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Aço importado pressiona indústria brasileira e acende alerta para fraudes e perda de competitividade

A indústria siderúrgica brasileira atravessa um novo ciclo de tensão, marcado pela combinação de concorrência predatória, demanda interna fraca e relatos crescentes de fraudes em importações. Embora os desembarques de aço no País tenham caído 17,9% entre julho e setembro de 2025, segundo o Instituto Aço Brasil (IABr), o impacto da entrada de material estrangeiro — especialmente de origem chinesa — continua comprometendo os resultados das principais empresas do setor.

Os balanços trimestrais de Usiminas, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e Gerdau mostram um quadro heterogêneo, mas com tendência comum: margens apertadas e necessidade de reposicionamento estratégico. A Usiminas registrou queda de 7% nas vendas domésticas e receita 1,3% menor que a do mesmo período de 2024. A CSN teve retração de quase 10% no mercado interno e desempenho 12,4% pior na siderurgia. A Gerdau, menos exposta ao aço plano — principal alvo das importações — conseguiu expandir as vendas internas em 3,6% e as exportações em mais de 29%.

Segundo Virgílio Lage, da Valor Investimentos, o fluxo de aço importado “comprimiu preços e margens” das operações locais. A dificuldade é agravada por fatores externos, como o tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos sobre o aço brasileiro, que redirecionou parte das exportações nacionais a novos mercados. Ainda assim, analistas apontam que o problema central permanece dentro de casa: um mercado que premia o menor preço, mesmo à custa da qualidade.

Fraudes e aço “fantasma”

Nos bastidores do comércio de aço, cresce a preocupação com a entrada de produtos estrangeiros supostamente falsificados ou com qualidade adulterada. Relatos colhidos entre importadores e distribuidores indicam a chegada de bobinas galvanizadas e Galvalume — amplamente usadas na construção civil — com revestimentos e composições químicas diferentes das declaradas.

Uma das práticas mais citadas é o chamado “head and tail”, em que apenas o início e o fim da bobina têm a camada de zinco informada no rótulo, enquanto o miolo apresenta qualidade inferior. Há também casos de sobreposição de etiquetas, adulteração de certificados de qualidade e manipulação de composição química para alterar a classificação fiscal do produto, reduzindo tarifas de importação.

De acordo com um distribuidor ouvido pelo setor, cerca de 80% do aço Galvalume importado poderia ter algum tipo de irregularidade. “O mercado virou tóxico. Os materiais falsificados são vendidos até US$ 200 por tonelada mais baratos. As empresas sérias não conseguem competir”, disse um importador.

As denúncias apontam que o problema não se restringe aos fornecedores asiáticos, mas também envolve compradores e distribuidores locais que conscientemente adquirem produtos fora de especificação. “Setenta por cento das vezes, é o comprador que pede material de baixa qualidade. Ele sabe o que está comprando”, afirmou um trader.

Fiscalização insuficiente e riscos à segurança

A ausência de fiscalização eficaz nos portos brasileiros e a falta de cultura de verificação entre os consumidores finais permitem que o material irregular circule livremente. “O consumidor pede o preço mais baixo e não mede a espessura do zinco. Só percebe o problema quando o telhado enferruja em dois anos”, relatou outro distribuidor.

Entidades e especialistas defendem a criação de mecanismos de controle semelhantes aos do Inmetro, que poderiam estabelecer padrões mínimos de qualidade — como a obrigatoriedade do revestimento AZ150 para o aço galvanizado. Propostas incluem campanhas de conscientização, uso de medidores simples de espessura, e exigência de certificações mais rigorosas para o desembarque de produtos siderúrgicos.

Cenário estrutural e histórico de desequilíbrios

A atual crise ecoa dilemas antigos. Há mais de uma década, o setor sofre com o chamado “Custo Brasil” — alta carga tributária, energia cara e baixo investimento —, que limita a competitividade frente aos grandes produtores internacionais. Em 2013, o então presidente do Sindisider, Carlos Loureiro, já alertava que o crescimento tímido da economia brasileira e o excesso de aço global estavam corroendo a rentabilidade das usinas nacionais.

Além da concorrência direta, o Brasil também enfrenta o problema do “aço contido”: a importação de bens manufaturados que incorporam aço estrangeiro, como máquinas e veículos, o que substitui a demanda por aço produzido internamente.

Perspectivas e medidas de defesa

Enquanto o governo avalia novas medidas antidumping — que podem abranger produtos galvanizados e pré-pintados —, empresas como a CSN enxergam oportunidade para recuperar participação no mercado interno. A companhia celebrou recentemente a aprovação de tarifas permanentes contra a importação de folhas-de-flandres chinesas, e defende que casos semelhantes sirvam de precedente para outras categorias.

Para analistas como Lucas Sharau, da iHUB Investimentos, o setor siderúrgico continua sendo uma aposta defensiva nos portfólios, mas exige atenção. “O investidor deve priorizar empresas com presença internacional ou cadeias integradas, que se sustentam melhor em momentos de pressão competitiva”, afirmou.

O consenso entre executivos e especialistas é que o Brasil precisa equilibrar a abertura comercial com políticas de defesa mais ágeis e controles técnicos mais robustos. Caso contrário, a siderurgia nacional — que já foi símbolo da industrialização brasileira — corre o risco de ver sua produção corroída não apenas pelo aço barato, mas pelo aço falsificado.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 11/11/2025

 

Mão de obra, um gargalo no Brasil

Nos corredores da Agritechnica 2025, maior feira de tecnologia agrícola do mundo que ocorre na Alemanha, o ruído alto de conversas permite identificar grupos de produtores brasileiros. Vindos de diferentes regiões, principalmente do Sul e do Centro-Oeste, eles observam tratores elétricos, híbridos e sistemas autônomos, além de muitos drones e implementos. Anotam detalhes e fotografam máquinas com olhos curiosos.

Mas, entre a empolgação, há consenso sobre os obstáculos que ainda enfrentam para implementar todas as novidades no Brasil. Uma das principais queixas é que falta mão de obra especializada em solo brasileiro para operar os sistemas.

Outra questão é a conectividade limitada. “O Brasil não fica atrás na tecnologia. Mas não temos gente para aplicar essas soluções de forma eficiente”, afirma Simone Junqueira Sangaleti, produtora de grãos em 4,5 mil hectares em Primavera do Leste (MT). Segundo ela, é comum que o profissional, depois de treinado para lidar com os equipamentos, mude de emprego. “Acabamos não usando toda a tecnologia de que dispomos.”

Maria Isabel Finger, agrônoma do Rio Grande do Sul, que está pela terceira vez na Agritechnica, acrescenta que “muitas ferramentas aqui não podem ser aplicadas a pleno no Brasil porque ainda falta conectividade em algumas regiões importantes do agronegócio”. Ela planta arroz irrigado, soja e trabalha com pecuária de corte.

Mas os visitantes brasileiros ouvidos pelo Valor reconhecem o valor de estar na feira: uma oportunidade de conhecer tendências globais, avaliar inovações e aprender como podem ser adaptadas ao Brasil, mesmo com limitações de infraestrutura.

“É a primeira vez que viemos à Alemanha, embora já tenhamos participado de feiras nos Estados Unidos três vezes”, conta Ozenan Dias, destacando a diferença em relação às feiras brasileiras. “Aqui é muito mais avançado, o ambiente, a organização, o que conseguimos observar. É algo que chama atenção até para quem já está acostumado com tecnologia no campo.”

O produtor tem 3,14 mil hectares em Costa Rica, em Mato Grosso do Sul, onde integra lavouras de soja, milho e milheto com pecuária extensiva e 460 hectares de reserva [mata].

 
Fonte: Globo Rural
Seção: Agro, Máquinas & Equipamentos
Publicação: 10/11/2025

 

Indústria de máquinas reage à Selic de 15%

Com a decisão do Banco Central de manter a Selic em 15% ao ano, o setor industrial reagiu com a sensação de que o Copom prolonga o aperto além do necessário. A decisão, embora esperada, reforçou a posição crítica dos industriais.

Entre fabricantes de máquinas e equipamentos, o diagnóstico é de que o juro alto já cumpre o papel de conter preços, mas começa a impor custos elevados à economia real: crédito escasso, investimentos adiados e menor dinamismo produtivo. No setor, prevalece a percepção de que manter os juros em 15% por período prolongado tende a comprometer a competitividade e a recuperação do emprego.

O Banco Central, por outro lado, sustenta que o cenário ainda exige cautela. O Copom voltou a citar riscos de inflação persistente, como a desancoragem das expectativas, a resiliência dos serviços e a influência de fatores externos, entre eles um câmbio mais depreciado.

A pressão monetária soma-se a outras frentes de preocupação. O setor de máquinas e equipamentos projeta queda de até US$ 300 milhões nas exportações de máquinas e equipamentos voltados ao mercado americano até o fim de 2025, diante de barreiras técnicas e tarifárias. O governo admitiu o risco e informou que mantém diálogo com as empresas.

 
Fonte: Estado de Minas
Seção: Agro, Máquinas & Equipamentos
Publicação: 07/11/2025

 

Mercado automotivo supera 2 milhões de emplacamentos e projeta reta final de ano com otimismo moderado

O mercado automotivo brasileiro ultrapassou a marca de 2 milhões de veículos emplacados até outubro e avança para a reta final do ano com sinais de estabilidade e confiança renovada. Segundo dados do Renavam compilados pela Fenabrave, foram licenciadas 2,171 milhões de unidades nos dez primeiros meses de 2025, resultado 2,2% superior ao mesmo período do ano passado.

Com pouco mais de 600 mil veículos faltando para alcançar a meta anual de 2,7 milhões de unidades, o setor mantém ritmo constante, impulsionado por crédito mais acessível e políticas públicas voltadas ao incentivo de consumo. “Observamos o crédito operando de forma mais funcional, o que tem ajudado a converter intenção em venda. E, também, um ambiente de políticas públicas que favorece eficiência e competitividade no tíquete de entrada, como o Programa Carro Sustentável”, destacou Arcelio Júnior, presidente da Fenabrave.

Apenas em outubro, foram registrados 260,7 mil veículos, um desempenho 7% maior que o de setembro, ainda que 1,5% abaixo de outubro do ano anterior. A média de vendas diárias ficou em 11,3 mil unidades, em 23 dias úteis — indicador considerado sólido para o período, especialmente em um contexto de juros elevados e cautela no consumo.

Automóveis sustentam crescimento, caminhões recuam

Entre os segmentos, os automóveis continuam puxando a curva de alta, com 1,6 milhão de unidades emplacadas até outubro — avanço de 2,5% sobre igual intervalo de 2024. Já o setor de caminhões segue em fase de ajuste, acumulando queda de 8%, com 92,3 mil unidades vendidas nos dez meses do ano.

Apesar da desaceleração em pesados, o balanço geral é positivo e confirma que a retomada gradual da confiança do consumidor e o leve reaquecimento da economia têm sustentado o movimento nas concessionárias.

Mercado de eletrificados estabiliza, mas segue em expansão

Os veículos eletrificados — híbridos e elétricos — mantiveram crescimento expressivo no acumulado do ano, ainda que tenham mostrado estabilidade no comparativo mensal. Em outubro, foram emplacados 19,8 mil híbridos e 7,9 mil elétricos puros, altas de 4% e queda de 1,6% sobre setembro, respectivamente.

Somados, os dois segmentos cresceram 2,3% no mês, desempenho inferior à média do mercado, mas o acumulado continua impressionante: 158 mil híbridos vendidos (+82%) e 61 mil elétricos (+17,8%) em dez meses.

Para Arcelio Júnior, o avanço mais consistente dos híbridos reflete a preferência do consumidor por modelos que combinam eficiência energética e autonomia. “À medida que a infraestrutura de recarga for sendo aprimorada, talvez observemos um aumento mais forte das vendas dos elétricos puros”, afirmou.

Entre as marcas que lideraram o segmento em outubro, BYD, GWM, Fiat e Toyota dominaram entre os híbridos, enquanto BYD, Volvo e General Motors ficaram no topo das vendas de elétricos.

SUVs e picapes seguem dominando o gosto do brasileiro

No ranking dos modelos mais vendidos do mês, o Volkswagen Tera surpreendeu e liderou entre os automóveis, com 10,2 mil unidades emplacadas, à frente de hatches tradicionais como o Fiat Argo, o Hyundai HB20 e o Volkswagen Polo.

A liderança geral, porém, permanece nas mãos da Fiat Strada, que vendeu 14 mil unidades em outubro e segue como o veículo mais emplacado do país pelo quarto ano consecutivo. O sucesso das picapes reforça o peso do agronegócio e do trabalho urbano leve no perfil de consumo nacional.

Os SUVs também tiveram desempenho expressivo: Hyundai Creta (6º), Volkswagen T-Cross (8º) e Honda HR-V (9º) garantiram quatro posições no Top 10 do mês, ao lado do Chevrolet Onix e da Volkswagen Saveiro. A presença equilibrada de diferentes categorias confirma a diversificação da demanda e o fortalecimento dos modelos de maior valor agregado.

Perspectiva positiva para o fim do ano

Com o crédito mais estável, maior previsibilidade nas políticas de incentivo e a chegada de novos lançamentos para o último bimestre, o setor projeta encerrar 2025 próximo das metas traçadas. Mesmo com oscilações pontuais, o sentimento predominante entre montadoras e concessionárias é de otimismo cauteloso — ancorado na percepção de que o mercado automotivo brasileiro volta a se equilibrar, com espaço tanto para os modelos tradicionais quanto para as novas tecnologias de propulsão.

Aos poucos, o país se aproxima de um ciclo de crescimento sustentável, em que o avanço nas vendas não depende apenas de incentivos pontuais, mas também da consolidação de uma base de consumo mais confiante e diversificada.

 
Fonte: Infomet
Seção: Automobilística & Autopeças
Publicação: 06/11/2025

 

Análise: Mudança sutil no tom do Copom reacende apostas em corte da Selic

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, a rigor, não prometeu nada nem deu qualquer sinal de quando poderá cortar os juros. Ainda assim, mudanças sutis no seu comunicado devem encorajar as apostas no mercado na queda dos juros.

Na sua mensagem central de política monetária, trocou uma palavra — vigilante — de lugar e mudou o tempo do verbo "avaliar", deixando mais claro que considera o nível atual de juros suficiente. Juntas, essas alterações tornam a mensagem menos simétrica, ou seja, apontam que o movimento mais provável dos juros no futuro é para baixo.

Isso se junta ao reconhecimento de progressos na queda da inflação subjacente e também a uma pequena melhoria na projeção de inflação para o horizonte relevante de política monetária. Ambos são insuficientes, mas a situação está melhor do que a descrita em setembro.

Primeiro, vamos olhar em detalhes a mensagem central de política monetária. O Copom dizia, em setembro: “O Comitê seguirá vigilante, avaliando se a manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta”, afirmou o comunicado.

Naquela ocasião, já havia ocorrido uma evolução na comunicação. O Copom deixou de falar em “continuação na interrupção” do ciclo de alta — mensagem que passava com mais força a possibilidade de uma retomada do ciclo de alta da taxa Selic.

Mas note que, no comunicado de setembro, essa possibilidade não havia sido totalmente descartada. O Copom ainda a mantinha, embora com menor força, ao usar o verbo avaliar no gerúndio — avaliando — em conjunto com a conjunção "se", que basicamente introduz uma dose de dúvida.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, foi questionado sobre a nova construção de texto na entrevista do Relatório de Política Monetária (RPM) de setembro. Segundo ele, o Copom preservou “a ideia de que estamos dependentes de dados, e vamos seguir observando se a taxa de juros está num patamar contracionista o suficiente para produzir a convergência da inflação para a meta”.

Além do verbo no gerúndio e da conjunção "se", o comunicado de setembro também trazia, naquele trecho, o aviso de que o BC estava "vigilante" — expressão que parecia apontar que, na ocasião, ainda havia riscos com alguma relevância a serem monitorados.

Mas, claramente, o Copom já caminhava para um maior grau de conforto com a taxa de 15% ao ano para fazer o serviço de controlar a inflação. Tanto que, na mesma entrevista, o diretor de política econômica do BC, Diogo Guillen, traçou claramente uma evolução: “A gente estava numa interrupção, para depois ficar no nível corrente [da taxa de juros, em 15%]”, disse. “Agora, está no nível corrente bastante prolongado.”

Já no comunicado de novembro, divulgado hoje, o conforto com a taxa de 15% ao ano parece bem maior — o Copom dá a entender que chegou a uma conclusão, ao usar o verbo avalia: “O Comitê avalia que a estratégia de manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta”.

A expressão vigilante foi encaixada no trecho seguinte:

“O Comitê enfatiza que seguirá vigilante, que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e que não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado.” Nessa posição, perde um pouco sua força e se parece com o aviso usual do BC de que vai reagir se o cenário não se desenrolar da forma esperada.

O fato é que, quando o BC subiu os juros pela última vez, em junho, sua comunicação fazia uma força tremenda para dar simetria à mensagem — ou seja, para deixar claro que o juro podia tanto subir quanto cair. Agora, fica mais assimétrica — os juros vão ficar parados por bastante tempo, mas as chances de subir ficaram menores em relação às de cair.

Isso tenderá a reforçar as apostas do mercado em queda de juros. A Selic parada não dá muitos ganhos extraordinários; é preciso apostar em algum movimento para fazer dinheiro.

A questão é que a mensagem de juros altos por período bastante prolongado continua lá (o comunicado traz a palavra bastante, para quem sentiu falta dela em um discurso recente de Galípolo). E não há nenhuma indicação clara do quanto é bastante.

Tudo vai depender da evolução dos dados a serem divulgados — e, provavelmente, não há um único gatilho. O comunicado reconhece que há uma “trajetória” de arrefecimento da atividade, o que é algo mais consistente do que simplesmente apresentar “certa moderação”. A inflação subjacente caiu, “mas manteve-se acima da meta para a inflação”.

Um resumo do cenário é expresso na projeção de inflação de 3,3% para o segundo trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária. Houve melhora em relação aos 3,4% divulgados no relatório, mas ainda está acima da meta.

Essa projeção mostra que, matematicamente, com o corte de juros previsto pelo mercado em janeiro, para 14,75% ao ano, as contas não fecham ainda. Mas, de novo, o que vale mesmo é a situação que o Copom encontrar em cada reunião.

 

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 06/11/2025

 

Tarifaço faz Estados brasileiros correrem por medidas

Em 16 Estados mais afetados pela queda das exportações atingidas pelo tarifaço americano em agosto e setembro, em 12 houve medidas estaduais de apoio ao exportador. O impacto do tarifaço foi diverso. As quedas de embarques de produtos alvos do tarifaço aos EUA variaram de 8,9% a 99,9%. Dos 16 Estados mais afetados, 14 tiveram queda também nas vendas totais aos americanos.

Foram considerados entre os mais afetados os Estados mais dependentes, dos quais os americanos absorvem ao menos 5% das exportações. Paraíba, Amapá e Ceará também fazem parte desse grupo, mas as exportações de produtos atingidos pelo tarifaço nos três Estados cresceram em agosto e setembro ante iguais meses do ano passado, em 4,7%, 14,7% e 155,3%, respectivamente.

No agregado dos 26 Estados e Distrito Federal, mais da metade, - 15 no total - anunciou medidas para mitigar os efeitos das tarifas: Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, São Paulo, Santa Catarina e Sergipe.

Os dados são de levantamento do Valor sobre medidas contra efeitos do tarifaço e sobre as variações nas exportações.


"É preciso que os setores repensem sua pauta de exportação”
— Flavio Ataliba

Mesmo com ações para mitigar efeitos do tarifaço, alguns Estados tiveram quedas superiores a 50% nas exportações totais ao mercado americano entre agosto e setembro de 2024 para iguais meses de 2025, como Alagoas (59,9%), Rio Grande do Norte (63,7%) e Pernambuco (72,7%). Entre os mais dependentes do mercado americano, somente cinco Estados tiveram alta nos embarques totais aos EUA em igual período.

Na exportação aos EUA com origem em São Paulo houve redução de 16,8% de agosto a setembro ante iguais meses de 2024 para os produtos atingidos pelo tarifaço. Os isentos caíram 14,7% no mesmo período. O embarque total aos EUA somou US$ 2 bilhões em 2025, US$ 377,6 milhões a menos que em 2024, sempre nos dois meses.

Para amenizar os efeitos do tarifaço, o governo paulista lançou uma linha de crédito específica, o Giro Exportador, com total de operações já liberadas e aprovadas que ultrapassa R$ 40 milhões. Além disso, há mais de R$ 317 milhões em fase de análise. O Estado também liberou R$ 1,5 bilhão em créditos de ICMS como medida complementar.

Ricardo Britto, diretor-presidente da Desenvolve-SP, explica que é uma medida para dar fôlego ao exportador. "É um capital de giro para a empresa que muitas vezes imobilizaram recursos para exportar e precisa garantir o pagamento dos fornecedores e trabalhadores."

No Espírito Santo, foram disponibilizados cerca de R$ 60 milhões em crédito para as exportadores atingidos pelo tarifaço, diz Rogério Salume, secretário de Desenvolvimento do Estado. Ele conta que itens de exportação importantes do Estado, como o quartzito, ficaram isentas do tarifaço. Foram atingidos outros produtos, como semimanufaturados de aço e café. Mas entre atingidos ou não, diz, o que se vê como reação das empresas é a busca da diversificação, porque já se começa a ter receio da segurança jurídica nas trocas com os EUA. "Mesmo que o produto tenha ficado isento hoje, pode ser que não esteja amanhã."

Para o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) Flávio Ataliba, é preciso que os setores repensem sua pauta exportadora, seja em variação de produto, seja em parceiro comercial. O tarifaço, diz, é um alerta para setores cuja exportação está concentrada em poucos clientes, essencialmente nos EUA.

No Paraná, dez produtos de exportação foram atingidos pelo tarifaço. O setor mais sensível foi o da madeira, que está presente em 266 cidades e, em algumas, representa cerca de 80% da ocupação da mão de obra. As tarifas já acarretaram perdas de US$ 65,4 milhões em cancelamentos de contratos entre agosto e setembro deste ano, em comparação ao mesmo intervalo de 2024. A queda dos envios de madeira foi de 32,8% no período, segundo a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).

Superintendente da entidade, João Arthur Mohr explica que o mercado de madeira no Paraná é customizado para os EUA, o que colocou em xeque a atividade econômica de várias cidades que dependem do produto. Ele conta que três empresas paranaenses estão na berlinda, pois pararam suas linhas de produção. “O Estado não consegue deslocar o produto para outros mercados, enquanto pode demorar mais para alocar a madeira no mercado interno”, afirma ao Valor.

No momento, as empresas que, juntas, empregam 4 mil pessoas, fizeram um mix de demissões, férias coletivas e lay-off - quando dispensam funcionários para período de treinamento. Em paralelo, o governo estadual anunciou medidas de contenção, como liberação de impostos, como ICMS, e linhas de financiamento com juros subsidiados.

Um comitê de crise foi montado, principalmente pelo caso da madeira, o que Mohr considera serem ações paliativas de preservação de caixa, mas que não fream as perdas totais.

A aposta, acrescenta, é uma renegociação acelerada das tarifas sobre os produtos. No caso da madeira, uma redução competitiva de 50% para a faixa de 10%, como o Chile, a 15%, como os países europeus, seria fundamental para “não desmontar o mercado”. Em um cenário ideal, se as negociações forem finalizadas entre 30 a 60 dias, o Paraná pode voltar a negociar com os norte-americanos em dezembro, prevê o superintendente.

Para Ataliba, o exemplo do Paraná reflete a armadilha que o grau de exposição da exportação brasileira a determinados países impõe às economias regionais. Em detrimento das ações de mitigação do tarifaço, os Estados brasileiros ainda concentram modelos conservadores de negociação internacional, dificultando a recuperação do prejuízo dos últimos dois meses.

 

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 29/10/2025