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2025: o ano em que o aço virou arma geopolítica nas Américas (e além)

O ano de 2025 marcou uma virada estrutural para a indústria siderúrgica nas Américas, impulsionada principalmente pelo retorno agressivo da política “America First” de Donald Trump. Tarifas deixaram de ser apenas instrumentos comerciais e passaram a funcionar como ferramentas centrais de reengenharia das cadeias globais de suprimento.

Desde o início do ano, o mercado já antecipava um endurecimento. Executivos de siderúrgicas norte-americanas defendiam abertamente tarifas mais severas, especialmente contra Canadá e México. Em março, essa expectativa se materializou: os EUA reinstauraram tarifas de 25% sobre todo o aço e alumínio, eliminando exceções regionais sob a Seção 232. Poucos meses depois, o patamar dobrou para 50%, fechando de fato o mercado americano às importações.

A escalada não parou aí. Automóveis passaram a ser tarifados, produtos derivados de aço foram incluídos em massa, e tarifas “recíprocas” foram impostas a quase todos os parceiros comerciais, sob poderes emergenciais raramente usados. O efeito imediato foi uma elevação artificial dos preços internos — sustentada por proteção, não por demanda.

EUA: proteção máxima, demanda fraca

Apesar do discurso de fortalecimento da indústria doméstica, a realidade foi mais ambígua. Mesmo com tarifas recordes, empresas como a Cleveland-Cliffs paralisaram usinas por falta de demanda. O setor de tubos OCTG, o automotivo e o agrícola sentiram o impacto direto dos custos mais altos e da retração do consumo.

As montadoras americanas sofreram perdas relevantes em 2025, num setor que responde por quase metade da demanda de aços planos e longos especiais. Ao mesmo tempo, projetos de reshoring avançaram — como o investimento bilionário da Hyundai na Geórgia — evidenciando que as tarifas funcionaram mais como indutoras de localização industrial do que como motor de crescimento imediato.

Canadá e México: danos colaterais severos

Se nos EUA os efeitos foram mistos, no Canadá foram devastadores. Tarifas de 50% praticamente expulsaram o aço canadense do mercado americano. A Algoma Steel tornou-se símbolo da crise: prejuízo bilionário, custos tarifários elevados e paralisação de altos-fornos. O episódio culminou em litígios comerciais e no colapso de contratos históricos.

No setor automotivo canadense, decisões estratégicas das montadoras passaram a privilegiar os EUA, colocando milhares de empregos em risco em Ontário. As relações comerciais entre Washington e Ottawa se deterioraram rapidamente, culminando na suspensão de negociações e novas tarifas adicionais.

Consolidação e sobrevivência

Com margens comprimidas e volatilidade extrema, fusões e aquisições aceleraram. Distribuidores e centros de serviços buscaram escala e proteção, enquanto siderúrgicas recorreram a parcerias estratégicas como tábua de salvação financeira. A aliança Cleveland-Cliffs–POSCO exemplificou esse movimento.

O efeito dominó: Europa e América Latina

O protecionismo americano reverberou globalmente. A União Europeia respondeu com um pacote ainda mais rígido de salvaguardas, cortes drásticos em cotas de importação e uma rede crescente de medidas antidumping. O CBAM adicionou uma camada extra de custo e complexidade, tornando a importação de aço um exercício quase proibitivo.

No Brasil e na América Latina, o temor de desvio de comércio reacendeu políticas defensivas. Ainda assim, o aço chinês continuou a aparecer, muitas vezes por vias informais ou com documentação manipulada — um problema que líderes regionais passaram a tratar como estrutural.

Descarbonização: ambição encontra realidade

Enquanto governos exigem aço verde, a conta não fecha. Custos elevados de energia, permissões de carbono acima de €80/t e hidrogênio verde a preços proibitivos levaram siderúrgicas europeias a rever ou cancelar projetos de DRI. A transição energética segue no discurso, mas o ritmo desacelerou drasticamente.

2026 no horizonte: mais regras, menos clareza

Com novas salvaguardas, CBAM em pleno funcionamento e demanda real ainda frágil, o mercado europeu entra em 2026 mais protegido — e mais caro. Os preços sobem não por consumo, mas por medo regulatório. A pergunta central permanece sem resposta: os produtores vão aumentar a utilização de capacidade, mesmo pagando mais por carbono e energia?

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 09/01/2026

 

Trump ordena saída dos EUA de mais de 60 organizações internacionais

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta quarta-feira (7) uma proclamação que determina a retirada do país de 35 organizações não vinculadas às Nações Unidas e de outras 31 entidades que integram o sistema da ONU.

De acordo com comunicado divulgado pela Casa Branca, a decisão foi tomada porque, na avaliação do governo americano, esses organismos “operam contrariamente aos interesses nacionais dos Estados Unidos”.

A maioria das entidades afetadas é composta por agências, comissões e painéis consultivos ligados à ONU que atuam em áreas como mudanças climáticas, direitos trabalhistas e políticas sociais. O governo Trump classifica essas iniciativas como alinhadas a pautas de diversidade e ao que define como agenda “woke”.

Entre as organizações das quais os EUA anunciaram a saída estão a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

O governo americano já havia suspendido anteriormente o apoio a outras instituições internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), o Conselho de Direitos Humanos da ONU e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Desde o início do atual mandato, Trump tem adotado uma postura mais seletiva em relação ao pagamento das contribuições financeiras à ONU, priorizando operações e agências que considera alinhadas à sua agenda política e deixando de financiar aquelas que, segundo o governo, não atendem mais aos interesses dos Estados Unidos.

“Acho que o que estamos vendo é a cristalização da abordagem dos EUA ao multilateralismo, que é ‘ou do meu jeito ou nada feito’”, afirmou Daniel Forti, analista sênior sobre a ONU no International Crisis Group. Segundo ele, trata-se de uma visão que busca a cooperação internacional exclusivamente nos termos de Washington.

 
Fonte: Diário Indústria & Comércio
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 08/01/2026

 

Como o Brasil pode se tornar protagonista global na corrida dos minerais críticos?

Para ser protagonista na produção de minerais e metais críticos, o Brasil tem de acelerar medidas de apoio e regulamentações. Só assim poderá tirar proveito do ciclo de bonança de demanda global que se projeta para os próximos cinco a dez anos. Essa categoria de minerais ganhou evidência no mundo devido a suas aplicações estratégicas na indústria de alta tecnologia e na transição energética. O País está qualificado, pois detém reservas importantes de terras raras, nióbio, lítio e grafite e, em menor peso, níquel e cobre.

Eis a visão de especialistas, como Patrícia Seoane, sócia e líder do setor de Mineração e Siderurgia da PwC no Brasil. “O Brasil está bem atrasado na pauta de minerais críticos”, disse em entrevista ao Estadão. Quem também compartilha essa visão é Frederico Bredan, que tem longa vivência na área de mineração e foi nomeado diretor executivo da Associação de Minerais Críticos (AMC).

A entidade, criada em novembro, começou reunindo nove empresas desse segmento no País, a maioria estrangeiras e praticamente todas com projetos em fase pré-operacional no Brasil.

Na avaliação de Seoane, o país que detém reservas desses minerais terá no futuro grande poder político, se criar um arcabouço estratégico e dispor de condições para avançar na cadeia produtiva. Não à toa, vimos durante 2025 um grande embate entre Estados Unidos e China pelo controle da oferta de minerais estratégicos, caso de ímãs obtidos de elementos de terras raras.

O país asiático domina mais de 60% da produção e cerca de 85% da capacidade global de processamento de terras raras e grande parte das etapas intermediárias de minerais como grafita, vanádio e lítio, aponta estudo da PwC. A República Democrática do Congo, por sua vez, responde por mais de 60% da produção mundial de cobalto. E a Indonésia se tornou um player mundial de peso em níquel.

O Brasil é dono da segunda maior reserva de terras raras, porém só conta com uma mina em estágio inicial de produção, no norte de Goiás. Do concentrado, para se obter os principais ETR, tem de enviar o material para a separação e o refino serem feitos em instalações chinesas que dispõem da tecnologia.

O País está entre os dez principais produtores de níquel, manganês, nióbio, ferro e bauxita — e tem ampliado sua relevância com o crescimento acelerado da produção de lítio (já figura como o quinto maior produtor e tem vários outros projetos a caminho), grafita natural, terras raras (23% das reservas), vanádio e cobre.

Bedran, da AMC, diz ser este um momento — geopolítico e econômico — oportuno para alavancar os projetos em curso no País. “O grande desafio é dar celeridade a esses projetos. Temos um ciclo de três a quatro anos para começar a ofertar esse material ao mercado”, afirma.

Segundo o executivo da AMC, países da África, o Canadá e a Austrália dão maior previsibilidade ao investidor, enquanto no Brasil não é possível saber quando uma licença (prévia ou de instalação) vai sair. “É crucial que, em 2029, todas as empresas com investimento em curso estejam produzindo.”

Desde 2024, no Congresso Nacional está em discussão projetos de lei para criar uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, visando incentivar a exploração e o beneficiamento de minérios como lítio, terras raras e grafite, essenciais para a transição energética e tecnologia. Há propostas de benefícios fiscais, fundos de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) e um marco regulatório para agilizar licenciamentos. Estão em tramitação na Câmara o PL 2780/2024 e no Senado o PL 4443/2025.

Um fundo para o segmento de minerais críticos e estratégico (Fundo de Investimento em Participações-FIP), no valor de R$ 1 bilhão, foi criado pelo BNDES, com a Vale, no ano passado. É voltado para empresas júnior e de médio porte que atuam na pesquisa, desenvolvimento e implantação de minas de minerais essenciais à transição energética e descarbonização.

O banco aprovou R$ 250 milhões; e a mineradora, o mesmo valor. Duas gestoras foram selecionadas para fazer a captação dos demais R$ 500 milhões e atrair projetos de investidores.

Seoane destaca a definição de uma lista essencial de minerais críticos dentro de uma política pública voltada ao setor. “É chave a determinação de um direcionamento, sob o ponto de vista de uma cadeia produtiva, para avançar além da extração e produção de concentrado”. Avalia que tem de atrair investimentos nas etapas de separação e refino, que estão sob o controle da China.

Por exemplo, uma tonelada de minério de lítio (espodumênio) com teor de 6% pode ser exportada por cerca de US$ 800, enquanto o hidróxido de lítio grau bateria pode ultrapassar US$ 8 mil. “A escolha entre exportar minério e exportar inovação define a receita de curto prazo e o posicionamento estratégico”, afirma a especialista.

A executiva e sócia da PwC cita o exemplo da Indonésia. Era um mero produtor de níquel. Ao se montar plano estratégico, com atração de investimentos e restrições à exportação de concentrado do metal, tornou-se um participante de peso no mercado mundial. De 2019 a 2024, houve investimentos de US$ 2,3 bilhões e saiu de duas para 60 unidades industriais de processamento do níquel extraído. A Indonésia, atualmente, responde por cerca de dois terços da oferta mundial.

Iniciativas como o fundo do BNDES, de financiamento a baixo custo, a aprovação de um Plano Nacional de Mineração-2050 e regulamentações legais são consideradas essenciais para se ter um setor competitivo, além de segurança jurídica, capacitação de mão de obra, malha logística para escoamento da produção, mapeamento geológico e menor burocracia nos licenciamentos ambientais. “Um plano estratégico é crucial para oferecer maior segurança ao investidor”, afirma Seoane.

A nova onda mineral

A demanda global por minerais como lítio, grafita, cobalto, níquel e terras raras deverá crescer de forma acentuada até 2040, diz o estudo da PwC, citando dados da Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês). Para alguns minerais, a previsão é multiplicar-se até quatro vezes em relação aos níveis atuais de consumo.

Para chegar ao protagonismo no mercado de minerais críticos, exige-se mais do que riqueza mineral. Há desafios logísticos, regulatórios e tecnológicos, apontam os especialistas da PWC, além de agregar valor à produção, superando o modelo de exportação primária.

Qual é o papel desses recursos minerais?

De forma sucinta, esses recursos minerais classificados como críticos, estratégicos e raros são associados a suprimento e importância industrial decisiva; uso em aplicações sensíveis à segurança nacional e autonomia tecnológica; e abundância relativa na natureza (os raros). São bens essenciais na transição para uma economia de baixo carbono, que depende de inovação tecnológica, decisões políticas, capital financeiro e recursos minerais, destaca o estudo.

Na transição energética, o lítio é elemento-chave das baterias de íon-lítio, utilizadas em veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia estacionária. O cobalto vai nos cátodos das baterias de íon-lítio devido à alta densidade energética e estabilidade térmica, enquanto o cobre está presente na eletrificação, em geral, em razão da alta condutividade elétrica — de motores elétricos à infraestrutura de recarga.

Menos conhecida, a grafita (natural ou sintética) é o principal material para fabricação de ânodos de baterias de íon-lítio. O velho conhecido manganês, presente em pilhas e em ligas de aço, ganhou evidência ao ser empregado em químicas emergentes de baterias de carros elétricos que têm lítio ou níquel-cobalto.

O níquel está em ligas metálicas e, com destaque, em baterias de alta performance para carros elétricos. O vanádio sobressai pelo uso em baterias de longa vida útil para armazenamento estacionário de energia renovável.

As terras raras, mineral alvo de disputa entre as duas grandes potências do mundo, EUA e China, e cobiçado por outras de alta relevância (as europeias) têm quatro dos 17 elementos considerados mais críticos: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. São usados na produção de ímãs permanentes, os quais têm aplicações na fabricação de turbinas eólicas, além de equipamentos sensíveis de defesa militar e diversas outras aplicações industriais.

O futuro da mineração será determinado por quem conseguir antecipar as grandes transformações já em curso. Segundo análise da PwC, sete megatendências moldarão o setor até 2035:

Crescimento populacional e urbanização;
Transição energética;
Impactos ambientais e climáticos;
Tecnologia, inovação e automação;
Capital humano;
Acesso a financiamento; e
Política e regulação governamental.
“As nações industrializadas têm promovido políticas voltadas à independência estratégica de recursos, buscando diversificar fornecedores e fomentar cadeias de valor locais ou regionais com maior valor agregado. É dentro dessa nova lógica que o valor dos minerais críticos migra da lavra para o refino, a transformação e a integração tecnológica”, destaca o estudo.

O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) estima que projetos de minerais críticos deverão receber cerca de R$ 100 bilhões de investimentos entre 2025 e 2029 no Brasil. Para a PwC, o País está diante de uma oportunidade rara: ser ao mesmo tempo potência mineral e ator relevante na construção de cadeias industriais de baixo carbono. Porém, conclui, isso exige estratégia, coordenação e ambição industrial.

Nova porta-voz no setor

A AMC, que reúne empresas com investimentos em minerais críticos no Brasil, terá um papel de porta-voz desse segmento, com a experiência técnica de que dispõe, afirma o diretor executivo, Frederico Bredan.

Ele elege três pautas prioritárias: acesso a linhas de financiamento (o BNDES dispõe de linhas, mas empresas em fase pré-operacional não conseguem dar as garantias exigidas); agregar valor na cadeia de produção (uma forma são benefícios fiscais para atrair investimento) e discussão sobre o processo de licenciamento ambiental, envolvendo todas as entidades ( de órgãos estaduais a institutos ligados ao meio ambiente).

A entidade foi formada com empresas em fase de investimento na exploração: em terras raras, Aclara, em Goiás, e Meteoric e Viridis, em Minas Gerais; em lítio (PLS, da Austrália, e Lithium Ionic, do Canadá); em níquel, Atantic Nickel e Centaurus; e em grafite, Grapchcoa e Graph+. A Atlantic Nickel é a única companhia em produção, de níquel sulfetado, e tem um projeto de expansão da capacidade nas suas operações na Bahia.

Na avaliação de Bedran, o cenário internacional para os minerais críticos é positivo. “A demanda é três a quatro vezes o volume ofertado. Em ETR, há uma disputa por suprimento por parte de consumidores”, afirma, lembrando que o Ocidente está tentando se posicionar para ser mais protagonista nesse mercado.

O lítio vive um momento de dificuldade no que se refere a preços, com queda superior a 80% desde meados de 2023 devido à entrada de novos ofertantes e à desaceleração na fabricação de carros elétricos.

A AMC previa, em dezembro, a adesão de mais seis empresas à entidade, como a australiana St. George Mining, que tem um projeto para extração de nióbio e terras raras em Araxá (MG).

 
Fonte: Estadão
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 08/01/2026

 

Safra recorde no país acentua aperto na armazenagem de grãos

A capacidade de armazenagem de grãos foi ampliada no Brasil no último ano, com investimentos de agricultores e indústrias, mas o cenário segue crítico, com um déficit de mais de 120 milhões de toneladas, segundo estimativa da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Esse gargalo complica a estratégia de vendas dos produtores, que tiveram atrasos no plantio da soja da safra 2025/26, com as chuvas irregulares no fim do ano passado e terão uma colheita concentrada em fevereiro e março.

A última estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra de grãos 2025/26 é de uma produção de 354,4 milhões de toneladas. Já a capacidade de armazenagem de produtos agrícolas no Brasil atingiu 231,1 milhões de toneladas no primeiro semestre de 2025, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um aumento de 1,8% em relação ao semestre anterior. Se toda a colheita 2025/26 fosse armazenada, essa capacidade seria suficiente para estocar 67% da produção esperada.

“A capacidade efetiva é ainda menor, se consideramos que parte desses armazéns já está com estrutura obsoleta sem condições adequadas para conservação dos produtos agrícolas”, diz Paulo Bertolini, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Equipamentos para Armazenagem de Grãos (Cseag) da Abimaq.

Ele estima que, por ano, o déficit de armazenagem cresce uma média de 5 milhões de toneladas de grãos, já que as safras crescem em ritmo mais acelerado que a infraestrutura. “O cenário para 2026 é bastante desafiador para investimento em infraestrutura, com juros altos, aumento da inadimplência do agronegócio, queda na renda do produtor”, avalia Bertolini.

Por outro lado, observa, a instalação de usinas de etanol de milho, com suas estruturas próprias de armazenagem de matérias-primas, cria uma nova demanda de milho em regiões de fronteira agrícola, o que ajuda a reduzir a pressão por infraestrutura. “Ainda assim, o nível de armazenagem dentro das fazendas continua muito baixo, de 15% a 16% do total”, diz Bertolini.

O descasamento entre capacidade de armazenagem e produção influencia diretamente a formação de preços. Sem estrutura de estocagem, os produtores se veem obrigados a vender boa parte da safra logo após a colheita, com descontos mais expressivos nas principais praças, segundo Cesar de Castro Alves, chefe da consultoria agro do Itaú BBA. “Essa volatilidade pode ser maior neste ano se considerarmos que as vendas futuras de soja estão atrasadas em relação à safra passada”, observa.

Bernardo Nogueira, CEO da Kepler Weber, maior empresa do segmento no país, diz que a demanda por armazéns por parte de usinas de etanol de milho e biodiesel cresce enquanto há uma retração nas encomendas por parte de agricultores. A empresa registrou queda de 3,3% na receita operacional líquida de vendas de soluções para fazendas nos nove primeiros meses de 2025, somando R$ 377,3 milhões, e recuo de 12,2% na receita de vendas para agroindústrias, a R$ 360,9 milhões.

As causas foram a queda nos preços das commodities, os custos atrelados ao dólar, o crédito escasso e os juros altos que afetam a capacidade de investimento do setor. A companhia informou que as negociações foram mais tardias em 2025 e houve uma carteira “mais interessante” para agroindústrias na virada do ano.

“A expectativa para 2026 é de uma demanda aquecida. O volume de silos, secadores e máquinas de limpeza está no nível recorde. Será um ano de volume recorde de equipamentos para armazenagem. As margens vão ser mais apertadas, mas com volume robusto”, afirma Nogueira.

Entre projetos que têm demandado equipamentos para silagem e armazenagem ele cita o da Cocamar Cooperativa Agroindustrial, de Maringá (PR), que investe R$ 1,5 bilhão entre 2024 e 2027 em um complexo de esmagamento de soja e produção de biodiesel, com terminal rodoferroviário e armazéns para 400 mil toneladas de capacidade estática de grãos.

Outro exemplo citado por ele é o da usina de etanol de trigo e de DDG (Grãos Secos de Destilaria) da Be8 em Passo Fundo (RS), um projeto orçado em R$ 1,1 bilhão, que inclui um complexo de beneficiamento e armazenagem de grãos com capacidade para 160 mil toneladas de trigo.

Ricardo Marozzin, presidente da Grain & Protein Tecnologies, detentora das marcas GSI, Cumberland, AP e Agromarau, diz que no segmento de proteína animal, a perspectiva é de demanda aquecida com a agroindústria buscando ganho de escala e inovação na exportação.

“No segmento de grãos, os fazendeiros seguirão muito desafiados em função das margens apertadas e do alto custo de produção, além de obrigações contratadas em ciclos anteriores que reduzem a disponibilidade de fluxo de caixa”, afirma Marozzin.

Já as indústrias de processamento de grãos e de biocombustíveis, acrescenta, devem seguir investindo em aumento da capacidade estática de armazenagem, como forma de proteção de custeio ou para uso de insumos ao longo do ano. “Então, entendemos que o ambiente de armazenagem vai ser neutro, não mudam muito os fundamentos em relação ao que vivenciamos, confrontamos ao longo de 2025”, diz o executivo.

 
Fonte: Globo Rural
Seção: Agro, Máquinas & Equipamentos
Publicação: 08/01/2026

 

Mais de 1/4 da importação do Brasil tem origem na China

Num 2025 marcado pela resiliência das importações no primeiro semestre e pelo aumento das exportações à China em meio ao tarifaço americano na segunda metade do ano, o superávit de US$ 68,3 bilhões da balança comercial brasileira foi maior que o esperado inicialmente, mas menor do que os US$ 74,2 bilhões de 2024. A China se manteve na liderança absoluta tanto entre os destinos dos embarques brasileiros como nas origens das importações. Nas compras externas, bateu novo recorde, responsável por mais de um quarto - 25,3% - das compras externas brasileiras em 2025.

O saldo de 2025 foi resultado de US$ 348,7 bilhões em exportações e US$ 280,4 bilhões em importações, segundo divulgou ontem a Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic). A queda de superávit ante 2024 é explicada pelo ritmo maior de crescimento dos valores importados, que subiram 6,7%, quase o dobro da taxa de alta de 3,5% na receita de exportação. Como houve expansão, exportações, importações e corrente de comércio alcançaram em 2025 o maior patamar da série histórica.

Para 2026, apontam economistas, as incertezas vão desde o resultado das negociações do que ainda segue sobretaxado pelos Estados Unidos até as novas medidas protecionistas que vieram do México e da China, sem esquecer dos impactos que a operação americana na Venezuela pode ter na geopolítica entre os países vizinhos ao Brasil. Também há expectativas positivas, como o desfecho do acordo comercial entre União Europeia (UE) e Mercosul.

Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) o nível de incertezas pode explicar a amplitude da estimativa da Secex para este ano, que projeta superávit comercial brasileiro em um intervalo entre US$ 70 bilhões a US$ 90 bilhões.

O dinamismo da balança em 2025 ajuda a explicar isso, avalia Castro. “O resultado de 2025 foi bem superior ao que todos imaginavam no início do ano passado, quando os saldos estavam fracos porque as importações ainda cresciam acima do esperado. No segundo semestre houve desaceleração da importação e as exportações tiveram aumento que não era previsto por ninguém.” A Secex projetava superávit de US$ 61 bilhões em 2025, US$ 7,3 bilhões abaixo do observado. As exportações de soja à China, destaca Castro, ganharam mais força no decorrer do segundo semestre e romperam a sazonalidade histórica, permanecendo relativamente fortes até dezembro.


"Há expectativa da resolução definitiva do impasse do tarifaço”
— André Valério

Os dados da Secex mostram que no primeiro semestre de 2025 as exportações da soja somaram US$ 25,4 bilhões, com queda de 9,2% ante igual período de 2024. Já de julho a dezembro de 2025 somaram US$ 18,2 bilhões, com alta de 20,9%. No ano de 2025 fecharam com alta de 1,4% em receita de exportação. Com safra recorde, o volume embarcado de soja em 2025 cresceu 9,5%, mas os preços amargaram queda de 7,4%. A China absorveu, em 2025, 77% dos embarques brasileiros de soja. O grão respondeu por 34% da exportação aos chineses em 2025, seguida por petróleo e minério de ferro, com 20,1% e 19,5%, nessa ordem.

Para Lucas Barbosa, economista da AZ Quest, a balança comercial brasileira em 2025 mostrou resiliência, com pauta de exportação de produtos mais diversificada. Para 2026, estima Barbosa, o superávit pode alcançar US$ 75 bilhões. O cenário, diz, se mostra favorável para cotações das commodities metálicas, “o que pode trazer um papel relevante para o minério de ferro de novo”. Já para as commodities agrícolas se espera um comportamento misto. O desenvolvimento da safra, principalmente da soja e milho no Brasil tem se mostrado bastante favorável, diz. “A expectativa não é de ter nenhum crescimento absurdo, igual tivemos em 2025, mas a expectativa é de manutenção do patamar de volume de exportações agrícolas.”

A dúvida maior, avalia, está nas energéticas. “Temos visto diversos movimentos ao redor do petróleo, que está com preços em nível relativamente baixo, em comparação aos últimos anos, de cerca de US$ 60 dólares o barril.” Níveis mais baixos da cotação de petróleo podem ter impacto para o Brasil. “A questão da Venezuela não é nenhuma questão de curto prazo, mas na perspectiva de médio prazo pode haver efeitos.”

Para as importações em 2026, diz Barbosa, a estimativa é de o nível ficar empatado ou ter alguma alta em relação a 2025, para um total que deve ficar entre US$ 280 bilhões e US$ 290 bilhões. “Se tivermos alguma desaceleração maior do que o esperado, a importação poderia até cair. Mas o mais importante seria observar taxas de crescimento menores das importações do que o atualmente observado.”

André Valério, economista do Banco Inter, espera para este ano superávit de US$ 70 bilhões, com manutenção da dinâmica observada em 2025. “Há expectativa da resolução definitiva do impasse do tarifaço estabelecido pelos EUA, assim como do acordo Mercosul-UE, que tendem a melhorar a dinâmica da balança comercial, na margem. Por outro lado, as crescentes incertezas geopolíticas turvam o cenário. Em 2025, o Brasil se beneficiou dessa maior incerteza, aumentando fatia na importação da China, ocupando o espaço deixado pelo fornecimento americano ao país asiático.” O avanço da exportação da soja no decorrer do segundo semestre é visto como uma ocupação desse espaço.

Na relação com os parceiros comerciais, observa Barbosa, da AZ Quest, é preciso observar o comércio bilateral entre os Estados Unidos e o Brasil. “Até melhorou na margem, mas o ambiente de incerteza acabou afetando o quantum de exportações e importações entre os dois países.” O destaque positivo em 2025, diz, foi a Argentina, em função da recuperação econômica do país. Pelos dados do Mdic, a receita de exportações brasileiras para os EUA caiu 6,6% em 2025 contra 2024. O volume de exportação recuou 3,9%. Para a Argentina o valor embarcado cresceu 31,4% e o volume, 24,7%.

Lia Valls, professora de pós-graduação Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora do FGV Ibre, lembra que o tarifaço estabelecido pelo presidente americano, Donald Trump, foi um dos fatores que mudaram o dinamismo dos destinos de exportação do Brasil no decorrer de 2025. “No primeiro semestre as exportações brasileiras para a China caíram em vários meses, na comparação com 2024 enquanto que para os EUA havia crescimento. No segundo semestre isso se inverteu.”

Para Herlon Brandão, diretor de estatísticas e estudos de comércio exterior da Secex, a queda na exportação aos americanos, não é totalmente explicada pelo tarifaço. “Teve queda em petróleo, que não foi afetado pelo tarifaço, mas pela demanda do país. Mas outros setores, como madeira e máquinas, foram afetados.”

Já as importações dos EUA para o Brasil, diz Brandão, cresceram 11,3% em 2025. “Como os Estados Unidos são a terceira maior origem das importações brasileiras, [o resultado] é muito explicado pela demanda brasileira.

Os EUA continuaram como segundo maior fornecedor do Brasil em 2025, responsáveis por 16,1% de todas as importações brasileiras no ano. Do lado das exportações, também manteve o segundo lugar, mesmo com a queda dos embarques. A Argentina ficou em terceiro.

A China manteve a liderança consolidada tanto no destino dos embarques brasileiros como na origem das importações. Mais do que isso, os chineses atingiram fatia recorde da série histórica nas compras externas brasileiras, com fatia de 25,3% em 2025, ultrapassando o pico de 2024, de 24,2%. As importações made in China em 2025 somaram US$ 70,9 bilhões, com alta de 11,5% ante 2024. A taxa de crescimento ficou 4,8 pontos percentuais acima da alta do total das importações brasileiras em igual período.

Os carros elétricos ou eletrificados e híbridos se destacaram na compra brasileira de itens chineses em 2025, com total de US$ 3,28 bilhões, no topo da lista de importação com origem no país asiático. A compra de US$ 2,67 bilhões em plataformas de petróleo também ajudou no crescimento das importações. Em terceiro e quarto lugares dos itens mais comprados da China vieram inseticidas e herbicidas e aparelhos para telefonia, respectivamente, como reflexo da grande heterogeneidade da pauta das exportações chinesas.



 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 07/01/2026

Geopolítica muda o jogo das margens no agro

O agronegócio entrou em uma fase em que fatores externos, antes tratados como pano de fundo, passaram a mexer diretamente com custo, margem e timing de venda. Segundo análise de Alê Delara, fundador da Pine Agronegócio e estrategista do agro, 2025 consolidou a geopolítica como variável operacional, visível em fretes mais longos, seguros mais caros e prazos que deixaram de fechar, até virar parte da rotina de quem opera o mercado.

O Mar Vermelho virou um retrato desse novo normal, com desvios pelo Cabo da Boa Esperança se tornando estruturais e alterando competitividade entre origens, prêmios e janelas de arbitragem. A guerra na Ucrânia manteve o grão disponível, mas com risco embutido, muitas vezes percebido mais no prêmio e na cautela do comprador do que na tela. Já a retomada da guerra comercial entre Estados Unidos e China travou por meses o fluxo de soja norte-americana e, quando houve reabertura parcial, a China já vinha abastecida via América do Sul, com estoques mais confortáveis e margens apertadas.

No Brasil, a supersafra e a melhora logística não se traduziram automaticamente em super rentabilidade. O câmbio acima de R$ 5,40 sustentou a receita em reais e os prêmios ficaram firmes por boa parte do ano, mas juros globais ainda altos encareceram o capital e ampliaram o peso do carrego. Com fertilizantes voláteis, a conta puniu quem segurou decisão demais. Para 2026, a leitura aponta um ano mais político do que climático, com volatilidade como padrão e maior exigência de gestão de risco e sofisticação comercial.

“Se esses movimentos globais fazem parte da sua rotina de decisão — comprar, vender, travar margem, planejar risco — minhas palestras e consultorias levam esse debate para dentro do seu time, com leituras práticas e cenários aplicados ao agro brasileiro”, conclui.

 
Fonte: Agrolink
Seção: Agro, Máquinas & Equipamentos
Publicação: 07/01/2026