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Benjamin Steinbruch não descarta venda do controle da siderurgia do grupo CSN

O empresário Benjamin Steinbruch, controlador da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), avalia a possibilidade de vender o controle do setor de siderurgia do grupo, cuja principal unidade é a Usina Presidente Vargas (UPV), localizada em Volta Redonda, A informação foi publicada com exclusividade pelo jornal Valor Econômico, nesta segunda-feira (dia 26) .

Segundo a reportagem, a CSN realizou abordagens informais a empresas concorrentes para sondar o interesse na aquisição de uma participação relevante, ou até mesmo de 100% do negócio siderúrgico. As conversas fazem parte de um processo de revisão estratégica de ativos, iniciado pela companhia na segunda metade de 2025.

De acordo com fontes ouvidas pelo Valor, as tratativas vêm sendo conduzidas, por enquanto, pela própria empresa, que deverá contratar um banco de investimento para assessorá-la em um eventual processo de desinvestimento. A iniciativa está alinhada ao plano anunciado recentemente pela CSN de vender entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões em ativos, com o objetivo de reduzir o nível de endividamento do grupo .

A estratégia do conglomerado liderado por Steinbruch é priorizar os negócios de mineração e infraestrutura, considerados mais rentáveis e com melhores perspectivas de geração de caixa no médio e longo prazos. No caso da siderurgia, a avaliação interna é de que o setor seguirá pressionado pela concorrência do aço importado, especialmente de países asiáticos, além de exigir elevados volumes de investimento para manter competitividade .

Atualmente, a siderurgia é um dos pilares históricos da CSN, com destaque para a Usina Presidente Vargas, que marcou o desenvolvimento econômico de Volta Redonda e da região Sul Fluminense ao longo de décadas. Uma eventual venda do controle do setor pode representar uma mudança estrutural significativa no perfil do grupo.

A CSN não se manifestou sobre a possibilidade de venda do controle da área siderúrgica até o fechamento da reportagem. 


 


Fonte: Folha do Aço
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 26/01/2026

 

Aço: distribuidores defendem repasse gradual de reajustes e alertam para estoques elevados

O setor de distribuição de aços planos no Brasil avalia que os reajustes anunciados pelas usinas devem ser repassados aos clientes de forma gradual. O aumento, divulgado para janeiro, provocou uma antecipação de compras, elevando os estoques das distribuidoras acima da média histórica. A expectativa do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda) é de que os preços fiquem cerca de 12% superiores aos praticados em 2025.

“As usinas garantiram que implantaram o aumento para todo mundo. Nós é que não estamos conseguindo implantar o aumento para os nossos clientes, estamos implantando parcialmente, porque o nosso estoque dos distribuidores está muito alto. O anúncio de preço para janeiro fez com que houvesse uma antecipação muito grande, uma compra maior do que seria normal”, explica o presidente executivo da Inda, Carlos Jorge Loureiro.

Estoques acima do padrão histórico

O estoque das distribuidoras cresceu cerca de 50 mil toneladas, passando de 1,08 milhão para 1,13 milhão de toneladas.

“Apesar de dezembro ser um mês em que os estoques costumam aumentar, esse nível está acima do padrão. O normal seria algo em torno de 3,7 a 3,8 vezes o giro. Chegar a 4,5 vezes é muito elevado e está bem acima do que seria desejável”, afirma Loureiro.

Um novo reajuste pode ocorrer no fim de fevereiro, segundo o executivo, condicionado a uma reunião do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), que deve discutir as acusações de dumping feitas pelas siderúrgicas brasileiras contra a China.

A possibilidade de novo aumento também é vista como uma forma de pressionar as distribuidoras a anteciparem novas compras antes de um eventual reajuste adicional.

Um dos argumentos que embasam a acusação de dumping é a evolução dos preços do laminado a quente entre 14 de dezembro e 14 de janeiro. Nos Estados Unidos, o aumento foi de US$ 38 por tonelada, chegando a US$ 983. Na Europa, a alta foi de US$ 23, com a tonelada custando US$ 735. Já na China, a variação foi de apenas US$ 2, com o produto passando a US$ 405 por tonelada – valor bem abaixo da média mundial, de US$ 458.

O preço é classificado por Loureiro como “inacreditável”. “Há, de fato, dumping e um subsídio governamental muito forte ao aço chinês”, afirma. O tema deve ser discutido pelo governo brasileiro e, caso as irregularidades sejam confirmadas, a tendência é a aplicação de uma taxa adicional ou o estabelecimento de cotas para a importação do produto.

Perspectivas fracas para o início de 2026

De acordo com o presidente do Inda, o início de 2026 não deve ser positivo, conforme levantamento realizado junto aos associados, embora a expectativa seja de melhora no segundo semestre. A projeção inicial aponta para um crescimento modesto de 1,5% no ano.

“Estamos começando o ano com perspectivas ruins. Fizemos um levantamento com os associados e, embora possa haver alguma melhora nas próximas semanas, o desempenho inicial foi muito fraco. Caso se confirme a previsão de vendas de 285 mil toneladas, isso representaria um crescimento de apenas 15% em relação a dezembro. No entanto, em janeiro do ano passado, foram vendidas 320 mil toneladas, ou seja, estamos quase 11% abaixo do resultado anterior”, explica Loureiro.

A expectativa de redução nas importações de aço no segundo semestre pode contribuir para um desempenho melhor nos últimos seis meses do ano. Segundo o executivo, as importações podem recuar entre 15% e 20%. Ainda assim, o setor não prevê crescimento expressivo.

Importações atingem maior participação em dez anos

Os aços planos importados representaram 29,5% do total consumido no Brasil em 2025, percentual superior ao registrado em 2024 (22,5%) e em 2023 (23,4%), atingindo o maior patamar dos últimos dez anos.

Levantamento do Inda mostra que, na última década, as importações de aços planos cresceram 111%, passando de 1,579 milhão de toneladas em 2015 para 3,329 milhões de toneladas em 2025. O avanço se intensificou a partir de 2021, quando as importações superaram 2 milhões de toneladas.

A China segue como principal fornecedora, com mais de 2,3 milhões de toneladas em 2025, seguida pela Coreia do Sul, com quase 650 mil toneladas, e pelo Egito, com 141 mil toneladas.

“A China cresceu 0,6%, mas o grande destaque foi a Coreia do Sul, com crescimento de 380% nas exportações para o Brasil em relação ao ano anterior. O Egito também teve alta expressiva, de 240%”, destaca Loureiro.

Exportações crescem apesar das tarifas dos EUA

As exportações de aços planos cresceram 22,8% entre 2024 e 2025, passando de pouco mais de 6,5 milhões de toneladas para mais de 8 milhões.

“Apesar dos problemas relacionados ao dumping e das tarifas impostas pelos Estados Unidos, houve um crescimento significativo nas exportações de placas, que passaram de 6 milhões para 8 milhões de toneladas, um avanço de 22,8%”, comemora o presidente do Inda.

Os Estados Unidos foram o principal destino do aço brasileiro, respondendo por 46,6% das exportações, o equivalente a 469,5 mil toneladas. Segundo Loureiro, mesmo com o aumento das tarifas norte-americanas de 25% para 50%, as compras do produto brasileiro continuaram.

 
Fonte: Cidades & Minerais
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 23/01/2026

 

Distribuidores de aço plano esperam 3º ano de crescimento fraco em 2026

As vendas de aços planos por distribuidores no Brasil este ano devem subir 1,5%, o terceiro ano seguido de fraco crescimento, com um desempenho melhor no segundo semestre ante a primeira metade do ano, afirmou a Inda (Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço) nesta quinta-feira (22).

"O crescimento do ano (2025) foi muito fraco. Prevíamos 1,5% (de alta) e cresceu 1,3%", afirmou o presidente do Inda, Carlos Loureiro, nesta quinta-feira ao comentar o volume de 3,89 milhões de toneladas vendidas por distribuidores no ano passado. "Foram dois anos muito fracos, 1,1% em 2024 e agora 1,3%", acrescentou, citando como fator de pressão a importação de aço em grandes volumes pelo Brasil.

A venda dos distribuidores de aço plano em dezembro caiu 20,4% ante novembro e recuou 0,4% na comparação anual, para 248,3 mil toneladas. Para janeiro, a expectativa é de expansão de 15% ante o mês anterior, para 285,6 mil toneladas, mas isso representa uma queda de 10,8% na comparação com janeiro de 2025.

E depois de terem repassado aumentos de preços de 5% a 8% aos distribuidores em janeiro, as usinas estão indicando novos reajustes, de mesma intensidade, em fevereiro, disse Loureiro.

Mas a força de imposição deste segundo reajuste, disse o presidente do Inda, dependerá da decisão do governo de adotar ou não neste mês medidas antidumping contra importações de aço laminado a frio.

"O assunto do antidumping está sendo uma ameaça, mas não uma realidade", disse Loureiro, citando que desde o final do ano passado o setor siderúrgico tem aguardado as medidas de defesa comercial pelo governo, expectativa que em parte ajudou nas compras dos distribuidores em dezembro, que subiram 5,7% ante um ano antes.

"Todas as usinas garantiram que implantaram o aumento para todo mundo... Nós (distribuidores) é que não conseguimos implantar (aos clientes)", disse Loureiro, citando que, com isso, o estoque dos distribuidores terminou 2025 em nível "muito alto": a 1,129 milhão de toneladas, 11,4% acima do final de 2024 e equivalente a 4,5 meses de vendas.

O Inda espera uma queda nas importações de aço plano pelo Brasil este ano, em parte decorrente da expectativa sobre a adoção de sobretaxas pelo governo por conta dos processos antidumping, que além de laminados a frio e galvanizados incluem laminados a quente.

Segundo a entidade, as importações de aços planos no Brasil em dezembro subiram 66,6%, para 205,7 mil toneladas, encerrando o ano em alta de 24,1%, para 3,33 milhões. Loureiro afirmou que a partir do segundo trimestre deve ocorrer uma redução das importações, diante da queda nas filas de desembarques nos portos do país, notadamente no Sul, onde está a principal porta de entrada de aço no Brasil, o porto de São Francisco do Sul (SC).

"O último lineup deu menos de 500 mil toneladas, já chegou acima de 1 milhão de toneladas", afirmou.

Nas contas do Inda, no ano passado, a participação das importações em relação à produção nacional de aços planos chegou a 29,5%, maior nível dos últimos 10 anos. Já ante as vendas de aços planos no mercado interno a importação foi equivalente a 32,5%, também maior nível em 10 anos. Já considerando apenas as vendas dos distribuidores, as importações de aço no ano passado foram equivalentes a 85,5% do volume comercializado pelo setor. Em 2020, essa proporção era de cerca de 26%.

No ano passado, o maior exportador de aço ao Brasil foi a China, com 2,32 milhões de toneladas, 0,6% acima do volume de 2024, segundo os dados do Inda. O destaque das origens ficou com Coreia do Sul, que elevou as exportações de aços planos ao Brasil em quase cinco vezes em 2025, para cerca de 650 mil toneladas. O Egito também foi destaque, com crescimento das vendas ao Brasil que passaram de 40,7 mil toneladas em 2024, para 141,4 mil em 2025.

 
Fonte: CNN
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 23/01/2026

Brasil enfrenta desafios para se consolidar no mercado de terras raras

O Brasil detém 23% das reservas de terras raras do planeta, ficando atrás somente da China. Mas, o país ainda não tem legislação específica e infraestrutura adequada para extrair e aproveitar o potencial dessas riquezas naturais. Além disso, o impacto ambiental da extração dos minérios é um grande desafio.

Os estados de Minas Gerais, Goiás e Pará detém a maior concentração de terras raras. Por enquanto, o Brasil se limita à exportação em estado bruto dos minerais por falta, principalmente, de tecnologia e infraestrutura de processamento.

“Não basta ter a reserva mineral, a gente tem que ter também o parque para que haja a agregação de valor, a produção de um bem que tenha aplicação final para o consumidor”, afirmou Israel Lacerda, consultor legislativo especialista em minas e energia.

Os poderes Executivo e Legislativo concordam que é urgente regulamentar o setor, atrair investimentos e desenvolver a cadeia de valor, para agregar valor ao produto final e reduzir a dependência chinesa. No Parlamento, as discussões envolvem a necessidade de um marco legal para a exploração sustentável desses elementos críticos.

“Hoje, nós temos projetos de mineração de terras raras aqui no Brasil, a maioria na mão de empresas multinacionais, mas não estamos trabalhando o beneficiamento. Então, temos que romper essa situação que nós estamos de ser um mero exportador do produto bruto para, realmente, entrarmos na cadeia de maior valor agregado, que é fundamental para o nosso país”, declarou o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS).

Fernando Haddad, ministro da Fazenda (PT), concorda que o país precisa deixar de ser “um simples exportador de mais uma commodity”.

“Eu espero que nós possamos fazer com a Europa, com a China, com os Estados Unidos, que são nossos parceiros, acordos de cooperação tecnológica para agregar valor no Brasil. Concordo plenamente que tem que ser objeto de deliberação dos poderes da República, em especial do Congresso Nacional”.

Com a demanda global crescente e o incentivo a cadeias de suprimento fora da Ásia, o Brasil tem condições de se tornar um player relevante. As vantagens estratégicas incluem a matriz energética limpa, diversificação mineral, já que as terras raras são associadas ao nióbio, fosfato e estanho, e o interesse crescente de empresas internacionais e fundos de inovação.

 
Fonte: PB News
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 23/01/2026

Novo resultado fraco derruba Brasil em ranking da indústria global

A produção industrial brasileira cresceu menos de um terço do observado na média da indústria global, no terceiro trimestre de 2025, segundo estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), feito com base em dados da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido, na sigla em inglês) e antecipado ao Valor.

No levantamento, a atividade industrial no país cresceu 0,2% no trimestre encerrado em setembro de 2025, ante o segundo trimestre do ano passado. No mesmo período comparativo, a indústria global manufatureira mostrou alta de 0,7%, na produção. Ante mesmo trimestre de ano anterior, o quadro foi pior. Enquanto a indústria global mostrou alta de 3,9%, a indústria no Brasil teve queda de 0,6% na produção.

O fraco desempenho fez com que o Brasil caísse cinco posições, na passagem do segundo para o terceiro trimestre, no ranking global de atividade industrial do Iedi. Na listagem, feita com informações de 80 países, o Brasil caiu para 65ª posição. Na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, o tombo foi pior: queda de 44 posições no terceiro trimestre do ano passado.

Juros altos por período prolongado de tempo foram a razão para a performance ruim até setembro do ano passado, afirmou Rafael Cagnin, diretor-executivo do Iedi.

Atualmente a Selic, taxa básica de juros que norteia juros de mercado, opera a 15% ao ano, maior patamar desde 2006 e está nesse nível há seis meses. O juro elevado diminui o ritmo industrial em duas frentes, disse Cagnin. Reduz o consumo interno via crédito, o que afeta negativamente encomendas à indústria. Por outro lado, notou, deixa mais caro, para o industrial, o capital de giro via financiamentos - necessário à indústria, para compra de maquinário e consequente modernização.

Cagnin explicou que, mesmo com perspectiva de corte na Selic em 2026, não acredita em grande retomada da indústria neste ano. “Um corte [da Selic] só teria efeito [na economia real] no fim do ano”, explicou. Ele lembrou que cortes na taxa básica de juros têm efeito defasado no mercado, de seis a oito meses.

No estudo, o especialista comentou que o tombo da atividade industrial brasileira foi expressivo o suficiente para influenciar a média da produção industrial latino-americana. No terceiro trimestre de 2025, a América Latina mostrou recuo de 0,6% ante o segundo trimestre. Na comparação com o terceiro trimestre de 2024, o recuo foi de 0,1%, na produção industrial latino-americana.

Outro aspecto que ajuda a explicar o menor ritmo de avanço industrial, ante a média mundial, tem a ver com o fator estrutural, acrescentou o economista.

De acordo com ele, a indústria manufatureira global tem cerca de 45% de estrutura industrial focada em ramos de alta e média-alta tecnologias. São aqueles impulsionados por automação, digitalização, inteligência artificial e tecnologias “descarbonizantes” - como placas solares. Esses têm apresentado maior demanda nos últimos anos. Isso ajuda a explicar a média global industrial, com saldo positivo, até terceiro trimestre, notou.

No Brasil, essa fatia estrutural não chega a 30% da indústria de transformação. Isso porque setores de alta e média-alta tecnologia, além de mais dinâmicos globalmente, são mais dependentes de juros por serem muito impulsionados via crédito. Significa que em ambiente de juros altos investir em tais campos torna-se mais caro do que em outros países.

Assim, tendo em vista fatores conjunturais, como juros altos, e estruturais da indústria, o especialista comentou ser “muito provável” que o Brasil continue na “segunda metade do ranking global”, no quarto trimestre de 2025.

Esse ritmo mais fraco da indústria pode prosseguir este ano, reiterou. Isso porque, segundo ele, as atuais condições que derrubaram a produção industrial brasileira devem continuar a operar na maior parte de 2026.

Para a retomada sustentável e de longo prazo na indústria, Cagnin defendeu algumas mudanças no quadro macroeconômico, especialmente nas taxas de juros que são, no entendimento dele, “sistematicamente altas”.

Entre as recomendações, está incorporar a reforma tributária, simplificando impostos, para a cadeia industrial. Outras linhas de ações defendidas foram redução de custos de energia à indústria e alocação de investimentos na formação de cadeias produtivas de tecnologias descarbonizantes.

Também para 2026, o técnico disse ainda esperar alguma acomodação na produção da indústria mundial. Isso porque o mundo opera com grau elevado de incertezas devido à nova condução da geopolítica global pelo presidente americano Donald Trump. Ambientes assim, disse, não estimulam novos investimentos por parte da indústria global.

 

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 22/01/2026

 

Momento é favorável para o Brasil aprovar medidas antidumping de aço sobre a China, diz Giannetti

O economista Roberto Giannetti da Fonseca avalia que a aprovação das medidas antidumping aguardadas pelo setor siderúrgico para este trimestre deve dar um fôlego para que a indústria nacional recupere mercado. Essas iniciativas englobam produtos de aço laminado a frio e revestidos vindos da China.

“Claro que eu preferiria ter um mundo sem tarifas, mas às vezes você tem de ser realista: a tarifa é necessária, a tarifa é indispensável, se não mata-se o paciente, mata-se a indústria”, afirmou ao Estadão/Broadcast o ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex) — de 2000 a 2002, no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso — e ex-diretor titular de Relações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) — de 2004 a 2013.

Ele avalia que esse fôlego permitirá ao governo, em parceria com as empresas, pensar em uma agenda de competitividade para o setor, ante a necessidade de rever outros pontos que tornam o aço brasileiro caro.

A seguir, os principais pontos da entrevista:

Qual seria o efeito de medidas antidumping na situação da indústria siderúrgica hoje?

Temos um coeficiente de importação de aço chinês para o Brasil num nível que já preocupa a própria sobrevivência da indústria siderúrgica brasileira. Quase um terço do aço usado no Brasil hoje é importado, e isso é um paradoxo. Somos um país que tem todas as condições de competitividade, matéria-prima, melhor minério de ferro do mundo. Não nos falta nada. Mas temos desvantagens competitivas que têm agravado e prejudicado a indústria: excesso de carga tributária, inclusive nas exportações; logística deficiente; e o custo do capital. Temos um juro real que é insuportável. As indústrias consumidoras de aço reclamam do custo do aço brasileiro com razão. Eles conseguem comprar mais barato o aço importado. O aço importado na origem é subsidiado e vendido para o exterior abaixo do preço do mercado interno. Então, quando se tem essa evidência de uma concorrência desleal e já há uma desvantagem competitiva, a situação é extrema. Ou se conserta isso, ou a indústria vai morrer, vai acabar.

Esses custos elevados para se produzir no Brasil também denotam falta de tecnologia nas siderúrgicas do País?

A defasagem tecnológica se dá pela falta de apetite para investir. As empresas não têm segurança de que vão ter retorno. O custo do capital é elevado. O custo de investimento (capex) por tonelada de capacidade instalada de aço varia significativamente com base na tecnologia (alto-forno ou forno elétrico a arco), localização da planta e se é uma planta nova (greenfield) ou expansão (brownfield). Em média, os novos projetos siderúrgicos que temos avaliado no Brasil, na Índia, e na China indicam respectivamente custo por tonelada de capacidade instalada de aço de US$ 1,1 milhões no Brasil, US$ 800 mil na Índia, e US$ 500 mil na China. Ou seja, no Brasil temos um capex onerado pelo elevado custo do capital no processo produtivo dos equipamentos e montagem industrial, alto custo da mão de obra e da logística envolvida, e carga tributária sobre os investimentos. Com a reforma tributária em curso estima-se uma redução na carga tributária sobre investimentos. Mas persistem as demais desvantagens competitivas apontadas.

E o que é possível fazer para melhorar essas condições?

Uma medida tomada pelo (vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) Geraldo Alckmin é o programa de depreciação acelerada, que proporciona menor imposto de renda. Como consequência, haverá menos endividamento, menor dependência de bancos e de custo de capital caro. É uma medida, por exemplo, que poderia ser reforçada para o setor siderúrgico, já que o resultado disso se refletiria na indústria automobilística, na indústria de eletroeletrônicos e de máquinas e equipamentos, todos que são utilizadores de aço. Política industrial virou um nome pejorativo durante um tempo. Nós estamos resgatando. O mundo todo está praticando política industrial. As próprias tarifas de importação são parte disso. Os países estão se protegendo. Claro que eu preferiria ter um mundo sem tarifas, mas às vezes você tem que ser realista: a tarifa é necessária, a tarifa é indispensável, se não mata-se o paciente, mata-se a indústria.

A aprovação de medidas antidumping, esperadas para o primeiro trimestre, para produtos chineses laminados a frio e revestidos resolveria apenas uma parte do problema, então?

Sim, a medida (antidumping) tem o sentido de dar uma proteção temporária para que a indústria ganhe fôlego, recupere o seu mercado interno e consiga, com isso, agilizar modernização e investimento. Ao mesmo tempo, é preciso que o governo discuta — porque algumas coisas dependem do governo — a política industrial, faça uma agenda de competitividade para o setor siderúrgico. Isso tem de ser tratado com uma espécie de força-tarefa. Tem de ser um plano de parceria público-privada que coloque realmente gente competente do governo e do setor privado pensando, agindo, realizando iniciativas para que daqui a três ou cinco anos o setor siderúrgico diga: ‘Não preciso mais de proteção tão alta. Vamos trabalhar com 10%, 12%, 8% e o setor sobrevive’.

Já houve algum momento em que a indústria disse isso?

Eu exportava aço para a China, para o Japão e para a Coreia na década de 80. Eu sou testemunha viva de que o Brasil foi, e foi muito, competitivo. Claro que ainda se exporta, mas pouquíssimo. O que precisamos pensar também é na venda, tanto quanto possível, de produtos de valor agregado, inclusive do aço transformado. Quando se exportam automóveis, máquinas, produtos elétricos e eletrônicos, se está também exportando o aço. E temos de ter uma política de exportação que busque também valorizar a agregação de valor. A reforma tributária vai facilitar isso, porque ela permite uma recuperação de impostos da cadeia produtiva de uma forma mais rápida.

Qual é a chance de, por exemplo, esse alto volume de importação da China começar a fazer outras rotas comerciais e chegar ao Brasil por outros países, burlando esse antidumping?

Acontece, sim, às vezes, a tentativa de triangulação. Temos de ficar espertos nos fluxos. Se houver, por exemplo, um aumento de exportação da Índia para o Brasil e verificarmos uma triangulação, devem ser tomadas medidas compensatórias.

Qual a perspectiva de aprovação de medidas antidumping para o setor hoje?

O momento está muito favorável para aprovação dos antidumpings. Primeiro, porque (os dumpings) estão, de fato, ocorrendo. Houve uma época em que era muito difícil se investigar essas ocorrências, porque não havia muita informação. Hoje a informação está mais fluida, mais transparente. É fácil obter informações para fazer um processo consistente. E também esse tumulto do tarifaço, dessa desorganização que aconteceu com o comércio mundial criou um ambiente mais aberto para proteção de mercado. Virou quase um efeito manada. Todos os países estão olhando uma forma direta ou indireta de proteção do seu mercado. A começar pelos Estados Unidos, que fazem isso de forma agressiva.

 
Fonte: Estadão
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 22/01/2026