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Lula e Trump têm reunião ‘sem tabus’ e disposição para parcerias

A primeira reunião bilateral nos EUA entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o americano Donald Trump foi marcada pela discussão de “assuntos que pareciam tabus” e pela promessa de que o Brasil está disposto a fazer parcerias com diferentes países, sem restrições geopolíticas, segundo o petista.

“Volto ao Brasil mais otimista. Acho que o presidente Trump também ficou otimista e espero que as coisas comecem a avançar”, disse Lula em entrevista coletiva nesta quinta-feira (7) em Washington, após reunião bilateral seguida de almoço com Trump. O encontro era esperado para ocorrer em março, mas, devido ao envolvimento dos EUA em conflitos internacionais, a data foi alterada.

Segundo Lula, a conversa não evitou assuntos complexos, mas dois temas que se tornaram alvo dos EUA contra o Brasil (Pix e classificação de facções criminosas como terrorismo) não foram abordados no encontro.

O presidente ressaltou que o Brasil está aberto a construir parcerias internacionais com diferentes países, sem restrições geopolíticas, em referência a terras raras. “A única coisa que ele [Trump] precisa saber é o seguinte: o Brasil está disposto a construir parcerias onde eles quiserem construir parceria. Não há veto aos Estados Unidos, como também não há veto à China, à França, à Índia ou à Alemanha.”

O presidente brasileiro disse que ao contrário do que aconteceu no passado, com minerais como ouro e prata, desta vez o Brasil terá um comportamento diferente. “Não queremos ser meros exportadores de minerais”, disse, e completou: “Queremos que o Brasil seja o grande ganhador”, em referência ao beneficiamento e refino de minerais críticos no Brasil.

No encontro, Lula pediu a Trump o fim da investigação aberta contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei do Comércio, segundo informou fonte do governo. No entanto, não foram discutidos os temas listados no processo, que vão do Pix ao desmatamento, de big techs a etanol. São práticas supostamente desleais e prejudiciais ao comércio, na visão dos EUA. Assim, essa investigação pode resultar em tarifas adicionais sobre produtos brasileiros.

Ficou acertado que as equipes técnicas dos dois países vão discutir, ao longo dos próximos 30 dias, os pontos de controvérsia. O debate, disse a fonte, ficará concentrado sobretudo em tarifas, pois há diferentes entendimentos sobre o nível delas. Ao final, a expectativa do lado brasileiro é que a investigação acabe sem a imposição de tarifas.

A investigação da Seção 301 é o ponto de atenção mais imediato do Brasil, pois poderá resultar, na prática, em um novo “tarifaço”. Nesse processo, os negociadores têm apresentado dados para justificar as práticas brasileiras. As reuniões têm caminhado bem, o que aumenta o otimismo no governo.

"Acho que o presidente Trump também ficou otimista e espero que as coisas comecem a avançar”
— Lula

Em relação às tarifas, o presidente Lula disse que reforçaram a vantagem dos EUA na balança comercial com o Brasil. Buscaram esclarecer ainda que a média de tarifas do Brasil é de 2,7% para os produtos dos EUA, mas o representante de Comércio americano, Jameson Greer, presente ao encontro, parece ter atuado como o “bad cop” do diálogo apontando percentuais maiores. Ficou acertado que as equipes dos dois governos vão trabalhar por mais 30 dias para avançar nas negociações sobre tarifas de importação sobre produtos brasileiros.

Segundo Lula, durante a conversa ele falou a Trump sobre a importância de os EUA voltarem a “ter interesse nas coisas do Brasil”. Ele afirmou ter falado a Trump que tanto EUA como a União Europeia deixaram de perceber a importância da América Latina, citando como exemplo a falta de interesse de empresas americanas em licitações de obras públicas no Brasil.

Em relação às facções criminosas brasileiras, Lula disse que o tema não foi discutido no encontro. No entanto, o presidente afirmou que o combate ao crime organizado sim foi discutido, Lula destacou que o Brasil tem expertise no assunto e sugeriu que essa seja uma ação conjunta entre diversas nações não cabendo a um ou outro país fazer isso isoladamente.

“Eu disse para ele [Trump] que nós [Brasil] estamos dispostos a construir um grupo de trabalho com todos os países da América do Sul, com todos os países da América Latina e, quiçá, com todos os países do mundo para criar um grupo forte de combate ao crime organizado. Não é a hegemonia de um país ou de outro querer combater o crime organizado. É uma coisa que tem que ser compartilhada com todos.”

O assunto também foi abordado pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que destacou que ações de cooperação entre Brasil e EUA no combate ao crime organizado e defendeu a ampliação de ações conjuntas entre os países para melhorar os resultados. Segundo ele, na área aduaneira, a troca de dados entre maio de 2025 e abril de 2026 resultou na apreensão de meia tonelada de armas e uma tonelada de drogas sintéticas provenientes dos EUA.

Sobre eventual intervenção do presidente americano nas eleições brasileiras, Lula disse acreditar que Trump irá se “comportar como presidente dos Estados Unidos, deixando que os brasileiros decidam”. E reforçou que ele, como presidente do Brasil, respeita Trump por ele ter sido eleito pelo povo dos Estados Unidos. O presidente disse ainda que os apoios eleitorais no Brasil não entram na pauta de suas conversas com nenhum presidente. A agenda ocorreu em um momento em que o governo Lula enfrenta desaprovação. De olho no pleito de outubro, o presidente quer usar a defesa dos interesses nacionais como instrumento para reverter esse cenário.

Pelo lado americano, Trump afirmou em suas redes que considerou a reunião “muito boa” e não descartou novos encontros com Lula, a quem se referiu como “alguém muito dinâmico”. “Tivemos uma ótima reunião com o presidente do Brasil. Estamos fazendo muito comércio e vamos aumentar esse comércio ainda mais. Falamos sobre tarifas. Falamos também que, você sabe, eles gostariam de algum alívio nas tarifas. Mas tivemos uma reunião muito boa. Ele é um bom homem. É um cara inteligente”, escreveu Trump.

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 08/05/2026

 

Brasil tem a maior carga tributária do mundo sobre veículos

A carga tributária sobre veículos zero-quilômetro no Brasil é a maior do mundo, e os números confirmam com folga. Dependendo da motorização e da origem do carro, os impostos respondem por 30,6% a 48,6% do preço de venda de um veículo nacional. Na Itália, o maior tributador europeu da lista, o imposto sobre a compra de um carro é de 22%. Na Alemanha, 19%. No Japão, cerca de 13%. Nos EUA, em média, 7%.

O Brasil não tem concorrência nesse ranking. Infográficos com esse comparativo viralizaram nas redes sociais e, apesar do formato simplificado, refletem com precisão a realidade do mercado: os dados foram verificados junto às tabelas oficiais da União Europeia e ao PwC Global Automotive Tax Guide. Milad Kalume Neto, da Klume Consultoria, um dos mais respeitados consultores do mercado automotivo brasileiro, corrobora a informação e colocou em números para o Autotempo o que essa distância significa para o consumidor.

“Num carro de R$ 100 mil, você tem 40% para a cadeia de fornecedores, 5% para as montadoras, 5% para os concessionários e 50% para o governo. Esse montante é um número que representa bem como está o mercado hoje.”

Dito de outra forma, em cada carro zero vendido no Brasil, o governo leva mais do que montadora, concessionária e toda a cadeia de fornecedores juntos.

O empresário Sérgio Habib, presidente da JAC Motors Brasil, resume a lógica estrutural por trás disso. “O carro no Brasil é um vetor de imposto e uma fonte de arrecadação para o governo”. Essa relação, que o setor debate há décadas, é exatamente o que a reforma tributária promete reformar, mas que, na prática, pode piorar antes de melhorar. A checagem dos números internacionais apresentados nos infográficos virais revela que eles correspondem, com boa precisão, às alíquotas de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) praticadas nesses países sobre a compra de bens, incluindo automóveis.

No caso do Japão, há uma camada extra além do IVA de 10%: o país opera um sistema de múltiplas taxas, imposto de compra (cerca de 3% do valor), imposto de registro baseado no peso e no motor, e taxa rodoviária anual, o que leva o total estimado a algo próximo de 13% sobre o preço de venda, de acordo com levantamentos setoriais. Nos EUA, não há IVA federal; a tributação se resume ao “sales tax” estadual, que vai de zero a pouco mais de 10%, com média nacional em torno de 7%. Atualmente, a tributação de um veículo no Brasil parte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), de competência federal, cuja alíquota varia conforme a cilindrada e o tipo de combustível.

Sobre o preço já com IPI embutido incidem o ICMS (que oscila entre estados, mas costuma ser cobrado por dentro da nota) e as contribuições federais PIS (1,65%) e Cofins (7,6%). O problema estrutural é que cada imposto é calculado sobre um preço que já carrega o imposto anterior, o chamado “imposto sobre imposto”, efeito em cascata que infla a carga real bem acima da soma simples das alíquotas nominais.

Desde julho de 2025, o governo federal zerou o IPI para veículos compactos que atendam a quatro critérios cumulativos no chamado “Programa Carro Sustentável”: emitir menos de 83g de CO?/km, conter mais de 80% de materiais recicláveis, ser fabricado no Brasil, com soldagem, pintura, fabricação do motor e montagem realizadas no país, e se enquadrar como carro de entrada da marca.

O benefício, instituído pelo Decreto nº 12.549/2025 dentro do programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação), está previsto para vigorar até 31 de dezembro de 2026. Modelos como Volkswagen Polo Track, Renault Kwid, Fiat Mobi e Hyundai HB20 figuram entre os beneficiados.

 
Fonte: O Sul
Seção: Automobilística & Autopeças
Publicação: 08/05/2026

 

Por que Lula e Trump discutem o mercado de terras raras na Casa Branca?

O presidente Lula encontra-se com Donald Trump nesta quinta-feira (7), na Casa Branca, para debater acordos sobre terras raras. O Brasil, dono da segunda maior reserva mundial desses minerais essenciais para tecnologia e defesa, tenta destravar R$ 13 bilhões em investimentos privados.

O que são terras raras e por que elas são tão importantes?

Terras raras são um grupo de 17 minerais usados para fabricar produtos de alta tecnologia, como chips de celular, baterias de carros elétricos e até sistemas de mísseis. Sem eles, a indústria moderna para. Atualmente, a China domina quase todo o refino mundial desses minerais, o que gera uma dependência preocupante para outros países, especialmente os Estados Unidos.

Qual é o papel do Brasil nesse cenário geopolítico?

O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do planeta. Além da quantidade, o diferencial brasileiro é que o minério está em um tipo de argila mais fácil e barato de processar do que as rochas encontradas em outros países. Isso torna o Brasil o parceiro ideal para o plano dos EUA de buscar fornecedores confiáveis fora da área de influência chinesa.

Quais investimentos já estão acontecendo no país?

O mercado está aquecido: uma empresa americana comprou a mineradora Serra Verde, em Goiás, por US$ 2,8 bilhões para abastecer agências de defesa dos EUA. Ao mesmo tempo, a Rússia criou uma empresa para explorar minérios no Paraná e na Bahia, e a China investe na Amazônia para extrair terras raras de resíduos de estanho. Mais de R$ 10 bilhões em novos projetos estão previstos.

Por que o governo brasileiro corre contra o tempo?

O Brasil tem uma janela de oportunidade de no máximo dois anos para fechar contratos de longo prazo e garantir que o investimento fique aqui. O maior medo é que o país se torne apenas um exportador de minério bruto e barato para comprar tecnologia cara depois. Para evitar isso, especialistas defendem que o Brasil exija a construção de fábricas de refino e separação química em solo nacional.

Como o marco legal pode ajudar o setor?

O Congresso avalia um projeto de lei para dar segurança jurídica aos investidores. O debate divide opiniões: uma parte do governo sugeriu criar uma estatal (Terrabras) para controlar a produção, mas recuou para não espantar o capital privado. O texto atual foca em dar incentivos fiscais para quem processar o minério no Brasil e em criar um conselho para vigiar se as vendas de mineradoras ameaçam a nossa soberania.


Lula e Trump discutem terras raras; Brasil corre para não perder investimentos

O encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump nesta quinta-feira (7), na Casa Branca, deve mexer ainda mais as peças no segmento das terras raras, minerais essenciais para o desenvolvimento de novas tecnologias. O Brasil corre atrás do relógio para viabilizar até R$ 13 bilhões em investimentos.

O mercado já se move no país: uma empresa americana comprou a mineradora Serra Verde, de Goiás, por US$ 2,8 bilhões; a subsidiária de uma estatal russa e uma empresa brasileira se uniram para criar a Nadina Minerals, e a China avança na Amazônia. Ao mesmo tempo, as discussões em Brasília só ganharam força com os últimos movimentos.

Apesar da expectativa desses investimentos bilionários, a GIN Capital, uma estruturadora americana de projetos em infraestrutura no Brasil, avalia que apenas 35% desses recursos serão captados até 2028.

O monopólio chinês e a janela que está fechando para o Brasil

Segundo a estruturadora de investimentos, o Brasil possui uma janela de oportunidade de 18 a 24 meses. Ela reflete a reconfiguração das cadeias globais provocada pela guerra comercial e tecnológica entre Washington e Pequim. As terras raras — 17 elementos como neodímio, disprósio e térbio — são o sistema nervoso da indústria moderna: indispensáveis para semicondutores, motores de veículos elétricos e sistemas de mísseis guiados.

A China controla aproximadamente 70% da extração e 91% da capacidade de refino global, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês).

Analistas apontam que essa dominância permite que Pequim utilize o fornecimento mineral como arma geoeconômica, restringindo exportações conforme suas conveniências políticas, como ocorreu em 2025. Em resposta, os Estados Unidos e aliados iniciaram a política de friendshoring: buscar fornecedores confiáveis fora da esfera de influência chinesa.

O Brasil, detentor da segunda maior reserva mundial — 21 milhões de toneladas, segundo o USGS — surge como alternativa natural. A urgência de Trump em firmar acordos com o governo brasileiro reflete um fato: mineradoras e governos ocidentais estão, neste momento, selando contratos de compra antecipada de longo prazo.

Do minério bruto ao lucro: onde o Brasil deixa bilhões escapar

A urgência geopolítica revela um abismo maior: a geração de valor ao longo da cadeia produtiva. O ponto crítico para o Brasil reside na captura de valor em cada etapa do processamento. A cadeia é brutal: minério bruto é comoditizado a preços baixos; após refino químico, o valor por unidade multiplica-se exponencialmente; o produto — ímãs permanentes, ligas especiais, componentes de tecnologia — concentra a margem de lucro que o Brasil deixa escapar.

O risco é repetir o "erro colonial" do minério de ferro: exportar riqueza bruta para recomprar tecnologia cara, diz Alexandre Uehara, professor de Relações Internacionais da ESPM.

Já o advogado Luiz Carlos Adami, especialista em direito da mineração e regulação, alerta que a integração passiva às cadeias estrangeiras sem contrapartidas de refino local pode levar à "periferização" do país.

Os analistas apontam que, sem plantas de separação em solo nacional, o lucro da industrialização será refinado em outros países, restando apenas o passivo ambiental. Juros altos agravam esse cenário.

EUA já se movem: a aquisição que acelerou Brasília

A realidade do mercado já se move enquanto as discussões avançam lentamente. O exemplo mais concreto da estratégia americana é a aquisição da mineradora Serra Verde pela USA Rare Earth (USAR) por aproximadamente US$ 2,8 bilhões. Localizada em Minaçu (GO), a mina Pela Ema é a única em operação comercial no país capaz de fornecer simultaneamente os quatro elementos magnéticos cruciais: neodímio, praseodímio, térbio e disprósio.

A transação é um marco da "Guerra Fria" mineral:

• Contou com aporte de US$ 565 milhões da International Development Finance Corporation (DFC), agência de fomento de Washington, aprovado em fevereiro de 2026.

• Faz parte do Project Vault, iniciativa de US$ 12 bilhões dos EUA para securitizar estoques estratégicos de defesa.

• Inclui contrato de compra antecipada de 15 anos para 100% da produção da Fase 1, destinado à base industrial e militar americana.

A operação disparou alertas em Brasília. O partido Rede e a deputada Heloisa Helena (Rede-AL) protocolaram uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no Supremo Tribunal Federal (STF) para suspender a venda, alegando que a soberania nacional foi ferida.

Analistas apontam que essa judicialização é o "cisne negro" do setor: se contratos privados forem revogados por decisões políticas, o prêmio de risco do Brasil subirá para todo o setor de infraestrutura, fechando a oportunidade antes mesmo de os projetos saírem do papel.

Segundo eles, o desfecho dessa ação no STF definirá o apetite dos investidores institucionais para novos projetos, tornando crítica a busca por empresas com estudos de viabilidade robustos e suporte de agências de fomento.

Rússia e China têm interesse nas terras raras brasileiras

A urgência americana é alimentada pelo avanço de potências rivais em solo brasileiro. Em março, a estatal russa Rosatom, via subsidiária Uranium One, formalizou a criação da Nadina Minerals — joint venture com a brasileira NBEPar para prospecção e processamento em Figueira (PR) e Caculé (BA).

Esse movimento sinaliza que o Brasil se tornou o principal campo de batalha para o controle das terras raras. A China também consolidou posições: a CNMC adquiriu a Mineração Taboca (AM), em novembro de 2024, por US$ 340 milhões e planeja investir mais US$ 100 milhões para extrair terras raras de resíduos de estanho.

O diferencial brasileiro reside nas argilas iônicas, sinalizam estudos realizados por multinacionais interessadas nos ativos. Diferente da rocha dura encontrada na Austrália e EUA, as argilas iônicas brasileiras são mais fáceis de processar, exigem menos energia e não geram barragens de rejeitos úmidos, reduzindo o risco ambiental e o custo de licenciamento.

Esse trunfo permite ao Brasil oferecer aos investidores ocidentais fornecedores confiáveis e sustentáveis, mas apenas se consolidar a infraestrutura de refino e garantir segurança jurídica nos próximos 24 meses.

Projetos dependem de assinatura de contratos nos próximos meses

Apesar dos gargalos institucionais, o Brasil vive volume sem precedentes de interesse internacional. Sete projetos em fase pré-operacional projetam investimentos que superam os R$ 10 bilhões. O sucesso depende da agilidade institucional nos próximos dois anos.

A GIN Capital estima que apenas 35% desse montante será captado até 2028 sem avanços significativos no ambiente de negócios. A probabilidade de esses projetos alcançarem a decisão final de investimento está condicionada à assinatura de contratos de compra antecipada nos próximos meses.

O marco legal pode ajudar a destravar investimentos bilionários em terras raras

O maior obstáculo para o Brasil cumprir o prazo não vem da geologia, mas de Brasília. O debate sobre o marco legal dos minerais críticos tornou-se o novo front da polarização eleitoral de 2026. O projeto de lei (PL 2780/24), relatado pelo deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), foi aprovado na Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (6).

O projeto de lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), voltada ao incentivo da exploração, processamento e transformação desses minerais no Brasil. A proposta segue agora para análise do Senado.

O texto prevê a criação do Fundo Garantidor da Atividade Mineral (Fgam), com aporte inicial de R$ 2 bilhões da União, além de um programa de incentivos fiscais de R$ 5 bilhões ao longo de cinco anos para estimular o beneficiamento desses minerais no país. A proposta também institui o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, responsável por definir quais substâncias serão consideradas estratégicas e prioritárias.

Segundo o relator, deputado Arnaldo Jardim, a medida pode fortalecer a indústria nacional, incentivar a reciclagem de minerais presentes em resíduos eletrônicos e ampliar a competitividade do país no setor tecnológico. Já o autor do projeto, Zé Silva, afirmou que a proposta busca proteger as riquezas minerais brasileiras sem criar monopólio estatal.

O projeto também estabelece regras para leilões de áreas minerárias, cria um cadastro nacional de projetos do setor e prevê participação financeira obrigatória das empresas de mineração em fundos de pesquisa e garantia, segundo informações da Câmara dos Deputados.

A ala mais à esquerda do PT articulou inicialmente a criação da Terrabras — estatal mineral inspirada no regime de partilha do pré-sal e que deteria participação mínima de 50% na produção. Dois projetos de lei foram apresentados.

Segundo o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), a Terrabras é a única forma de garantir a "soberania econômica" e evitar que o Brasil seja apenas um fornecedor de baixo valor agregado para as indústrias de defesa dos Estados Unidos e da China.

Para especialistas e entidades do setor mineral, como a Associação de Minerais Críticos (AMC), a Terrabras é vista como uma ameaça à atração dos R$ 13,2 bilhões em investimentos privados projetados para o país.

Em recuo estratégico para não inviabilizar o fluxo de capital, o governo Lula decidiu apoiar o parecer de Jardim. Esse marco legal é visto como via pragmática para aproveitar a oportunidade geopolítica, trocando protagonismo estatal por mecanismos de incentivo privado:

Créditos Fiscais Progressivos: Créditos de até 20% sobre valores investidos em beneficiamento local, com limite anual de R$ 1 bilhão entre 2030 e 2034.
Fundo Garantidor: Fundo de até R$ 5 bilhões (com participação da União de R$ 2 bilhões) para mitigar riscos de crédito de mineradoras juniors sem produção ativa para oferecer como garantia real.
Conselho Especial (CMCE): Órgão consultivo ligado à Presidência com poder de avaliar se fusões e aquisições ameaçam a segurança econômica ou geopolítica do país, garantindo soberania sem gestão estatal direta.
Os principais projetos em terras raras

Aclara Resources (Projeto Carina - GO)

Investimento: R$ 3,5 bilhões (US$ 582,3 milhões).
Empreendimento em Goiás com tecnologia sustentável para extração de terras raras pesadas de argilas iônicas, contando com suporte financeiro do governo americano e foco em uma solução integrada da mina ao ímã.
Serra Verde (Mina Pela Ema - GO)

Investimento: R$ 14 bilhões na aquisição pela USA Rare Earth.
Única operação comercial ativa no país, focada em argilas iônicas ricas em elementos magnéticos, com fornecimento exclusivo de 100% da produção para a base industrial e militar dos EUA por 15 anos.
Terra Brasil Minerals (Alto Paranaíba - MG)

Investimento: Até R$ 3,1 bilhões.
Projeto integrado que une a produção de terras raras à fabricação de fertilizantes fosfatados, visando agregar valor localmente e reduzir a dependência de importações estratégicas para o agronegócio nacional.
Meteoric Resources (Projeto Caldeira - MG)

Investimento: R$ 2,3 bilhões
Detém o depósito de argila iônica de maior teor do mundo fora da China, em Poços de Caldas, com status de prioridade estratégica estadual para iniciar a produção comercial até 2028.
Viridis Mining & Minerals (Projeto Colossus - MG)

Investimento: R$ 1,8 bilhão.
Exploração de argilas iônicas no complexo alcalino de Poços de Caldas, utilizando processamento simplificado sem barragens de rejeitos para produzir carbonatos de terras raras de alta pureza.
St. George Mining (Projeto Araxá - MG)

Investimento: Até R$ 1,3 bilhão.
O projeto integra a exploração de nióbio e terras raras, prevendo a criação de um laboratório-fábrica de ímãs permanentes em parceria com instituições tecnológicas locais.
Atlas Critical Minerals (MG/GO)

Investimento: Pelo menos R$ 1 bilhão.
Empresa listada na Nasdaq (bolsa de tecnologia americana) que desenvolve ativos em Minas Gerais e Goiás, atualmente focada em testes laboratoriais e definição de rotas de processamento químico para iniciar operações em 2028.
 
Fonte: Gazeta do Povo
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 07/05/2026

Reciclabilidade infinita do aço e aumento de seu consumo no Brasil reforça o potencial do metal no setor industrial, diz ABM

O aço segue consolidado como um dos principais insumos da indústria brasileira, impulsionado por uma característica singular: sua reciclabilidade infinita. Ou seja, o material pode ser reaproveitado inúmeras vezes, sendo transformado em novas ligas com propriedades mecânicas adequadas às suas novas aplicações, que vão da construção civil ao setor automotivo, reduzindo custos e impactos ambientais.

Essa capacidade ganha maior impulso associada aos avanços dos processos industriais, com tecnologias de melhoria da qualidade das sucatas e especialmente ao uso do forno elétrico a arco, que utiliza sucata metálica como principal insumo. Esse modelo permite reduzir o consumo de energia em até 80% em comparação à produção a partir do minério de ferro, além de ampliar a eficiência produtiva das usinas.

Dados da última pesquisa com informes do mercado brasileiro de aço no país, divulgada pelo Instituto Aço Brasil, mostram que o consumo aparente de produtos de aço no país atingiu 26,1 milhões de toneladas em 2024, retomando patamares relevantes após oscilações recentes. O avanço está alinhado ao desempenho da economia brasileira, que cresceu 3,4% no período, com destaque para a indústria e a construção civil.

Entre os principais setores consumidores de aço, a construção civil lidera com 37,3% do total, seguida pelo setor automotivo (24,8%) e pelos bens de capital (19,2%). O desempenho desses segmentos ajuda a explicar a relevância do aço como base para diferentes cadeias produtivas e sua presença em aplicações que vão de estruturas metálicas a bens duráveis.

Além da escala de consumo, a reciclagem do aço também representa ganhos diretos no uso de insumos industriais. Para cada tonelada reciclada, evita-se o consumo de cerca de 1.400 kg de minério de ferro, 740 kg de carvão e 120 kg de calcário, reduzindo a dependência de outras matérias-primas ao longo da cadeia produtiva.

O reaproveitamento também tem impacto direto na estrutura de custos da indústria siderúrgica, uma vez que o uso de sucata como insumo contribui para maior previsibilidade e eficiência operacional. Essa dinâmica cria ainda um mercado relevante, que envolve coleta, processamento e reinserção do material na indústria.

Para o diretor de operações da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração, Valdomiro Roman, a reciclabilidade do aço é um dos pilares que sustentam sua relevância histórica e atual. —O aço reúne atributos técnicos que garantem longevidade ao material dentro da indústria. A possibilidade de reaproveitamento contínuo, sem perda de desempenho, contribui diretamente para a eficiência dos processos produtivos —afirma.

Segundo ele, o comportamento do mercado brasileiro reforça esse papel estratégico. —Os dados mais recentes mostram uma demanda consistente, puxada por setores estruturais da economia. Isso evidencia como o aço permanece essencial para atender diferentes segmentos com escala, qualidade e competitividade— completa.

Globalmente, centenas de milhões de toneladas de aço são recicladas anualmente, reforçando a consolidação desse modelo produtivo. No Brasil, a combinação entre demanda industrial aquecida e a capacidade de reaproveitamento do material fortalece sua posição como um dos pilares da indústria.

Com ampla presença em setores-chave e capacidade de reinserção contínua na cadeia produtiva, o aço mantém seu protagonismo ao unir desempenho técnico, escala industrial e eficiência operacional.

 
Fonte: Portal Fator
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 06/05/2026

 

Brasil tem “vazio estratégico” em minerais críticos, segundo especialista

O Brasil dispõe dos instrumentos jurídicos necessários para controlar as riquezas minerais, mas falha ao não transformá-los em desenvolvimento industrial. A opinião é da especialista em justiça e direito climático Luciana Bauer.

Ex-juíza federal e fundadora do Instituto Jusclima, Luciana considera que a falta de um plano estratégico, com metas de longo prazo que estimulem o desenvolvimento tecnológico e industrial brasileiro, impede que o Brasil aproveite todo o seu potencial geológico.

Para a especialista, o que ela classifica como um “vazio estratégico” ameaça inclusive a soberania nacional. Sobretudo em um contexto no qual potências globais como a China e os Estados Unidos disputam o controle das jazidas de minerais críticos e terras raras – insumos indispensáveis para as indústrias de tecnologia, automobilística, defesa e para a concretização da transição energética.

“Só possuir recursos minerais não assegura vantagem estratégica”, alerta a especialista, repetindo uma das conclusões do estudo que elaborou com o cientista político Pedro Costa, a pedido da Rede Soberania, coletivo formado por representantes de organizações sociais do campo progressista, comunicadores populares, ambientalistas e militantes sociais.

A partir das conclusões de Luciana e Costa, a Rede Soberania elencou um conjunto de recomendações que apresentou ao deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), relator do Projeto de Lei nº 2.780/2024, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

Como Jardim apresentou o parecer sobre a proposta nesta segunda-feira (4), a expectativa é que o relatório seja lido e votado em plenário ainda nesta terça-feira (5).

Segundo o relator, o parecer leva em conta sugestões apresentadas por entidades, órgãos e especialistas do setor de mineração, da indústria e do Poder Público. E busca garantir que o Brasil aproveite as reservas de minerais estratégicos para desenvolver uma cadeia industrial interna, de produtos com valor agregado.

“Não é apenas sobre extrair recursos. É sobre decidir qual papel o Brasil quer ocupar nessa nova economia: ser fornecedor de matéria-prima ou protagonista na geração de valor, tecnologia e desenvolvimento”, acrescentou o deputado.

Para Luciana, o projeto de lei, conforme referendado pelo relator, tem aspectos positivos, mas é um “marco regulatório mínimo” que, se aprovado na Câmara dos Deputados, precisará ser mais debatido e aperfeiçoado no Senado, onde será apreciado na sequência. Sem prejuízo de futuros aprimoramentos.

“[O PL nº 2.780/2024] é bom para esta fase [dos debates]. Porque institui o modelo híbrido que defendemos [afastando a hipótese de criar, por ora, uma estatal para o setor], mas ele ainda fica devendo a densificação dos princípios constitucionais que trariam a necessária segurança territorial e da exploração dos recursos”, argumentou Luciana, alegando que, a seu ver, o projeto ainda deixa a desejar em termos de planejamento estratégico e de medidas práticas para a defesa da soberania nacional sobre os recursos minerais.

Propostas

Segundo a Rede Soberania, as propostas elaboradas a partir do estudo encomendado a Luciana e Costa e apresentadas a Jardim reforçam não só importância da soberania nacional, mas também da proteção ao meio ambiente e ao regime democrático brasileiro.

A exemplo dos autores do estudo, a entidade defende o “modelo híbrido de gestão” dos recursos minerais estratégicos, por entender que, neste campo, o elemento decisivo não é a posse dos recursos em si, mas o controle das cadeias de valor (refino, processamento e aplicação tecnológica).

“No modelo híbrido, não é [determinante] criar uma empresa estatal de exploração, com monopólio, a exemplo da Petrobras. O país pode até criá-la, mas permite que atores privados atuem”, explicou a proposta Luciana. Segundo ela, este é o modelo chinês, que articula coordenação e controle regulatório estatal à atuação particular, incluindo de várias pequenas mineradoras.

“É uma falácia dizer que só grandes players [grupos empresariais] vão fazer mineração de terras raras e minerais críticos. Um argumento desmentido pelas várias pequenas mineradoras que atuam na China, na Austrália e no Canadá, por exemplo”, complementou Luciana.

A Rede Soberania também sugere que a União adote uma política de estoques estratégicos; condicionantes para a exportação de minério bruto ou concentrado; obrigatoriedade da consulta a comunidades indígenas e tradicionais, entre outras recomendações.

Entenda

Com cerca de 21 milhões de toneladas, a reserva brasileira de terras raras é a segunda maior já mapeada no mundo, ficando atrás apenas da China, que detém aproximadamente 44 milhões de toneladas. Porém, só cerca de 25% do território nacional foi mapeado, o que indica um enorme potencial ainda desconhecido.

Conhecidos pelo potencial para impulsionar a transição energética, terras raras, minerais estratégicos e minerais críticos vêm ganhando cada vez mais protagonismo global. Embora frequentemente tratados como sinônimos, os três conceitos cumprem papéis diferentes na geopolítica e na economia global.

Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), os minerais estratégicos são aqueles considerados essenciais para o desenvolvimento econômico dos países, importantes por serem imprescindíveis para produtos e processos de alta tecnologia, defesa e transição energética.

Os minerais críticos são aqueles cujo suprimento pode envolver diferentes riscos de abastecimento: concentração geográfica da produção, dependência externa, instabilidade geopolítica, limitações tecnológicas, interrupção no fornecimento e dificuldade de substituição.

Já os chamados elementos terras raras (ETR) são um grupo específico de 17 elementos químicos da tabela periódica: 15 lantanídeos (como lantânio, cério, neodímio e disprósio), escândio e ítrio. São essenciais para tecnologias de ponta, como turbinas eólicas, carros elétricos, baterias, eletrônicos e sistemas de defesa.

A definição de quais minerais são estratégicos ou críticos depende de cada país. A lista também pode mudar conforme o tempo, de acordo com avanços tecnológicos, descobertas geológicas, mudanças geopolíticas e evolução da demanda. As terras raras, por sua vez, também podem ser consideradas minerais críticos ou estratégicos, dependendo do contexto.

 
Fonte: TNH1
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 06/05/2026

Importação de aço divide indústria brasileira e amplia debate sobre proteção comercial

A política de defesa comercial adotada pelo governo brasileiro para conter o avanço das importações de aço voltou a acirrar o embate entre siderúrgicas e setores consumidores do produto. Enquanto fabricantes nacionais defendem medidas mais rígidas contra a entrada de aço estrangeiro, principalmente da China, entidades da indústria de transformação afirmam que o aumento de tarifas e ações antidumping pode elevar custos, reduzir competitividade e afetar toda a cadeia produtiva brasileira.

O debate ganhou força em 2026 após o governo federal ampliar para 25% a tarifa de importação sobre diversos produtos siderúrgicos, além de aprovar novas medidas antidumping voltadas principalmente ao aço chinês e de outros países asiáticos.

A estratégia busca frear o crescimento das importações, que atingiram níveis considerados recordes pelo setor siderúrgico nacional. Dados da indústria apontam que as compras externas de laminados chegaram a 5,7 milhões de toneladas em 2025, volume 20,5% superior ao registrado em 2024 e cerca de 160% acima da média histórica brasileira.

Setor de máquinas critica barreiras comerciais

Apesar do apoio das siderúrgicas às medidas protecionistas, parte da indústria brasileira reage de forma contrária às novas barreiras tarifárias.

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) se posicionou publicamente contra o aumento de tarifas e ações antidumping, argumentando que a política beneficia um segmento específico enquanto encarece a produção nacional como um todo.

Segundo a diretora de comércio exterior da entidade, Patrícia Gomes, as restrições ao aço importado dificultam o acesso a fornecedores alternativos e reduzem a competitividade da indústria brasileira.

A entidade afirma que o problema da concorrência desleal precisa ser enfrentado, mas alerta que o excesso de proteção pode gerar impactos negativos em setores dependentes do aço como:

máquinas e equipamentos;
indústria automotiva;
linha branca;
construção civil;
embalagens metálicas.
A Associação Brasileira de Embalagem de Aço (Abeaço) também demonstrou preocupação com as investigações antidumping envolvendo folhas de flandres importadas da Alemanha, Japão e Holanda. O setor alerta para riscos de aumento de custos e impactos socioeconômicos caso novas tarifas sejam aplicadas.

Siderúrgicas falam em “invasão” do aço importado

Do outro lado do debate, grandes siderúrgicas brasileiras defendem que o mercado nacional vive um cenário de concorrência desequilibrada provocado pelo excesso de aço estrangeiro no mundo, especialmente vindo da Ásia.

A ArcelorMittal Brasil atribuiu parte significativa de suas dificuldades financeiras recentes ao crescimento das importações. A companhia encerrou 2025 com prejuízo de R$ 2,2 bilhões e receita líquida de R$ 61,76 bilhões, em queda de 7,2% frente ao ano anterior.

Segundo o presidente da empresa no Brasil, Jorge Oliveira, a expectativa de recuperação em 2026 depende diretamente da redução das compras externas de aço.

A empresa cita especialmente o avanço do aço chinês no mercado brasileiro, frequentemente tratado pelo setor como uma “invasão” de produtos importados a preços considerados artificialmente baixos.

Mesmo diante desse cenário, a ArcelorMittal manteve em andamento o projeto do Laminador de Tiras a Frio (LTF) na unidade de Tubarão, no Espírito Santo. O investimento, estimado em R$ 4 bilhões, prevê a produção de aço galvanizado e laminado a frio voltado principalmente para os setores automotivo, de eletrodomésticos e construção civil.

Segundo a companhia, a continuidade dos investimentos dependerá da efetividade das medidas de defesa comercial adotadas pelo governo federal.

Usiminas alerta para nova onda de importações

A Usiminas também demonstrou preocupação com o comportamento das importações em 2026. Apesar das medidas antidumping aplicadas contra produtos chineses, a empresa afirma que houve redirecionamento dos fluxos comerciais para outros países asiáticos e do Oriente Médio.

Segundo executivos da companhia, países como:

Coreia do Sul;
Vietnã;
Egito;
Turquia;
passaram a ampliar embarques de aço para o Brasil, compensando parcialmente as restrições impostas ao material chinês.

A empresa avalia que ainda existe risco de excesso estrutural de oferta no mercado brasileiro, o que continua pressionando preços e margens da indústria nacional.

Dados da Aço Brasil indicam que as importações de aço plano atingiram 1,75 milhão de toneladas no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 4,2% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Em projeção anualizada, o volume pode chegar a 6,26 milhões de toneladas — praticamente três vezes acima da média histórica registrada entre 2000 e 2019.

Governo tenta equilibrar proteção e competitividade

As medidas adotadas pelo governo federal fazem parte de uma estratégia de defesa comercial voltada ao combate ao dumping — prática em que produtos são exportados a preços artificialmente baixos, muitas vezes inferiores aos custos de produção.

A preocupação aumentou após o agravamento do excesso de capacidade produtiva na China, maior fabricante mundial de aço. Com desaceleração da economia chinesa e queda no consumo interno, grandes volumes passaram a ser direcionados ao mercado internacional.

No Brasil, o governo elevou a tarifa de importação para dezenas de produtos siderúrgicos, especialmente aços planos e longos. A medida foi aprovada pela Câmara de Comércio Exterior (Gecex) e busca proteger a indústria local diante da forte concorrência internacional.

Ao mesmo tempo, autoridades tentam evitar impactos excessivos sobre setores industriais que dependem da matéria-prima importada.

Analistas avaliam que o desafio do governo será encontrar equilíbrio entre:

preservação da produção siderúrgica nacional;
manutenção da competitividade da indústria de transformação;
controle da inflação industrial;
segurança no abastecimento de insumos.
Custos logísticos e tensões globais ampliam pressão

Além da disputa comercial, o setor também enfrenta aumento de custos internacionais provocado pelas tensões geopolíticas globais.

Empresas do setor relatam elevação nos preços de frete marítimo, carvão, placas de aço e energia, especialmente após agravamento dos conflitos no Oriente Médio e mudanças nas rotas globais de navegação.

Segundo agentes do mercado, os custos de frete marítimo da Ásia para a América do Sul subiram de cerca de US$ 60-70 por tonelada para patamares entre US$ 80 e US$ 100 por tonelada nas últimas semanas.

O aumento pressiona tanto produtos importados quanto os custos da indústria doméstica.

Além disso, gargalos logísticos em portos brasileiros, dificuldades de classificação fiscal e atrasos operacionais continuam afetando o comércio exterior do setor siderúrgico.

Mercado aponta desaceleração nas importações

Apesar das preocupações persistentes, os primeiros números de 2026 mostram sinais de desaceleração das importações após o endurecimento tarifário.

No primeiro bimestre do ano, o Brasil importou 131,8 mil toneladas de aço, queda de 10,8% em volume e 13,8% em valor na comparação com o mesmo período de 2025.

Especialistas avaliam que a tendência para os próximos meses é de estabilização das compras externas, com maior concentração em aços especiais e ligas metálicas de alta complexidade — segmentos em que a produção nacional ainda possui limitações de escala ou tecnologia.

Ao mesmo tempo, o mercado seguirá monitorando os efeitos das medidas de defesa comercial e a evolução das tensões internacionais, fatores que devem continuar influenciando preços, competitividade e investimentos na indústria siderúrgica brasileira ao longo de 2026.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 05/05/2026