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Tarifa dos EUA preserva insumos estratégicos, mas amplia pressão sobre a indústria de transformação brasileira

A decisão dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, com vigência a partir de 22 de julho, inaugura uma nova etapa da disputa comercial entre os dois países. Embora o anúncio tenha sido recebido com preocupação pela indústria nacional, a lista final publicada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) revela um aspecto pouco explorado: Washington preservou justamente os produtos considerados estratégicos para o funcionamento de sua própria indústria.

Entre os itens excluídos da sobretaxa estão ferro-gusa, sucata de ferro e aço, determinados produtos siderúrgicos, além de matérias-primas como petróleo, alumínio, celulose, café, carne bovina e componentes aeronáuticos. Em contrapartida, segmentos de maior valor agregado — como máquinas industriais, máquinas agrícolas, equipamentos elétricos, ferramentas, produtos metalúrgicos transformados e diversos manufaturados — permaneceram sujeitos à nova tarifa.

A diferença evidencia uma mudança importante na política comercial americana. A prioridade deixou de ser apenas reduzir importações e passou a proteger cadeias industriais consideradas estratégicas, preservando insumos indispensáveis à produção doméstica enquanto amplia barreiras sobre bens que podem ser substituídos por fornecedores locais ou de outros países.

A decisão também reforça uma leitura geoeconômica cada vez mais presente nas relações comerciais internacionais: a disputa deixou de ocorrer apenas entre países e passou a envolver cadeias produtivas inteiras.

Ferro-gusa permanece estratégico para os Estados Unidos

Entre todas as exceções anunciadas pelo governo americano, uma das mais relevantes para a indústria brasileira é a manutenção da isenção para o ferro-gusa.

Embora seja um produto de baixo grau de transformação industrial, o ferro-gusa brasileiro ocupa posição estratégica no abastecimento das siderúrgicas americanas, especialmente das mini mills e fundições que utilizam o material como matéria-prima para produção de aço e peças fundidas.

Na avaliação do próprio USTR, a substituição desse fornecimento poderia provocar aumento de custos para a indústria americana e comprometer o abastecimento de segmentos importantes da manufatura.

Na prática, Washington reconhece que determinados insumos produzidos pelo Brasil permanecem difíceis de substituir no curto prazo.

Essa decisão confirma que o comércio bilateral continua sendo caracterizado por forte complementaridade em diversos segmentos industriais.

O impacto recai sobre produtos de maior valor agregado

Se os insumos estratégicos foram preservados, o mesmo não ocorreu com boa parte da indústria de transformação.

Pedidos apresentados por fabricantes de máquinas agrícolas, máquinas industriais, equipamentos elétricos, ferramentas, papel, calçados e diversos produtos manufaturados foram rejeitados pelo governo americano.

Mesmo com argumentos relacionados ao aumento de custos para empresas dos Estados Unidos, o USTR concluiu que esses produtos podem ser obtidos em outros mercados internacionais ou substituídos pela produção doméstica.

Essa decisão altera significativamente o perfil do impacto econômico.

Em vez de atingir principalmente commodities, a nova tarifa concentra pressão justamente sobre segmentos responsáveis pela maior agregação de valor industrial.

São setores intensivos em engenharia, transformação metalúrgica, tecnologia e mão de obra especializada.

Máquinas entram no centro da disputa

Poucos segmentos ilustram essa mudança com tanta clareza quanto a indústria de máquinas.

Nos últimos anos, fabricantes brasileiros ampliaram sua participação em nichos ligados à agricultura, construção pesada, mineração, infraestrutura e equipamentos industriais.

Esses produtos normalmente envolvem projetos específicos, certificações técnicas e elevado conteúdo tecnológico.

Ainda assim, o governo americano optou por não conceder isenção ao setor.

A decisão aumenta a pressão competitiva sobre fabricantes brasileiros justamente em um momento de reorganização das cadeias globais de bens de capital.

Além do impacto direto sobre exportações, cresce a preocupação com possíveis efeitos sobre fornecedores nacionais de fundidos, componentes mecânicos, sistemas hidráulicos, motores e estruturas metálicas.

A indústria metalmecânica sente os efeitos

Outro segmento potencialmente afetado é a indústria metalmecânica.

Produtos transformados em aço, equipamentos industriais, ferramentas e componentes metálicos passam a enfrentar condições menos competitivas no mercado americano.

Esse movimento ocorre justamente quando diferentes regiões brasileiras vinham ampliando investimentos em agregação de valor ao aço.

Projetos como a futura linha de bobinas laminadas da ArcelorMittal no Pecém, a retomada parcial da indústria naval, a expansão da fabricação de máquinas agrícolas e o fortalecimento da cadeia metalmecânica buscavam aumentar a participação brasileira em produtos industriais de maior complexidade.

A nova tarifa tende a dificultar parte desse processo.

A indústria americana também impôs limites ao protecionismo

Ao preservar determinados insumos, os Estados Unidos também demonstram que o protecionismo encontra limites impostos pela própria estrutura industrial do país.

Ferro-gusa, determinadas matérias-primas metálicas e componentes específicos continuam sendo essenciais para a competitividade da manufatura americana.

Aplicar tarifas sobre esses produtos significaria elevar custos para fabricantes instalados nos próprios Estados Unidos.

Isso reforça uma característica importante da economia contemporânea.

As cadeias industriais tornaram-se tão integradas que determinadas medidas comerciais acabam produzindo impactos simultâneos sobre importadores e exportadores.

O Brasil amplia estratégia de diversificação

A reação do governo brasileiro combina dois movimentos.

No plano jurídico, o país pretende utilizar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade e retomar o tema no sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.

No plano econômico, a estratégia concentra-se na diversificação de mercados, ampliando acordos comerciais e reduzindo a dependência de um único parceiro.

Nesse contexto, negociações envolvendo Mercosul-União Europeia, Associação Europeia de Livre Comércio e países asiáticos passam a ganhar importância ainda maior para a indústria brasileira.

Quanto maior a diversificação das exportações, menor tende a ser a vulnerabilidade diante de medidas unilaterais.

O desafio passa a ser agregar mais valor

O episódio também reforça um debate recorrente na política industrial brasileira.

Os produtos preservados pela tarifa pertencem, em grande parte, às primeiras etapas das cadeias produtivas.

Já os segmentos atingidos concentram justamente maior intensidade tecnológica.

Isso evidencia um desafio estratégico.

O Brasil continuará competitivo na produção de matérias-primas, mas precisará fortalecer sua capacidade de produzir bens industriais de maior valor agregado capazes de competir em diferentes mercados internacionais.

Máquinas, equipamentos, metalurgia avançada, bens de capital e manufatura especializada passam a ocupar posição ainda mais relevante dentro dessa estratégia.

Perspectivas

O novo tarifaço americano vai além de uma disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos.

Ele confirma que a política industrial voltou ao centro das relações econômicas internacionais e que cadeias produtivas estratégicas passaram a orientar decisões comerciais antes definidas apenas por critérios tarifários.

Para a indústria brasileira, a preservação de produtos como ferro-gusa demonstra que o país continua ocupando posição relevante no fornecimento de insumos industriais globais. Ao mesmo tempo, a taxação de máquinas, equipamentos e produtos metalúrgicos reforça a necessidade de ampliar competitividade justamente nos segmentos de maior valor agregado.

Mais do que responder às novas tarifas, o desafio passa a ser consolidar uma indústria capaz de transformar aço, minério e conhecimento em produtos industriais sofisticados. A disputa comercial evidencia que a vantagem competitiva do futuro dependerá menos da exportação de matérias-primas e cada vez mais da capacidade de desenvolver cadeias industriais completas, resilientes e tecnologicamente avançadas.

 
Fonte: Infomet
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 16/07/2026

Preços do aço iniciam julho estáveis, mas importações e estoques podem alterar trajetória no segundo semestre

Os preços dos aços comercializados no mercado spot brasileiro mantêm um cenário de estabilidade neste início de julho. As variações apuradas até o momento são pouco expressivas e indicam acomodação tanto entre os aços planos quanto nos produtos longos e na sucata ferrosa.

Apesar da baixa volatilidade observada nos índices, o mercado permanece atento a fatores que poderão mudar essa trajetória ao longo do mês e durante o segundo semestre. Entre eles estão o volume de aço importado, os níveis de estoques da distribuição, a demanda da indústria e da construção civil, o câmbio e a possibilidade de novos reajustes anunciados pelas siderúrgicas.

Aços planos apresentam pequenas quedas

Entre os aços planos, o Índice do Aço Laminado a Quente, também conhecido como BQ, registra queda de 0,14% em julho na comparação com junho. O indicador passou de 364,55 para 364,05 pontos.

O Índice do Aço Laminado a Frio, ou BF, apresenta recuo um pouco maior, de 0,20%, passando de 353,7 para 353 pontos.

Já o Índice da Chapa Grossa permaneceu estável, sem alteração entre junho e julho.

As variações inferiores a 0,2% indicam que, por enquanto, não há um movimento generalizado de redução dos preços dos aços planos. O comportamento é mais próximo de uma acomodação ou estabilidade técnica do que de uma tendência consistente de queda.

Aços longos também permanecem acomodados

O cenário é semelhante no segmento de aços longos. Os índices da barra chata e do tubo industrial redondo não apresentaram variação na comparação mensal.

O vergalhão foi o produto com a maior redução percentual entre os itens acompanhados. Seu índice recuou 0,34%, de 368 para 366,75 pontos.

Embora seja a queda mais significativa entre os produtos analisados, o percentual continua relativamente baixo e ainda não caracteriza uma mudança expressiva na formação dos preços do segmento.

O comportamento do vergalhão deverá continuar relacionado principalmente ao ritmo da construção civil, ao nível de estoques dos distribuidores e à concorrência entre fornecedores no mercado spot.

Sucata tem leve valorização

Na direção oposta, o Índice da Sucata Ferrosa apresentou pequena alta de 0,10%, passando de 101,9 para 102 pontos.

A variação também é considerada limitada. No entanto, a sucata deve permanecer no radar do mercado, uma vez que alterações mais intensas no custo da matéria-prima podem afetar a produção das usinas semi-integradas e, posteriormente, os preços dos aços longos.

Mercado spot opera sem pressão definida

Os dados mostram um mercado sem uma direção clara de preços neste começo de julho. Dos sete produtos analisados, três permaneceram estáveis, três registraram pequenas quedas e apenas a sucata apresentou leve alta.

Esse quadro reforça a percepção de estabilidade no mercado spot. Compradores não demonstram, até o momento, disposição para formar estoques de maneira agressiva, enquanto distribuidores e fornecedores procuram preservar volumes e margens em um ambiente de demanda moderada.

A estabilidade, entretanto, não significa ausência de riscos de variação durante o restante do mês.

Importações são um dos principais fatores de pressão

O comportamento das importações continua sendo um dos elementos mais importantes para a definição dos preços internos.

Em abril, as importações brasileiras de aços planos somaram 166,6 mil toneladas, queda de 43,2% em relação ao mesmo mês do ano anterior, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço, o INDA. No acumulado dos quatro primeiros meses do ano, porém, a redução foi de apenas 1,9%, para 1,07 milhão de toneladas.

O presidente do INDA, Carlos Loureiro, avalia que uma redução mais consistente da entrada de material estrangeiro pode criar condições para novos reajustes das siderúrgicas nacionais. A lógica é que uma oferta menor de produtos importados reduz a pressão competitiva sobre as usinas brasileiras e abre espaço para recuperação das margens.

Por outro lado, caso as importações voltem a crescer ou os produtos estrangeiros continuem chegando ao Brasil com preços competitivos, a capacidade das usinas de transferir aumentos ao mercado poderá ser limitada.

As importações foram um dos principais fatores de pressão sobre os preços e sobre o desempenho da distribuição nos últimos anos. Em 2025, as compras brasileiras de aços planos no exterior cresceram 24,1%, alcançando 3,33 milhões de toneladas.

Estoques ainda podem limitar reajustes

Outro ponto de atenção é o nível dos estoques existentes na cadeia.

Mesmo com a diminuição recente das importações, estoques elevados nos distribuidores, consumidores e portos podem retardar uma recuperação mais forte dos preços. Enquanto houver material disponível adquirido anteriormente, compradores tendem a resistir a novas tabelas e a negociar descontos no mercado spot.

Em maio, o INDA afirmou que os estoques da distribuição ainda permaneciam altos, apesar da queda das importações registrada em abril.

Esse fator ajuda a explicar por que uma eventual tentativa de reajuste das usinas não necessariamente aparece de forma imediata nos índices de preços. Entre o anúncio de um aumento e sua efetiva aplicação, há negociações, consumo dos estoques antigos e diferentes condições comerciais oferecidas a cada cliente.

Demanda deve determinar sustentação dos preços

A demanda doméstica também será decisiva para o comportamento dos preços ao longo do segundo semestre.

No início de 2026, o INDA projetou crescimento de apenas 1,5% nas vendas de aços planos pela distribuição, o que representaria o terceiro ano consecutivo de expansão limitada. A entidade esperava um desempenho mais favorável no segundo semestre do que na primeira metade do ano.

O cenário de juros elevados continua restringindo investimentos, compras de bens duráveis e novos projetos industriais. Ao mesmo tempo, segmentos como construção, máquinas, equipamentos, energia, infraestrutura e indústria automotiva podem gerar maior consumo caso apresentem aceleração nos próximos meses.

Para que eventuais reajustes se sustentem, será necessário que a procura acompanhe a redução da oferta importada. Sem uma recuperação do consumo, aumentos anunciados pelas siderúrgicas poderão ser parcialmente absorvidos por descontos e negociações comerciais.

Câmbio e custos também entram na conta

Além das importações e da demanda, o câmbio pode provocar mudanças nos preços.

Uma valorização do dólar encarece o aço estrangeiro e torna a produção nacional relativamente mais competitiva. Esse movimento tende a favorecer reajustes internos. Já um real mais valorizado reduz o custo de importação e pode aumentar novamente a concorrência com produtos provenientes da China e de outros mercados asiáticos.

Custos de matérias-primas como minério de ferro, carvão metalúrgico, energia e sucata também influenciam as decisões das usinas, embora seus efeitos nem sempre sejam repassados de maneira imediata ao consumidor.

Perspectiva para julho

Com base nos índices apurados até agora, o cenário predominante para julho é de estabilidade, com pequenas oscilações negativas em determinados produtos.

Não há, neste momento, evidências de uma queda generalizada dos preços dos aços no mercado brasileiro. Também ainda não aparece nos indicadores uma recuperação ampla capaz de sustentar aumentos expressivos.

A tendência poderá mudar caso haja uma redução mais intensa das importações, queda dos estoques e melhora da demanda. Nesse cenário, as siderúrgicas nacionais poderão encontrar condições mais favoráveis para tentar novas recomposições de preços.

Por outro lado, a permanência de estoques elevados, o consumo moderado e a concorrência entre distribuidores podem manter o mercado spot acomodado e dificultar o repasse integral de eventuais reajustes.

Assim, julho começa marcado pela estabilidade, mas com um equilíbrio ainda sensível. Pequenas alterações na oferta importada, no câmbio ou no ritmo dos pedidos poderão determinar se os preços encerrarão o mês praticamente inalterados ou se iniciarão um movimento mais claro de alta ou de baixa.

 
 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 15/07/2026

 

Nova indústria do aço separa vencedores e empresas sob pressão

Durante muitos anos, acompanhar a indústria siderúrgica brasileira era relativamente simples. Quando a China crescia, o minério valorizava e o aço acompanhava. Em momentos de desaceleração global, praticamente todas as empresas do setor sofriam em conjunto.

Essa lógica começa a ficar para trás.

O mercado passou a olhar as siderúrgicas brasileiras de forma muito mais segmentada. Em vez de analisar o setor como um bloco homogêneo, investidores passaram a avaliar quais cadeias produtivas sustentam cada empresa, quais mercados concentram suas receitas e quais fatores estruturais podem garantir maior resiliência em um ambiente econômico internacional cada vez mais complexo.

As revisões recentes promovidas por bancos como Citi, XP e Bradesco BBI refletem exatamente essa mudança. Enquanto a Gerdau recebe revisões positivas apoiadas pelo mercado americano e pela recuperação das margens no Brasil, a Usiminas enfrenta perspectivas mais cautelosas diante da desaceleração do mercado doméstico de aços planos. Já a CSN continua convivendo com desafios ligados à alavancagem financeira, enquanto a CSN Mineração sofre impactos temporários provocados pelo aumento do frete marítimo, apesar de manter forte desempenho operacional.

Mais do que mudanças de recomendação para investidores, essas análises revelam uma transformação estrutural da própria indústria siderúrgica.

A siderurgia deixou de responder a um único ciclo

Até poucos anos atrás, minério de ferro e China eram praticamente sinônimos do desempenho do setor.

Hoje, cada empresa passou a responder a vetores econômicos distintos.

Essa mudança acompanha a reorganização da economia mundial, marcada por políticas industriais, disputas geoeconômicas, investimentos em infraestrutura e regionalização das cadeias produtivas.

Na prática, a siderurgia brasileira deixou de depender exclusivamente da demanda chinesa para construir diferentes trajetórias de crescimento.

Gerdau fortalece posição apoiada na infraestrutura

É justamente essa diversificação que explica a melhora das perspectivas para a Gerdau.

Analistas passaram a enxergar um cenário mais favorável para a companhia em razão da combinação entre fortalecimento das operações brasileiras e desempenho consistente da América do Norte.

Nos Estados Unidos, os preços do aço continuam elevados, sustentados pela demanda industrial, pelos investimentos em infraestrutura e por um ambiente regulatório considerado mais previsível. Esse cenário beneficia diretamente as operações da empresa, que possui forte presença naquele mercado.

No Brasil, a expectativa também melhorou.

O Citi revisou para cima suas projeções de rentabilidade diante da recuperação das margens, da maior participação de aços especiais, dos ganhos operacionais nas mini mills e da melhoria do mix de produtos.

Na prática, a empresa passou a combinar dois fatores importantes: exposição a um mercado internacional aquecido e maior eficiência operacional na produção doméstica.

Essa combinação reduz sua dependência das oscilações típicas do mercado de minério.

Usiminas enfrenta outro ambiente

A realidade da Usiminas é diferente.

Sua operação permanece fortemente ligada ao mercado brasileiro de aços planos, segmento diretamente conectado às indústrias automotiva, de eletrodomésticos, construção metálica e bens de capital.

Embora tenha apresentado forte valorização das ações durante o primeiro semestre, impulsionada pelas medidas antidumping adotadas pelo governo brasileiro e pelos resultados financeiros positivos, analistas passaram a enxergar maior dificuldade para o restante do ano.

A expectativa é de redução da capacidade de repasse de preços justamente em um momento de aumento dos custos com placas de aço e carvão metalúrgico.

Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com o aumento das importações indiretas de produtos siderúrgicos, fator que tende a pressionar o mercado doméstico.

Nesse contexto, parte do mercado considera que o segundo trimestre pode representar o melhor momento operacional da companhia em 2026, tornando o segundo semestre mais desafiador.

CSN continua pressionada pela estrutura financeira

Enquanto Gerdau e Usiminas enfrentam desafios essencialmente operacionais, a CSN convive com uma característica própria.

Seu principal desafio permanece sendo a estrutura de capital.

Mesmo quando determinados segmentos apresentam melhora operacional, o elevado endividamento continua consumindo parcela significativa da geração de caixa por meio das despesas financeiras.

Essa situação limita a capacidade de transformar recuperação operacional em crescimento consistente dos resultados líquidos.

Além disso, a companhia combina negócios muito diferentes dentro de uma mesma estrutura corporativa.

Siderurgia, mineração, cimento, logística e energia convivem sob uma única administração, tornando o desempenho mais sensível a diferentes ciclos econômicos.

Mineração segue outra lógica

A situação da CSN Mineração mostra que nem mesmo empresas pertencentes ao mesmo grupo respondem aos mesmos fatores.

A expectativa para o segundo trimestre é de crescimento expressivo dos embarques de minério de ferro.

Entretanto, a forte elevação do frete marítimo entre Brasil e China deverá reduzir significativamente as margens operacionais.

O caso ilustra uma característica importante da mineração.

Nem sempre maior produção significa maior rentabilidade.

Quando o custo logístico sobe, parte do ganho operacional acaba sendo absorvida pelo transporte internacional.

Essa dinâmica reforça o peso crescente da logística como elemento estratégico da competitividade mineral brasileira.

O mercado doméstico ganha importância

Outro aspecto relevante dessa nova configuração é o fortalecimento gradual da demanda interna por aço.

Nos últimos meses, diferentes investimentos industriais começaram a alterar esse cenário.

Projetos ligados ao Complexo do Pecém, expansão da indústria de máquinas, retomada parcial da construção naval, crescimento da infraestrutura logística, data centers e energia renovável ampliam o consumo doméstico de produtos siderúrgicos de maior valor agregado.

Essa mudança reduz parcialmente a dependência da exportação de placas e amplia a importância da transformação industrial dentro do país.

Quanto maior o processamento interno do aço, maior tende a ser o efeito multiplicador sobre a economia.

A política industrial volta ao centro da discussão

Essa nova fase da siderurgia também recoloca a política industrial no centro das decisões empresariais.

Medidas antidumping, programas de infraestrutura, investimentos em transição energética e fortalecimento da indústria de transformação passam a influenciar diretamente a competitividade das empresas.

O desempenho das siderúrgicas deixa de depender apenas da cotação internacional do minério.

Passa a refletir também a capacidade do país de construir demanda industrial consistente.

Isso explica por que empresas mais expostas à infraestrutura e à transformação industrial apresentam perspectivas diferentes daquelas mais dependentes exclusivamente do mercado internacional de commodities.

O investidor também mudou a forma de olhar o setor

A consequência aparece claramente nas análises do mercado financeiro.

Os bancos deixaram de emitir recomendações baseadas apenas na direção do setor.

Hoje, cada empresa é avaliada pela qualidade de seus ativos, pela exposição geográfica, pela estrutura financeira, pelo perfil de clientes e pela capacidade de gerar valor em diferentes ciclos econômicos.

Em outras palavras, a siderurgia brasileira deixou de possuir um único comportamento.

Passou a reunir diferentes modelos de negócios convivendo dentro do mesmo setor.

Perspectivas

A indústria siderúrgica brasileira entra em uma nova etapa de sua evolução.

A antiga dependência quase exclusiva da demanda chinesa começa a dividir espaço com fatores como infraestrutura, transformação industrial, defesa comercial, eficiência operacional e presença internacional.

Nesse novo ambiente, empresas capazes de combinar diversificação geográfica, produtos de maior valor agregado e maior integração às cadeias industriais tendem a apresentar desempenho diferente daquelas mais concentradas em segmentos específicos ou pressionadas por estruturas financeiras mais pesadas.

Para a economia real, essa transformação é ainda mais relevante do que para o mercado financeiro.

Ela indica que a competitividade da siderurgia brasileira passa a depender menos dos ciclos globais de commodities e cada vez mais da capacidade do país de fortalecer sua própria indústria de transformação. Se essa trajetória se consolidar, o aço deixará de ser apenas um produto exportado e passará a ocupar papel cada vez mais estratégico na nova industrialização brasileira, sustentando cadeias como máquinas, infraestrutura, energia, construção e mobilidade.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 14/07/2026

 

Siderurgia brasileira encontra novo equilíbrio entre China, EUA e mercado interno

Durante mais de duas décadas, a indústria siderúrgica mundial foi guiada por uma única variável: a China. O crescimento acelerado da construção civil, da infraestrutura e da indústria chinesa transformou o país no principal consumidor de aço e minério de ferro do planeta, influenciando preços, investimentos e estratégias de empresas em todos os continentes.

Esse cenário, entretanto, começa a mudar.

O relatório setorial de julho do BB Investimentos mostra que a siderurgia mundial passou a operar sob uma lógica mais fragmentada. Enquanto a economia chinesa dá sinais de estabilização, mas continua convivendo com demanda fraca e elevados estoques de aço, os Estados Unidos mantêm um mercado aquecido para produtos siderúrgicos, sustentando preços elevados. Ao mesmo tempo, o Brasil começa a construir um ambiente próprio, baseado na recuperação gradual do consumo interno, na redução das importações de aço e no fortalecimento de projetos industriais ligados à infraestrutura, energia e transformação metalúrgica.

Essa mudança representa mais do que uma oscilação conjuntural do mercado internacional. Ela sinaliza uma redistribuição dos vetores que passam a orientar a indústria siderúrgica global e abre espaço para que o Brasil fortaleça sua própria cadeia de valor.

A China continua gigante, mas deixou de puxar o mercado

Os indicadores mais recentes mostram que a economia chinesa segue crescendo, porém em ritmo insuficiente para reproduzir o ciclo de expansão que caracterizou as últimas duas décadas.

O PMI industrial voltou a ficar ligeiramente acima da linha de expansão e a produção industrial registrou crescimento anual de 4,5% em junho. Ainda assim, a produção e o consumo de aço continuam desacelerando na comparação anual, enquanto os estoques permanecem elevados. Como consequência, os preços do aço voltaram a recuar no mercado chinês, refletindo um ambiente de demanda ainda enfraquecida.

Essa combinação altera profundamente a dinâmica da siderurgia mundial.

Durante anos, qualquer recuperação da economia chinesa significava aumento imediato dos preços do minério e do aço. Hoje, a resposta é muito mais moderada.

Na prática, a China continua sendo o maior mercado do planeta, mas deixou de exercer sozinha o papel de locomotiva da indústria siderúrgica global.

Os Estados Unidos assumem protagonismo no mercado de aço

Se a China representa cautela, o mercado americano apresenta uma realidade oposta.

Segundo o relatório, as cotações da bobina laminada a quente nos Estados Unidos acumulam valorização superior a 30% nos últimos doze meses, sustentadas por uma demanda industrial consistente e por uma produção doméstica que continua em expansão. A produção de aço aumentou 8,5% em relação ao ano anterior, enquanto as importações cresceram mais de 11%, refletindo uma indústria que continua consumindo grandes volumes de aço apesar das medidas tarifárias adotadas pelo governo americano.

Esse comportamento cria um novo polo de sustentação para os preços internacionais.

Ao contrário da China, onde a preocupação está na absorção do excesso de capacidade produtiva, os Estados Unidos convivem com um ambiente de maior demanda por investimentos em infraestrutura, manufatura e energia.

Para siderúrgicas brasileiras, esse cenário amplia oportunidades em produtos de maior valor agregado e fortalece segmentos voltados ao mercado norte-americano.

O Brasil começa a construir sua própria dinâmica

O aspecto mais relevante do relatório, porém, está no comportamento do mercado brasileiro.

Enquanto o cenário internacional permanece dividido entre a desaceleração chinesa e a força americana, a siderurgia nacional apresenta sinais de estabilização.

A produção de aço bruto e de laminados manteve desempenho relativamente estável, o consumo doméstico continua resiliente e, sobretudo, as importações voltaram a cair de forma consistente. Em maio, o volume importado atingiu o menor nível desde setembro de 2022, representando cerca de 15% do consumo aparente, percentual significativamente inferior à média observada nos últimos três anos.

Segundo o BB Investimentos, essa redução decorre de dois fatores principais: a diminuição do excedente exportável da China e o fortalecimento das medidas brasileiras de defesa comercial contra produtos siderúrgicos importados.

O resultado é um ambiente mais favorável para a indústria instalada no país.

O mercado interno passa a ganhar importância

Nos últimos meses, diversos anúncios industriais apontam para uma mudança estrutural no consumo brasileiro de aço.

Projetos ligados à infraestrutura logística, construção pesada, indústria naval, fabricação de máquinas, energia renovável e transformação metalúrgica começam a ampliar a demanda doméstica por produtos siderúrgicos.

A decisão da ArcelorMittal de estudar a implantação de uma linha de bobinas laminadas a quente no Complexo do Pecém é um exemplo dessa tendência. Ao transformar placas em bobinas dentro do próprio Ceará, a empresa amplia o valor agregado da produção nacional e cria condições para atrair fabricantes de implementos rodoviários, tubos, estruturas metálicas, equipamentos industriais e componentes automotivos.

Ao mesmo tempo, a retomada da indústria naval em Niterói, os investimentos em infraestrutura rodoviária e ferroviária e a expansão da indústria de máquinas fortalecem uma demanda que deixa de depender exclusivamente da construção civil.

Pela primeira vez em muitos anos, o mercado doméstico passa a exercer papel mais relevante na estratégia das siderúrgicas brasileiras.

O paradoxo do minério brasileiro

Enquanto o aço encontra maior sustentação interna, a mineração continua fortemente dependente da demanda asiática.

As exportações brasileiras de minério de ferro atingiram em junho um recorde histórico de 42,2 milhões de toneladas. Desse total, mais de 75% tiveram como destino a China, que registrou também volume recorde de compras do minério brasileiro.

O desempenho evidencia um aparente paradoxo.

Mesmo com a economia chinesa crescendo menos e os preços internacionais recuando para níveis próximos de US$ 100 por tonelada, o Brasil continua ampliando embarques para aquele mercado.

Isso demonstra que o país permanece altamente competitivo na produção mineral, mas também reforça uma questão estratégica: exportar volumes crescentes de minério não necessariamente significa capturar maior valor econômico.

É justamente aí que a siderurgia ganha importância.

Agregar valor passa a ser prioridade

O debate sobre política industrial brasileira vem deixando de focar exclusivamente na produção de commodities para enfatizar a transformação industrial.

Em vez de exportar apenas minério ou placas de aço, cresce o interesse em ampliar a fabricação de laminados, chapas especiais, tubos, estruturas metálicas e componentes industriais.

Cada etapa adicional de transformação incorpora engenharia, tecnologia, serviços e empregos de maior qualificação.

Esse movimento dialoga diretamente com a expansão recente da indústria de máquinas, da construção pesada, da infraestrutura logística e dos projetos de transição energética.

Quanto maior a capacidade de transformar minério em produtos industriais, maior tende a ser o efeito multiplicador sobre a economia.

O novo mapa da siderurgia

A leitura do relatório mostra que a siderurgia mundial entra em uma fase mais complexa.

Não existe mais um único motor determinando o comportamento do mercado.

A China continua relevante, mas perdeu parte da capacidade de impulsionar sozinha os preços globais.

Os Estados Unidos sustentam um ciclo positivo para produtos siderúrgicos de maior valor agregado.

O Brasil, por sua vez, passa a construir uma trajetória própria, apoiada na recuperação gradual do mercado interno, na redução das importações e na expansão de cadeias industriais consumidoras de aço.

Essa diversificação reduz parcialmente a dependência do setor em relação aos ciclos internacionais.

Perspectivas

A siderurgia brasileira entra no segundo semestre diante de um cenário desafiador, mas também repleto de oportunidades.

Os fundamentos internacionais continuam pressionados pela desaceleração chinesa, enquanto o minério de ferro enfrenta preços mais baixos e elevada volatilidade. Ao mesmo tempo, a demanda americana permanece robusta e cria um ambiente favorável para produtos siderúrgicos de maior valor agregado.

No mercado doméstico, o avanço de projetos industriais, de infraestrutura e de transformação metalúrgica começa a modificar o perfil da demanda.

Mais do que produzir aço, o desafio da indústria brasileira será ampliar sua capacidade de transformar minério em produtos de maior complexidade tecnológica.

Se essa trajetória for consolidada, o país poderá reduzir parte da dependência histórica da exportação de commodities minerais e fortalecer uma siderurgia mais integrada à indústria nacional. Nesse novo cenário, a competitividade deixará de ser medida apenas pelo volume embarcado de minério e passará a depender, cada vez mais, da capacidade de agregar valor dentro das próprias fronteiras brasileiras — movimento que pode definir uma nova etapa da industrialização baseada na economia real.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 13/07/2026

 

Entidades brasileiras alertam sobre impacto de tarifa nos Estados Unidos e ameaça chinesa

O aumento das exportações brasileiras para a China em decorrência das possíveis novas taxas americanas foi um dos alertas levados por representantes empresariais brasileiros no segundo dia de audiências no Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês).

“Trouxemos esse argumento de que taxar o Brasil para máquinas e equipamentos possibilitaria que o país fosse deslocado e que quem pode ocupar [espaço] é a China. Outros setores também trouxeram esse argumento. Para alguns, apenas a China pode substituir, mas em outros, Índia e Coreia do Sul, por exemplo, também poderiam”, disse Patrícia Gomes, diretora-executiva de mercado externo da Abimaq, entidade que representa os fabricantes e esteve na audiência que tratou da recomendação feita em junho pela USTR de imposição de alíquota de 25% sobre parte das mercadorias importadas do Brasil por práticas comerciais que a administração americana considera “desleais”.

Segundo a Abimaq, questionamentos levantados incluíram se havia produção doméstica nos EUA do material exportado pela indústria brasileira e se ela era suficiente para atender a demanda americana. “Mas falamos da dificuldade de se substituir esse tipo de fornecimento de máquinas que fazemos, já que se tratam de produtos customizados feitos sob demanda e que atendem certificações extremamente rigorosas que são difíceis de serem obtidas.”

Para a indústria de calçados, ter o Brasil como fornecedor diversifica os embarques para os EUA com uma fonte de abastecimento ocidental “confiável”. Segundo a Abicalçados, entidade que representa o segmento, os EUA consomem mais de 2 bilhões de pares de calçados por ano e produz aproximadamente 20 milhões de pares, ou seja, cerca de 1% do consumo doméstico. Atualmente, a oferta para os americanos é liderada pela China, com 48% do total em termos de volume, segundo a entidade.

Tarifa adicional “tenderia a aumentar custos, reduzir a diversidade de fornecimento e reforçar a concentração das fontes de abastecimento dos EUA em origens já dominantes, indo na contramão dos interesses americanos em diversificação”, afirmou, em comunicado, Letícia Sperb Masselli, gerente de relacionamento e negócios da Abicalçados, que participou da audiência.

Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil e sócio do escritório Barral Parente Pinheiro disse que a audiência foi “bastante formal”. “O tema foi concentrado em documentos, em dados e em confirmação de dados, então bem mais técnica”, disse. O escritório do qual ele é sócio representou entidades como a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) nas discussões.

A Abimaq usou como argumento o fato de 82% das exportações do setor brasileiro de máquinas e equipamentos terem sido feitas entre empresas do mesmo grupo econômico em 2024, ou seja, aquelas que têm sede no Brasil e subsidiária nos EUA, ou vice-versa. Para a entidade, a taxação afetaria brasileiras que estão investindo em território americano e americanas investindo no Brasil. “Esse tipo de comércio complementa a produção americana”, afirmou Gomes.

Ela disse que o superávit comercial de US$ 1,2 bilhão dos EUA com o Brasil na balança comercial de máquinas e equipamentos do Brasil também foi mencionado.

Já a Abicalçados afirmou que “as explanações foram todas favoráveis ao Brasil, apontando, sobretudo, o impacto tarifário no país, que não possui produção significativa de calçados”, disse Sperb.

Outra fonte que participou da reunião disse acreditar que, com base na audiência, o governo americano deve apenas corrigir dados apontados pela indústria. “Claramente, o USTR basicamente vai corrigir algumas coisas que apontamos, mas a conclusão geral, provavelmente, vai ser a mesma [de impor tarifa], não sei se de 25%. Na verdade, o que depende agora é da negociação do governo brasileiro, porque a decisão final é do Trump”, afirmou.

No painel voltado ao café, o Cecafé, a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) e a National Coffee Association (NCA), dos Estados Unidos, defenderam manter a isenção da tarifa de 25% sobre os cafés verde, torrado e moído e estender o benefício ao café solúvel.


"Explanações foram todas favoráveis ao Brasil, apontando, sobretudo, o impacto tarifário no país”
— Letícia Sperb

A Abics defendeu em sua apresentação que o produto é fundamental para diversos setores da economia americana, incluindo bebidas prontas para consumo, produtos de panificação, confeitaria, laticínios e serviços de alimentação institucional. A entidade citou estudos que apontam crescimento anual de 5,6% entre 2025 e 2030 no mercado americano de café pronto para consumo.

A Abics salientou a necessidade de garantir abastecimento estável e acessível de café solúvel. Segundo a associação, o Brasil responde por 22% das importações americanas de café solúvel. A tarifa adicional de 25% pressionaria as margens das empresas e a inflação no país, diz a entidade.

“México e Brasil respondem por quase 60% do total das importações, sendo que os preços mexicanos são cerca de 1,5 vez mais alto que os brasileiros”, afirmou Fabio Sato, diretor de relações institucionais da Abics e que participou da audiência.

O setor exportador de mel também participou das audiências na segunda-feira. O Brasil exporta em torno de 40 mil toneladas de mel orgânico por ano para os Estados Unidos, que não tem produção local dessa categoria de mel. O setor já está sujeito a uma taxa de importação de 12,5% e, com a sobretaxa de 25% proposta pela administração Trump, a taxação chega a 37,5%.

“O Brasil atende 75% da demanda, é o principal fornecedor de mel orgânico para os EUA”, disse João Marcelo Messas, diretor da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel). A Abemel estima que cada dólar de mel orgânico importado se transforma em US$ 5,50 em negócios para a economia americana.

Messas disse estar otimista com o andamento da investigação pelo USTR. “Cumprimos os prazos, respondemos os questionamentos de forma muito esclarecedora, que foi muito bem recebida pelo comitê que avaliou a gente”, afirmou.

Ele acrescentou que, além de ter o apoio durante a audiência do setor exportador brasileiro, empresas que estão sendo impactadas nos Estados Unidos também defenderam a isenção da tarifa de 25%. “Vejo com bons olhos tudo o que aconteceu, mas ainda sem garantia de que a gente vai ter uma definição a nosso favor.”

A indústria do arroz também participou do primeiro dia de audiências. Andressa Silva, diretora-executiva da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), disse que o ambiente na audiência foi receptivo.

“Falamos sobre os potenciais impactos sobre pequenas e médias empresas americanas que atendem ao nicho de comunidade latina, bem como toda a cadeia de valor envolvida de logística, transporte, armazenagem e o potencial aumento de custo para o consumidor americano.”

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que foi representada por Fernanda Maciel Carneiro, rebateu que o desmatamento ilegal está concentrado em uma área isolada e não representa a agropecuária brasileira. A CNA apresentou dados indicando que o desmatamento na Amazônia Legal reduziu 56% entre 2011 e 2025.

No segmento de biocombustíveis, o governo americano acusa o Brasil de prejudicar o comércio de etanol com aplicação de tarifas. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) alegou que a tarifa brasileira sobre o etanol importado segue a regra de Nação Mais Favorecida da OMC e que não se trata de uma retaliação aos EUA.

A União Nacional do Etanol de Milho (Unem), por sua vez, defendeu que o etanol americano perdeu espaço no Brasil por causa do câmbio, dos custos logísticos e da expansão acelerada da indústria de etanol de milho no mercado doméstico.

O USTR tem até o dia 15 para tomar a sua decisão final.

 

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 08/07/2026

 

335 empresas se manifestam sobre tarifas de Trump a produtos brasileiros

Uma lista de 335 empresas e organizações brasileiras e norte-americanas se manifestaram formalmente sobre a medida do governo dos Estados Unidos de propor uma tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros, anunciada em julho deste ano, com base na seção 301.

Outras 30 manifestações de pessoas físicas foram registradas, como a do senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL). (Veja uma lista mais abaixo).

O Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês) abriu um espaço em seu portal para receber comentários sobre a medida e o prazo para envio das manifestações terminou em 1º de julho. A Seção 301 é um dispositivo legal que permite aos americanos impor tarifas coercitivas sobre mercadorias de países cujas atividades estariam supostamente prejudicando o setor comercial dos Estados Unidos.

Entre as empresas que se manifestaram estão gigantes de seus setores, como a Coca-Cola, eBay, Nestlé, Faber-Castell e Tesla. Além do posicionamento do governo brasileiro, diversas entidades setoriais do País também registraram posicionamento no portal do USTR, como a Confederação Nacional da Indústria (CNA) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

O governo Trump justificou a taxação em razão de "políticas e práticas relacionadas ao comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas preferenciais injustas; combate à corrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal".

As empresas contrárias à resolução alegam que este novo tarifaço pode trazer ônus a curto prazo nas cadeias de produção e, além disso, que a medida também prejudica os norte-americanos em detrimento dos investigados. Pode-se dizer que boa parte das manifestações registradas são contrárias à medida, visto que a maioria são de empresas brasileiras e americanas apontando pontos desfavoráveis para sua atividade específica.

Veja 30 empresas que se manifestaram:

Archer Daniels Midland (ADM) - agronegócio
Bauducco Foods Inc. - alimentos
Becton, Dickinson and Company - tecnologia médica
Builders FirstSourc - materiais de construção
Caterpillar Inc. - máquinas e equipamentos
Celanese Corporation - química
Cleveland-Cliffs Inc. - mineração e siderurgia
Coca-Cola Company - bebidas
Companhia Siderúrgica Nacional - siderurgia
Dow - química
Eastman Chemical Company - química
eBay - comércio eletrônico
Faber-Castell - papelaria e materiais de escrita
Incepa Revestimentos Cerâmicos Ltda. - materiais de construção
JBS S.A. - alimentos
Kimberly-Clark Corporation - higiene
Klabin S.A. - papel e celulose
Louis Dreyfus Company - agronegócio
Nestlé - alimentos
Nucor Corporation - siderurgia
Olin Winchesater, LLC - defesa e munições
Philip Morris - tabaco
Siemens Energy - energia
Steel Dynamics, Inc. - siderurgia
Suzano S.A. - papel e celulose
Sylvamo - papel e celulose
Taurus Holdings, Inc. - defesa e armas
Tesla, Inc. - indústria automotiva
Tramontina - bens de consumo
WEG Electric Corp. - máquinas e equipamentos
Veja 10 organizações ou entidades que se manifestaram:

Governo do Brasil
Câmara Americana de Comércio para o Brasil
Confederação Nacional da Indústria - principal entidade da indústria brasileira
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo - principal federação da indústria brasileira
Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil - principal entidade do agronegócio brasileiro
Indústria Brasileira de Árvores - principal entidade da indústria brasileira de árvores cultivadas, papel e celulose
Associação Brasileira da Indústria Química - principal entidade da indústria química brasileira
Associação Brasileira da Indústria de Alimentos - principal entidade da indústria brasileira de alimentos
União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia - principal entidade do setor sucroenergético brasileiro
Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos - principal entidade da indústria brasileira de máquinas e equipamentos
A lista completa pode ser encontrada no site do USTR.

 
Fonte: Correio Braziliense
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 08/07/2026