumínio e cobre foi reduzida de 25% para 15%. A medida beneficia produtos utilizados amplamente no setor agropecuário, reduzindo os custos de importação para agricultores e empresas que dependem desses equipamentos para suas operações.

Além do segmento agrícola, a nova política também contempla equipamentos industriais móveis. Máquinas como tratores de esteira, conhecidos como bulldozers, empilhadeiras e outros equipamentos utilizados nos setores de construção civil, logística e indústria passam a contar com uma tarifa de 15% quando importados de países que possuam acordos comerciais qualificados com os Estados Unidos.

O aspecto mais estratégico da nova estrutura tarifária está na criação de um mecanismo que recompensa empresas que utilizam matéria-prima norte-americana. Fabricantes estrangeiros poderão acessar uma tarifa reduzida de apenas 10% caso seus equipamentos de capital contenham pelo menos 85% de aço ou alumínio fundido, processado e produzido nos Estados Unidos. Na prática, a medida cria um incentivo econômico para que empresas internacionais aumentem a aquisição de metais provenientes de siderúrgicas e indústrias norte-americanas.

A Casa Branca afirma que a iniciativa busca fortalecer a base industrial do país por meio de uma combinação entre proteção comercial e estímulos ao investimento. Em vez de apenas impor tarifas mais elevadas às importações, a nova política procura direcionar as cadeias globais de suprimento para favorecer fornecedores instalados nos Estados Unidos.

Paralelamente, o governo também promoveu mudanças na aplicação das tarifas previstas na chamada Seção 232, mecanismo utilizado para proteger setores considerados estratégicos para a segurança nacional. A principal alteração está na forma de cálculo do imposto. A taxação passa a incidir sobre o valor aduaneiro total do produto acabado importado, e não apenas sobre o valor ou peso do metal incorporado ao bem.

Com a nova regra, produtos manufaturados que possuam mais de 15% de sua composição em aço, alumínio ou cobre passam a ser tributados em 25% sobre o valor integral da importação. Já os produtos que contenham menos de 15% desses metais ficam isentos dessa cobrança específica.

Outra exceção prevista beneficia produtos fabricados no exterior com utilização de aço, alumínio ou cobre produzidos nos Estados Unidos ou no Reino Unido. Nesses casos, a tarifa aplicada poderá ser reduzida para 10%, ampliando ainda mais o estímulo à utilização de matérias-primas provenientes de países considerados estratégicos para a política industrial norte-americana.

Apesar da flexibilização para alguns equipamentos e produtos manufaturados, a proteção sobre os metais básicos permanece elevada. Produtos compostos quase integralmente por aço ou alumínio continuam sujeitos à tarifa de 50%, preservando a política de proteção à indústria metalúrgica doméstica.

As novas regras devem produzir impactos relevantes para fabricantes, importadores e compradores de máquinas agrícolas, equipamentos industriais e bens de capital. Empresas que exportam para os Estados Unidos poderão ser obrigadas a revisar suas estratégias de fornecimento de matérias-primas para se enquadrarem nas faixas tarifárias mais favoráveis. Ao mesmo tempo, produtores norte-americanos de aço e alumínio tendem a se beneficiar de uma possível ampliação da demanda por seus produtos.

Especialistas avaliam que a medida reforça a crescente integração entre política comercial e política industrial nos Estados Unidos. Ao atrelar benefícios tarifários ao uso de insumos nacionais, o governo busca estimular investimentos, fortalecer cadeias produtivas domésticas e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros em setores considerados estratégicos para a economia.

Com validade até o final de 2027, a nova estrutura cria uma janela para que empresas adaptem suas cadeias de suprimento e estratégias produtivas. O sucesso da iniciativa dependerá da capacidade dos fabricantes de absorver as mudanças e da resposta da indústria norte-americana à expectativa de aumento da demanda por aço, alumínio e equipamentos produzidos no país.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 02/06/2026

Jogo de espiões? Serviço secreto brasileiro coloca terras raras no radar

O segmento de terras raras no Brasil entrou no radar do serviço secreto brasileiro à medida que vem ganhando importância na agenda geopolítica internacional.

O Brasil conta com o segundo maior volume de reservas de terras raras do mundo, tornando-se um potencial candidato a ajudar outros países a reduzir sua dependência da China, atualmente detentora do maior volume de reservas e também da maior produção do segmento. 

Os minerais são considerados cruciais para abastecer os setores de defesa, tecnologia, entre outros.

Recentemente, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), equivalente ao serviço secreto de outros países, promoveu o 1º Encontro Interestadual do Sistema Brasileiro de Inteligência com o objetivo de promover a integração entre os órgãos das comunidades de inteligência dos estados de Goiás, Minas Gerais e Bahia na temática das terras raras.

Esses estados atualmente concentram os maiores volumes de reservas de terras raras no país.

"É essencial conhecer as oportunidades oferecidas pela exploração das terras raras no Brasil, considerando o seu papel estratégico na transição energética e como vetor do desenvolvimento tecnológico no país, considerando também os impactos socioambientais junto às populações diretamente afetadas", disse o superintendente da Abin em Goiás, Raimundo Seixas, em um comunicado.

Recentemente, uma negociação envolvendo um projeto no estado de terras raras em Goiás chamou atenção internacional.

Em abril, a USA Rare Earth anunciou um acordo para comprar o controle da mineradora Serra Verde e também garantiu um contrato de offtake de 15 anos, por US$2,8 bilhões (bi). Com a operação, a empresa passará a deter 100% da Serra Verde, proprietária da mina e da planta de processamento de terras raras Pela Ema, em Goiás.

Pouco tempo depois do anúncio do acordo, a autoridade antitruste do Brasil, o Cade, abriu uma investigação para avaliar os detalhes da aquisição. Embora a USAR não tenha presença no Brasil, a autoridade decidiu abrir investigação para avaliar se o contrato de offtake de 15 anos pode ferir regras de competição.

Além disso, o governo brasileiro, sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem reforçado que o país está atento aos aspectos de soberania e, embora esteja aberto a investimentos estrangeiros, busca acompanhar de perto os negócios envolvendo terras raras diante da forte demanda pelos insumos do setor para as áreas de defesa e tecnologia.

Nos últimos dias, o elemento da soberania ganhou relevância após a administração do presidente Donald Trump designar duas facções criminosasno Brasil como organizações terroristas, o que no futuro pode gerar sanções ao país por parte do governo dos Estados Unidos. O governo brasileiro viu na medida uma forma de os Estados Unidos influenciarem assuntos domésticos do Brasil e também buscarem influência no processo eleitoral do país.

Em outubro, o Brasil terá eleições, inclusive para presidente, e Lula é candidato à reeleição. Segundo pesquisas, o senador Flávio Bolsonaro é o principal opositor de Lula até o momento. Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro apoiou a decisão de Trump de classificar organizações criminosas brasileiras como terroristas, buscando desgastar a imagem do atual governo na área de segurança pública.

Enquanto isso, no segmento de terras raras, questões de inteligência extrapolam as fronteiras do Brasil.

Recentemente, a MP Materials, empresa do segmento de terras raras dos Estados Unidos, entrou com uma ação judicial contra a USAR alegando que a rival roubou segredos tecnológicos, segundo a imprensa local.

Em meio ao envolvimento dos serviços de inteligência, questões geopolíticas e alegações de roubo de tecnologia, o Congresso brasileiro também está atualmente debruçado sobre um projeto de lei para regulamentar os segmentos de minerais críticos, incluindo terras raras.

Como parte do projeto de lei, agora em análise no Senado após aprovação na Câmara dos Deputados, o Congresso avalia uma regulação que, entre outros pontos, criaria uma comissão formada majoritariamente por membros do governo com poder para avaliar e vetar operações no setor.

A regulação também traz mecanismos para ajudar a fomentar o financiamento do setor, mas participantes do mercado apontam preocupações em relação à maior supervisão governamental.

"Há alguns aspectos [no projeto de lei em discussão] que podem gerar preocupações, especialmente em relação aos mecanismos de supervisão que o governo pretende estabelecer sobre os ativos e, possivelmente, sobre os contratos de offtake," disse à BNamericas Rafael Moreno, CEO da empresa australiana Viridis Mining and Minerals.

A Viridis é proprietária do projeto de terras raras Colossus, de US$360 milhões, em Minas Gerais, e recentemente inaugurou um centro de pesquisa e processamento como parte do projeto.

"As autoridades precisam ter cuidado para não levar isso longe demais. Projetos como o nosso ainda precisam de flexibilidade para obter financiamento atrativo e captar recursos via participação acionária e isso inclui liberdade para definir onde a produção será comercializada por meio de contratos de offtake. Se o governo conseguir manter o equilíbrio adequado, acredito que o projeto de lei poderá ser positivo de forma geral," disse Moreno.

 
Fonte: BN Americas
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 02/06/2026

 

Japão lançará investigação antidumping sobre materiais de aço importados da China, da Coreia do Sul e de Taiwan

O governo do Japão afirma que lançará uma investigação sobre se alguns produtos siderúrgicos da China, da Coreia do Sul e de Taiwan são importados a preços injustamente baixos, prejudicando os concorrentes japoneses. 

Na segunda-feira, o Ministério da Economia, Comércio e Indústria e o Ministério das Finanças anunciaram que investigarão bobinas, chapas e tiras de aço laminadas a quente, bem como bobinas, chapas e tiras de aço laminadas a frio, originárias dos três lugares. 

Materiais de aço laminados a quente e itens laminados a frio processados a partir deles são amplamente empregados em automóveis, materiais de construção e aparelhos eletrônicos, entre outros. 

Grandes companhias siderúrgicas japonesas, incluindo a Nippon Steel e a JFE Steel, solicitaram ao governo, em fevereiro, que impusesse um imposto antidumping sobre produtos da China e de outros lugares. Elas disseram que os materiais haviam sido importados a preços injustamente baixos. 

As pastas perguntarão aos exportadores asiáticos a respeito das diferenças entre os preços internos e de exportação. Para empresas japonesas, as autoridades perguntarão sobre as mudanças na produção dos mesmos tipos de produtos. 

Os ministérios decidirão dentro de um ano se devem impor direitos antidumping. 

O Japão vem conduzindo duas investigações antidumping desde o ano passado. Com as novas investigações, esse número passa para quatro. 

A Federação Japonesa de Ferro e Aço argumenta que grandes volumes de materiais siderúrgicos têm deixado a China a preços baixos devido ao declínio na demanda doméstica decorrente de uma queda no mercado imobiliário.

 
Fonte: NHK World
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 02/06/2026

 

Tarifas reforçam proteção ao aço nacional e elevam perspectivas para siderúrgicas brasileiras

A decisão do Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex) de renovar o sistema de tarifa-cota para importações de aço foi recebida de forma positiva pelo mercado e reforçou as perspectivas para a indústria siderúrgica brasileira. Embora o governo tenha descartado a proposta mais rígida de elevar para 35% as tarifas de importação sobre 21 códigos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), a manutenção das restrições atuais, combinada à redução dos volumes permitidos em algumas categorias, foi vista como mais um passo no processo de proteção ao setor nacional.

Pelas regras mantidas pelo Gecex, as tarifas permanecem entre 10,8% e 12% dentro das cotas estabelecidas e sobem para 25% para volumes que ultrapassem esses limites. A medida dá continuidade a uma estratégia iniciada em 2024, quando o governo passou a ampliar gradualmente os mecanismos de defesa comercial diante do forte avanço das importações, principalmente de produtos asiáticos, que vinham pressionando as margens das siderúrgicas brasileiras e reduzindo seu poder de precificação.

Na avaliação do Bradesco BBI, a revisão do sistema torna o modelo mais eficiente ao restringir de forma mais precisa a entrada de aço importado. Ainda assim, o banco considera que as mudanças ficaram aquém da alternativa mais agressiva discutida anteriormente e, por isso, não alteram de maneira significativa as perspectivas já projetadas para o setor. Mesmo sem mudanças drásticas, a instituição continua esperando uma redução relevante das importações nos próximos meses, movimento que deve ser impulsionado tanto pelo endurecimento das barreiras comerciais quanto pelos efeitos indiretos do conflito no Oriente Médio sobre os fluxos globais de comércio.

Para o Goldman Sachs, entretanto, o principal impacto da decisão está na sustentação do processo de recuperação dos preços do aço no mercado brasileiro. Segundo os analistas, a combinação entre medidas antidumping, restrições às importações e aumento dos custos de produção vem reduzindo a concorrência dos produtos estrangeiros e criando espaço para reajustes de preços pelas siderúrgicas nacionais.

O banco avalia que os preços do aço continuam em trajetória de alta no Brasil e ainda possuem potencial adicional de valorização entre 5% e 10% ao longo dos próximos meses. Embora a demanda doméstica siga relativamente moderada e o ambiente macroeconômico ainda apresente desafios, os analistas destacam que mesmo aumentos modestos nos preços podem produzir impactos expressivos nos resultados das empresas do setor.

Isso ocorre porque as siderúrgicas operam com elevada alavancagem operacional, característica que amplia os ganhos quando a receita cresce. Pelas estimativas do Goldman Sachs, cada aumento de 1% nos preços realizados do aço pode gerar expansão entre 2% e 8% no EBITDA de empresas como CSN, Gerdau e Usiminas.

Dentro desse cenário, a Usiminas aparece como uma das principais beneficiárias das novas medidas. O Goldman Sachs elevou recentemente sua recomendação para compra das ações da companhia, destacando sua forte exposição ao mercado doméstico, justamente o segmento que tende a ser mais favorecido pela redução da concorrência externa.

Segundo o banco, a manutenção do sistema de tarifa-cota, associada à diminuição dos volumes autorizados para importação em algumas categorias, fortalece a proteção à indústria nacional e cria um ambiente mais favorável para os produtores locais. Como grande parte das operações da Usiminas está concentrada no mercado brasileiro, a companhia possui maior capacidade de capturar os benefícios decorrentes da valorização do aço.

Além disso, os analistas ressaltam que o valuation da empresa continua atrativo quando comparado ao de outras siderúrgicas, oferecendo uma relação entre risco e retorno considerada mais favorável. Com preços em alta e forte presença no mercado interno, a expectativa é de que os ganhos operacionais da companhia avancem de forma relevante nos próximos trimestres.

A Gerdau também permanece entre as preferidas do Goldman Sachs. O banco manteve sua recomendação de compra para as ações da empresa, argumentando que as barreiras comerciais continuam funcionando como um importante suporte para os preços do aço no Brasil.

Embora o Gecex tenha rejeitado a adoção de uma tarifa linear de 35%, os analistas avaliam que as medidas aprovadas já são suficientes para limitar a entrada de produtos importados e preservar a competitividade dos produtores nacionais. A expectativa é que a combinação entre restrições comerciais e medidas antidumping continue sustentando a rentabilidade do setor, mesmo em um contexto de demanda ainda moderada.

Outro fator observado pelos analistas é o cenário internacional. O conflito no Oriente Médio pode gerar novas disrupções logísticas e reduzir ainda mais a competitividade de parte dos produtos importados, contribuindo para uma queda adicional das importações ao longo dos próximos meses. Nesse ambiente, a Gerdau é vista como uma das empresas mais bem posicionadas para converter a alta dos preços em crescimento de resultados.

Já a CSN também deve colher benefícios importantes do novo cenário para o aço brasileiro. A redução da pressão exercida pelos produtos importados tende a fortalecer sua operação siderúrgica e ampliar sua capacidade de capturar os reajustes observados no mercado.

De acordo com o Goldman Sachs, a companhia possui elevada alavancagem operacional, o que faz com que aumentos nos preços do aço produzam impactos significativos sobre sua geração de caixa e seu EBITDA. Assim como ocorre com as demais empresas do setor, a expectativa é de melhora operacional à medida que os preços avancem.

Apesar disso, o banco mantém uma postura mais cautelosa em relação à CSN. A principal razão está na situação financeira da companhia, que continua marcada por elevados níveis de endividamento e preocupações relacionadas à liquidez. Na avaliação dos analistas, os benefícios proporcionados pelo ambiente mais favorável para o aço são relevantes, mas ainda insuficientes para eliminar os riscos associados ao balanço da empresa.

Dessa forma, embora a renovação das tarifas de importação represente um avanço importante para toda a indústria siderúrgica nacional, as avaliações dos analistas mostram que os impactos tendem a ser percebidos de maneira diferente entre as companhias. Enquanto Usiminas e Gerdau aparecem como as principais apostas para capturar os ganhos decorrentes da alta dos preços e da menor concorrência externa, a CSN continua apresentando potencial de valorização operacional, mas ainda enfrenta desafios financeiros que recomendam maior cautela por parte dos investidores.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 01/06/2026

Guerra tarifária do aço amplia tensão entre China, Europa e Reino Unido

A escalada das disputas comerciais no mercado global do aço ganhou novos capítulos nas últimas semanas, envolvendo diretamente China, União Europeia e Reino Unido. Entre tarifas mais rígidas, subsídios bilionários, riscos de nacionalização e acusações de concorrência desleal, o setor siderúrgico vive uma reconfiguração profunda, marcada pelo avanço do intervencionismo estatal e pela crescente fragmentação das cadeias globais de produção.

A mais recente tensão surgiu após a União Europeia confirmar mudanças em sua política tarifária para o aço, com novas medidas previstas para entrar em vigor em 1º de julho. A reação da China foi imediata. O porta-voz do Ministério do Comércio chinês, He Yadong, afirmou que as decisões europeias poderão afetar diretamente o comércio siderúrgico entre os dois mercados e reduzir a competitividade da indústria europeia.

Segundo o governo chinês, as medidas podem gerar impactos sobre as cadeias globais de produção e suprimentos em um momento de desaceleração econômica e reorganização industrial em diversas regiões do mundo. Pequim também alertou que poderá adotar ações de proteção comercial caso empresas e produtos chineses sejam alvo de medidas consideradas discriminatórias.

A disputa ocorre enquanto China e União Europeia seguem negociando no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), em uma tentativa de evitar o agravamento das tensões comerciais. Ainda assim, o endurecimento tarifário europeu reflete um movimento cada vez mais amplo de defesa das indústrias locais diante da crescente pressão do aço chinês, historicamente beneficiado por elevados níveis de subsídios governamentais.

No Reino Unido, o cenário também se tornou motivo de preocupação para empresas da cadeia siderúrgica e da construção civil. A Cleveland Steel & Tubes, fornecedora britânica de aço, alertou que as mudanças tarifárias planejadas pelo governo poderão provocar perda de empregos e estimular a transferência da fabricação de estruturas metálicas para outros países.

As novas regras reduzem significativamente as cotas de importação isentas de tarifas e ampliam as taxas sobre o aço importado quando esses limites forem excedidos. Segundo a empresa, algumas categorias terão redução de cotas de até 90%, enquanto as tarifas podem dobrar, passando de 25% para 50%.

Para Roy Fishwick, diretor-geral da Cleveland Steel & Tubes, as medidas podem gerar efeitos contrários aos desejados pelo governo britânico. Embora o objetivo seja proteger a produção nacional, a indústria local não possui capacidade suficiente para atender integralmente à demanda doméstica, especialmente em produtos específicos utilizados pela construção civil.

“O Reino Unido não fabrica, em quantidade suficiente, alguns dos tipos e tamanhos de aço de que precisamos”, afirmou Fishwick. Segundo ele, a consequência prática pode ser o aumento das importações de aço já pré-fabricado, uma vez que as tarifas não se aplicam da mesma forma sobre componentes prontos vindos do exterior.

O executivo também alertou para impactos sobre projetos de construção sustentável. Empresas que utilizam aço reutilizado ou aço de baixo carbono produzido em fornos elétricos fora do Reino Unido podem enfrentar custos maiores, dificultando metas de descarbonização em grandes obras.

O debate europeu sobre proteção industrial ocorre em paralelo a um movimento mais amplo de fortalecimento dos subsídios estatais dentro da União Europeia. Desde a pandemia de covid-19 e da crise energética agravada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, os países europeus vêm ampliando significativamente os mecanismos de apoio às empresas.

Em 2024, os países da União Europeia desembolsaram juntos mais de 168 bilhões de euros em subsídios considerados compatíveis com as regras do bloco. O valor representa quase 1% do Produto Interno Bruto europeu e evidencia a mudança de postura da região em relação à intervenção estatal na economia.

A flexibilização das regras de ajuda estatal tem sido defendida por governos como os da França e Alemanha, que argumentam que a Europa precisa proteger suas indústrias estratégicas diante da concorrência de países como China e Estados Unidos, ambos adeptos de políticas industriais agressivas e altos níveis de subsídios.

No centro desse debate está a transição energética e a descarbonização da indústria pesada europeia. Empresas siderúrgicas afirmam que não conseguirão sustentar os elevados custos da transformação sem apoio financeiro dos governos.

O CEO da siderúrgica alemã Salzgitter, Gunnar Groebler, comparou a descarbonização a uma ponte cara de construir e impossível de atravessar sem ajuda estatal. Segundo ele, abandonar a transição no meio do caminho colocaria em risco a própria sobrevivência da indústria europeia.

A discussão, porém, divide economistas e governos do bloco. Países de perfil mais liberal, como Holanda e nações escandinavas, argumentam que o excesso de subsídios pode distorcer a concorrência dentro do mercado europeu e favorecer principalmente Alemanha e França, que possuem maior capacidade fiscal para financiar suas indústrias.

Além disso, críticos apontam que a dependência crescente de ajuda estatal pode reduzir os incentivos para reformas estruturais voltadas à competitividade, inovação e eficiência energética.

A disputa comercial envolvendo o aço ganhou dimensão ainda maior com a crise da British Steel. A empresa, adquirida em 2020 pelo grupo chinês Jingye, tornou-se símbolo das dificuldades enfrentadas por investidores chineses no Ocidente em meio ao avanço das barreiras comerciais e da rivalidade geopolítica.

Segundo analistas chineses, a compra da British Steel fazia parte de uma estratégia para usar a capacidade produtiva britânica como plataforma de acesso aos mercados ocidentais e forma de contornar tarifas norte-americanas sobre o aço chinês.

O plano, entretanto, sofreu forte impacto após o governo dos Estados Unidos ampliar tarifas sobre importações de aço e alumínio, incluindo produtos vindos do Reino Unido. Washington alegou que empresas chinesas vinham adquirindo siderúrgicas estrangeiras para driblar restrições comerciais impostas ao aço produzido diretamente na China.

Com dificuldades financeiras agravadas pelos altos custos de energia no Reino Unido e pela concorrência do aço chinês barato, a British Steel passou a operar com prejuízos elevados. O governo britânico então aprovou uma legislação emergencial que permite assumir o controle da companhia e até avançar para uma possível nacionalização.

A medida elevou a tensão diplomática entre Londres e Pequim. O governo chinês afirmou que a Grã-Bretanha deve agir com imparcialidade, respeitar os investimentos realizados pelo grupo Jingye e preservar os direitos das empresas chinesas.

A crise evidencia como a siderurgia se tornou um dos setores mais sensíveis da nova disputa geopolítica global. O aço, tradicionalmente associado à base industrial das economias, voltou ao centro das estratégias nacionais de segurança econômica, transição energética e defesa comercial.

Em um cenário marcado por tarifas crescentes, subsídios bilionários e reorganização das cadeias produtivas, governos e empresas buscam equilibrar proteção industrial, competitividade e sustentabilidade. O resultado dessa disputa tende a moldar os rumos da indústria siderúrgica mundial nos próximos anos.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 29/05/2026

Construção modular avança no Brasil em meio ao apagão de mão de obra e pressão por produtividade

A construção civil brasileira atravessa uma transformação silenciosa, mas profunda. Enquanto o setor mantém crescimento e demanda aquecida em segmentos corporativos, hoteleiros, hospitalares e de infraestrutura, empresas enfrentam um problema cada vez mais crítico nos canteiros: a falta de mão de obra qualificada.

O chamado “apagão de mão de obra” já impacta cronogramas, aumenta custos e pressiona a produtividade do setor. Dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) mostram que mais de 80% das construtoras brasileiras relatam dificuldade para contratar profissionais qualificados para funções operacionais. Entre os cargos mais escassos estão pedreiros, carpinteiros, armadores, instaladores e mestres de obras.

O problema não é isolado. A construção civil brasileira enfrenta um cenário marcado pelo envelhecimento da mão de obra, baixa renovação geracional e redução do contingente de jovens disponíveis para o mercado de trabalho, reflexo direto das mudanças demográficas no país. Paralelamente, cresce a migração de trabalhadores para atividades ligadas à logística, aplicativos e serviços autônomos, enquanto a pressão por produtividade, velocidade de entrega e previsibilidade financeira se intensificou significativamente nos últimos anos. 

Segundo levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), a construção civil segue entre os setores com maiores desafios de produtividade da economia brasileira. No cenário internacional, estudos da McKinsey apontam que a produtividade global da construção cresceu menos de 1% ao ano nas últimas décadas, muito abaixo de setores industriais que avançaram com automação e padronização produtiva.

É nesse contexto que a industrialização da construção começa a ganhar espaço no Brasil. Sistemas modulares e modelos off-site vêm sendo adotados como alternativa para reduzir a dependência operacional, diminuir desperdícios e melhorar o controle técnico das obras.

Na prática, parte significativa da construção deixa o canteiro e passa a ser produzida em ambiente industrial, em linhas de montagem com maior controle de processos, qualidade e cronograma. Dependendo do projeto, o prazo de execução pode cair até quatro vezes em relação aos modelos tradicionais.

Para Celso Zaffarani, fundador da Zaffarani Design Build, a industrialização deixou de ser apenas uma inovação técnica e passou a representar uma necessidade operacional do setor.

“A construção civil brasileira ainda opera com uma dependência muito grande de processos artesanais. Quando você soma escassez de mão de obra, aumento de custos e pressão por prazo, a industrialização passa a ser uma resposta estratégica para manter eficiência e previsibilidade”, afirma.

Segundo ele, segmentos como hotelaria, saúde e projetos corporativos devem acelerar esse movimento justamente pela necessidade de reduzir impactos operacionais durante obras e reformas.

“Em projetos corporativos e hoteleiros, o tempo parado gera prejuízo. Quanto maior o controle industrial sobre determinadas etapas, maior a previsibilidade de entrega e menor o impacto sobre a operação do cliente”, explica.

O avanço acompanha uma tendência global. Relatório da Dodge Construction Network projeta crescimento consistente do mercado internacional de construção modular nos próximos anos, impulsionado por fatores como produtividade, sustentabilidade e redução de desperdício. Nos Estados Unidos e em países europeus, sistemas industrializados já são utilizados em hotéis, hospitais, residências estudantis, habitação multifamiliar e estruturas corporativas.

Apesar disso, o Brasil ainda enfrenta obstáculos relevantes para ampliar o modelo em larga escala. Um dos principais desafios está na logística. O transporte de módulos industriais exige infraestrutura rodoviária adequada, planejamento operacional e adaptações técnicas que ainda limitam a expansão do sistema em algumas regiões.

Outro ponto está relacionado ao próprio ambiente regulatório e financeiro da construção civil. Grande parte dos modelos de financiamento, tributação e normativas técnicas ainda foi estruturada com base na lógica tradicional dos canteiros de obra.

Para Celso Zaffarani, o futuro do setor deve caminhar para um modelo híbrido.

“A tendência não é o desaparecimento da construção convencional, mas uma integração maior entre industrialização e execução em campo. Algumas etapas vão migrar para ambientes industriais enquanto outras continuarão sendo feitas no canteiro. O setor está entrando em uma nova fase de maturidade produtiva”, diz.

Além da produtividade, empresas também observam ganhos importantes em sustentabilidade. Estudos internacionais apontam que sistemas industrializados podem reduzir desperdício de materiais, retrabalho e consumo de água, temas que vêm ganhando peso crescente nas exigências corporativas e institucionais.

Com pressão crescente por eficiência, previsibilidade e controle financeiro, a industrialização da construção começa a deixar de ser tendência futura para se consolidar como resposta concreta aos limites operacionais do modelo tradicional.

 
Fonte: Gazeta do Povo
Seção: Construção, Obras & Infraestrutura
Publicação: 29/05/2026