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Muito além dos chips: expansão dos data centers abre nova fronteira de demanda para o aço no Brasil

Durante décadas, a evolução do consumo de aço esteve associada principalmente à construção civil, à indústria automobilística, à infraestrutura de transportes, ao petróleo e gás e à fabricação de máquinas e equipamentos. Agora, uma atividade essencialmente digital começa a ganhar relevância como novo vetor de demanda para a indústria de base: a expansão dos data centers.

O crescimento da inteligência artificial, da computação em nuvem e do armazenamento de dados exige instalações cada vez maiores e mais complexas. Embora essa transformação seja normalmente analisada sob a ótica dos semicondutores, dos softwares e da capacidade computacional, sua sustentação depende de uma infraestrutura física intensiva em aço, energia, equipamentos elétricos e construção industrial.

Essa é a principal transformação indicada pelas declarações recentes da Gerdau.

O presidente da companhia, Gustavo Werneck, afirmou que os investimentos em data centers já ampliam significativamente o consumo de aço nos Estados Unidos, onde a carteira de pedidos da empresa ganhou força nos últimos 12 meses. Segundo o executivo, a demanda não decorre apenas da construção das instalações, mas também da infraestrutura de geração e transmissão de energia necessária para alimentá-las.

Sob a ótica da Infomet, esse movimento representa uma mudança importante na composição futura da demanda siderúrgica.

Um data center não é apenas um grande galpão equipado com servidores.

Sua implantação exige fundações, estruturas metálicas, coberturas, pisos técnicos, racks, sistemas de suporte, tubulações, equipamentos de refrigeração, geradores de emergência, subestações, transformadores e redes de conexão elétrica. Ao redor da instalação principal, surgem ainda investimentos em geração de energia, linhas de transmissão e torres metálicas.

O aço, portanto, aparece em diferentes etapas do empreendimento.

Primeiro, na construção do próprio centro de processamento.

Depois, na infraestrutura energética que permite sua operação contínua.

Essa característica amplia o efeito industrial dos projetos. Quanto maior a capacidade computacional instalada, maior tende a ser a necessidade de energia e, consequentemente, de redes elétricas, subestações e equipamentos associados.

A Gerdau afirma que esse processo já pode ser observado de forma concreta nos Estados Unidos. O avanço dos investimentos das grandes empresas globais de tecnologia vem sustentando uma demanda considerada relevante por aço destinado a edificações, fundações, torres de transmissão, linhas elétricas e projetos de geração de energia.

O impacto ultrapassa a siderurgia.

A expansão dos data centers movimenta fabricantes de transformadores, cabos, painéis elétricos, sistemas de refrigeração, geradores, estruturas metálicas e equipamentos de automação. Também amplia a demanda por engenharia, montagem industrial, obras civis especializadas e serviços de manutenção.

Forma-se, assim, uma cadeia produtiva que conecta a economia digital à indústria pesada.

Essa talvez seja a principal pauta escondida.

A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma tecnologia imaterial, baseada em dados e algoritmos. Na prática, porém, sua expansão depende de uma extensa infraestrutura física.

Quanto maior o uso de aplicações digitais, maior a necessidade de armazenamento e processamento.

Mais processamento exige novos data centers.

Novos data centers demandam energia, construção, equipamentos e aço.

A digitalização, portanto, não reduz a importância da indústria de base. Em determinadas áreas, pode ampliá-la.

O Brasil ainda se encontra atrás dos Estados Unidos na atração desses investimentos. Werneck reconheceu que o mercado nacional não possui, no curto prazo, a mesma dimensão observada na América do Norte. Ainda assim, avaliou que o crescimento dos data centers no país é uma questão de tempo, diante da necessidade crescente de capacidade de armazenamento e processamento de dados.

Essa perspectiva se apoia, principalmente, na estrutura energética brasileira.

O país possui uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis, condição que pode ganhar importância à medida que empresas de tecnologia buscam reduzir as emissões associadas às suas operações. Ao mesmo tempo, a expansão dos projetos dependerá da disponibilidade efetiva de energia, de conexões à rede, de segurança no abastecimento e de infraestrutura de transmissão.

Esse é um ponto central.

A atração de um data center não depende apenas da disponibilidade de terrenos ou de incentivos fiscais.

A operação exige fornecimento de energia em larga escala, estabilidade do sistema elétrico, conectividade, disponibilidade de água ou soluções alternativas de refrigeração e condições regulatórias capazes de sustentar investimentos de longo prazo.

O próprio presidente da Gerdau reconheceu que o consumo de energia e água dessas instalações provoca discussões relevantes. Na avaliação do executivo, entretanto, esses desafios são contornáveis e não deverão impedir a continuidade dos investimentos globais, impulsionados pelo avanço da inteligência artificial.

Essa leitura recomenda uma abordagem equilibrada.

Os data centers representam uma oportunidade para a indústria brasileira, mas não constituem uma solução automática para a demanda por aço.

A conversão desse potencial em encomendas efetivas dependerá da quantidade de projetos realmente contratados, da escala das instalações, do conteúdo nacional incorporado às obras e da capacidade dos fornecedores brasileiros de atender às especificações técnicas exigidas.

Também será necessário observar quais produtos siderúrgicos poderão capturar a maior parte dessa demanda.

Estruturas de edificações e instalações auxiliares tendem a utilizar perfis, chapas, barras e tubos. Torres de transmissão e subestações demandam estruturas metálicas, perfis, parafusos, cabos e equipamentos eletromecânicos. Geradores, transformadores, sistemas de refrigeração e painéis industriais ampliam ainda o consumo indireto de aço por fabricantes de bens de capital.

A oportunidade não se concentra, portanto, em um único produto.

Ela se distribui por diferentes segmentos da siderurgia e da cadeia metalmecânica.

Outro aspecto relevante está na duração dessa demanda.

Projetos tradicionais de infraestrutura possuem começo e fim relativamente definidos. A economia digital, por sua vez, tende a exigir expansão contínua da capacidade de processamento, acompanhando o crescimento do tráfego de dados, da computação em nuvem e das aplicações de inteligência artificial.

Isso poderá criar uma sequência prolongada de investimentos, desde que o Brasil consiga consolidar condições competitivas para receber os empreendimentos.

A experiência da Gerdau nos Estados Unidos oferece uma indicação desse potencial. A companhia relata aumento do backlog associado não apenas à construção dos centros de dados, mas também aos projetos energéticos necessários para sustentá-los. A demanda, portanto, aparece de forma distribuída por diferentes frentes de investimento.

Para a siderurgia brasileira, esse novo mercado surge em um momento de margens pressionadas e forte concorrência das importações.

Os executivos da Gerdau afirmaram que os resultados atuais no Brasil ainda não justificam, por si só, uma expansão de longo prazo, embora a empresa continue investindo para obter ganhos graduais de competitividade. No primeiro semestre, a companhia investiu R$ 1,7 bilhão no país, valor superior ao resultado operacional mencionado pelos executivos para o período.

Nesse contexto, a criação de novas fontes de consumo doméstico ganha importância estratégica.

Os data centers não deverão substituir os mercados tradicionais do aço. Construção, veículos, máquinas, energia e infraestrutura continuarão sendo fundamentais.

A mudança está na incorporação de um novo consumidor, ligado diretamente à expansão da economia digital.

Essa demanda também poderá reforçar o desenvolvimento de produtos com maior valor agregado. Projetos de grande escala exigem precisão dimensional, resistência, qualidade superficial, confiabilidade e rastreabilidade dos materiais empregados, abrindo espaço para fornecedores capazes de oferecer soluções específicas e serviços técnicos associados.

Mais do que fornecer tonelagem, as siderúrgicas poderão ser chamadas a participar da engenharia dos projetos, desenvolver soluções estruturais e garantir regularidade no abastecimento.

Na avaliação da Infomet, essa é a principal oportunidade revelada pelas declarações da Gerdau.

A inteligência artificial não cria apenas demanda por chips.

Ela exige prédios, subestações, torres, linhas, equipamentos, sistemas de refrigeração e geração de energia.

Em outras palavras, a expansão do mundo digital depende de uma infraestrutura profundamente material.

Perspectivas

Os próximos anos deverão mostrar se o Brasil conseguirá transformar suas vantagens energéticas em uma plataforma competitiva para data centers. A velocidade desse movimento dependerá da disponibilidade de energia, da expansão das redes de transmissão, da segurança regulatória e da capacidade de execução dos projetos. Para a siderurgia, o avanço dessas instalações poderá abrir uma nova frente de consumo de aço estrutural, chapas, perfis, tubos e componentes destinados à infraestrutura elétrica e aos bens de capital. O impacto não deverá ocorrer de forma imediata nem uniforme, mas a experiência observada nos Estados Unidos indica que a economia digital pode se tornar um consumidor relevante da indústria pesada. Muito além dos chips e dos servidores, a próxima etapa da inteligência artificial poderá ser construída com aço.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 06/08/2026

 

Câmara aprova PL dos minerais críticos e redefine estratégia

A aprovação do PL 2780/2024 pela Câmara dos Deputados marca uma mudança importante na política mineral brasileira.

O texto aprovado consolida a percepção de que minerais críticos deixaram de ser apenas commodities exportáveis e passaram a ocupar posição estratégica na disputa global por indústria, tecnologia e segurança econômica.

A votação ocorreu em meio a forte pressão política e empresarial. O relatório inicial apresentado no início da semana provocou reação imediata de mineradoras e investidores estrangeiros ao ampliar significativamente o poder de supervisão estatal sobre ativos considerados estratégicos.

O texto aprovado nesta quarta-feira (6), porém, sofreu alterações relevantes nas negociações finais. Governo e lideranças partidárias atuaram para reduzir dispositivos considerados excessivamente intervencionistas, especialmente aqueles relacionados às atribuições do futuro comitê interministerial da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

Na versão aprovada, o comitê preserva funções de coordenação estratégica e definição de prioridades nacionais, mas perdeu parte das prerrogativas originalmente previstas para acompanhar reorganizações societárias e operações empresariais no setor mineral. A mudança buscou reduzir temores de insegurança regulatória.

Ainda assim, o núcleo econômico do projeto foi mantido. O PL cria instrumentos para estimular o processamento mineral no Brasil e reduzir a dependência histórica da exportação de minério bruto, incentivando etapas de beneficiamento, refino químico e industrialização doméstica.

O texto também prevê a criação de um fundo voltado ao financiamento de pesquisa mineral, inovação tecnológica e desenvolvimento industrial associado aos minerais críticos. A proposta busca direcionar recursos da própria atividade mineral para ampliar capacidade tecnológica e agregação de valor no país.

Outro ponto relevante é o escalonamento dos incentivos fiscais conforme o grau de processamento realizado em território nacional. Na prática, os benefícios aumentam à medida que empresas avancem da simples extração para etapas mais sofisticadas de separação química, refino e manufatura tecnológica.

A inclusão dos fertilizantes na política mineral reforça esse componente estratégico. O Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes que consome, condição que expõe o país a crises logísticas e oscilações geopolíticas internacionais.

O projeto aprovado tenta equilibrar dois objetivos frequentemente conflitantes: ampliar a coordenação estatal sobre recursos estratégicos sem produzir um ambiente de insegurança capaz de afastar investimentos privados.

O resultado final mostra que o Brasil começa a tratar minerais críticos de forma semelhante ao que grandes potências já fazem há vários anos: como instrumentos de política industrial, segurança econômica e competição tecnológica global.

O desafio agora será transformar reservas minerais em capacidade industrial efetiva. O protagonismo brasileiro dependerá menos da existência de jazidas e mais da capacidade de converter recursos naturais em cadeias tecnológicas sofisticadas, competitivas e previsíveis.

O texto segue, agora, para apreciação do Senado.

 
Fonte: CNN
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 06/08/2026

 

Brasil já é o maior importador de carro chinês do mundo

O Brasil se tornou em 2026, pela primeira vez, o principal importador de carros chineses no mundo. De janeiro a maio deste ano o país comprou US$ 5,2 bilhões em veículos eletrificados ou convencionais, superando compradores mais tradicionais como Rússia (US$ 5 bilhões) e Bélgica (US$ 3,8 bilhões) para chegar ao topo do ranking.

Os dados da alfândega chinesa mostram que as compras automóveis do gigante asiático mais que dobraram em relação aos US$ 2,1 bilhões registrados no mesmo período do ano passado - alta de 146,9%. Naquele momento, o Brasil ocupava o sexto lugar entre maiores importadores.

 

O movimento é liderado pelos carros eletrificados, cuja importação somou US$ 4,5 bilhões nos primeiros cinco meses do ano. Apenas nos meses de abril e maio, o volume alcançou US$ 2,7 bilhões.

O Brasil também assumiu a dianteira das importações no segmento específico de automóveis eletrificados. Bélgica (US$ 3,8 bilhões) e Reino Unido (US$ 3,4 bilhões) completam o top 3. A fatia de elétricos e híbridos no total das importações de veículos da China para o Brasil passou de 33% em 2021 para 87% em 2025.

Entre os motivos apresentados por analistas para a forte aceleração das importações nessa categoria estão a corrida para aproveitar de tributação menor no país, uma política de exportações mais agressiva da China para compensar a fraqueza da demanda doméstica e a crescente aceitação do consumidor, não apenas brasileiro, dos veículos eletrificados - puros ou híbridos -, nicho que as chinesas dominaram, deixando tradicionais montadoras americanas, europeias e outras asiáticas comendo poeira.

Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic) organizados pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) mostram que o país comprou US$ 5,35 bilhões no primeiro semestre em veículos chineses - mais que o dobro de todas as importações de origem francesa (US$ 2,6 bilhões).

Entre categorias, o destaque ficou com os híbridos plug-in, que responderam por pouco mais da metade (US$ 2,79 bilhões) desse total. O grupo dos veículos eletrificados respondeu por aproximadamente 15% de tudo o que o Brasil importou da China no período.

Diretor de conteúdo e pesquisa do CEBC, Tulio Cariello destaca como motivo da aceleração da importação o calendário de aumento das tarifas de importação brasileira, que passou de 25% e 30% a depender da categoria para 35%.

“Houve intensificação das importações para escapar da tarifa. A partir de agora, deve ocorrer alguma acomodação, à medida em que as vendas no mercado doméstico sejam atendidas pelo estoque formado”, diz. “Por outro lado, não acredito que haverá queda forte, uma vez que há interesse alto do brasileiro, inclusive das classes média e média alta. O carro elétrico virou um desejo de consumo, e carro elétrico se tornou sinônimo de carro chinês.”

De janeiro a junho, o país vendeu 215.023 veículos eletrificados leves, alta de 125% ante as 95.493 unidades vendidas no mesmo período do ano anterior, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). É um ritmo seis vezes maior que o do setor como um todo, que avançou 19,4% no período, nas estatísticas da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). No Brasil, a fatia dos eletrificados na venda domestica saltou para 18% em junho, de 7,7% na mesma comparação.

Ainda segundo a Anfavea, o emplacamento de carros elétricos no primeiro semestre saltou a 91 mil, contra 31 mil no mesmo período de 2025, alta de 193%. Já o de híbridos plug-in cresceu 90% e o de híbridos convencionais, 81%.

Fabiana D’Atri, economista da Bradesco Asset Management (Bram), nota que a alta das importações também tem passa pelo maior fomento das exportações como um todo por parte da China. “A demanda doméstica caiu bastante. Os dados do segundo trimestre mostram esse descompasso do mercado doméstico crescendo em ritmo bem mais moderado que as exportações. O setor externo complementa o doméstico”, diz.


"Não acredito que haverá queda forte [da importação], uma vez que há interesse alto do brasileiro”
— Tulio Cariello

Divulgado na semana passada, o PIB chinês do segundo trimestre expandiu 4,3% em base anual, abaixo expectativas de analistas, que culparam o consumo mais frágil que o esperado das famílias e do governo. O movimento e levanta dúvidas sobre a capacidade do país de atingir a meta estabelecida por Pequim de crescimento para o ano, que é de 4,5% a 5%.

Por outro lado, as exportações, por sua vez, avançaram 27% em junho na comparação interanual, bem acima da projeção de 18%. Apenas a exportação de veículos saltou 71,2% em junho na comparação com igual mês de 2025, batendo 1,06 milhão de unidades, segundo o Financial Times. Sozinha, a BYD teria vendido 175 mil carros para o mercado externo, alta de 95%. As vendas externas responderam por 43% da produção da gigante do setor.

No caso dos veículos eletrificados, pesa também o fato de que a China entende que o produto é competitivo e tem tecnologias modernas. “Para o Brasil e outros mercados, à medida que produtos são testados e aprovados pela população, vira uma situação de quanto mais tem, mais vai ter. Neste sentido, não vejo freada na entrada de veículos chineses, é uma mudança estrutural. Pode haver queda com a nacionalização da produção, mas sabemos que este é um processo lento”, nota D’Atri.

Ao menos oito marcas chinesas já produzem ou anunciaram intenção de produzir no Brasil, seja com fábrica própria, seja em parceria com montadoras já instaladas, mas o gigante asiático possui mais de uma centena de fabricantes. A economista avalia, no entanto, que nem todas as marcas que aqui chegarão podem terminar produzindo localmente.

“Alguns produtos, mesmo com as novas tarifas, manterão preços vantajosos e qualidade que não se encontra aqui, ainda que o preço fique menos convidativo. O consumidor pode optar por pagar a mais pelo pacote, e as fabricantes também podem oferecer desconto para se manter competitivas no mercado.”

Vigente desde o início de julho, a tarifa de 35% para eletrificados e híbridos veio acompanhada de uma nova cota de importação com alíquota zero para carros semimontados (SKD) ou desmontados (CKD) no valor de US$ 463 milhões. A renovação da cota gerou protestos por parte da Anfavea, mas se encaixa na estratégia do governo federal de atrair essas montadoras para o país, diz João Carmo, da 4intelligence.

“Era algo esperado e uma via de mão dupla. O governo mantém aberta uma porta - pequena - para a importação como forma de dar mais tempo para as chinesas se estabelecerem no país e, futuramente, trazer sua produção para cá”, diz o economista. Ele lembra que políticas de incentivo recente ao setor, como o Move Brasil para taxistas e motoristas de aplicativo, e o Mover, privilegiam eficiência energética e, com isso, integram a estrutura de incentivos do governo em direção à eletrificação da frota.

A internalização da produção para atender o mercado doméstico pode, futuramente, ajudar no reequilíbrio ou reversão da balança de veículos, segue o economista. “O país ainda é exportador para a Argentina, Colômbia e México, e as chinesas também têm interesse em acessar esses mercados.”

Como mostrou o Valor, a balança de automóveis fechou o primeiro semestre com déficit de US$ 5,32 bilhões, o mais profundo da série histórica iniciada em 1997. Enquanto as exportações patinaram, na esteira da menor demanda de mercados como o argentino, as importações explodiram, alcançando US$ 7,79 bilhões. A fatia chinesa saltou de 5% em 2021 para 72% ano passado. Entre categorias, a parcela dos 100% elétricos, híbridos ou híbridos plug-in passou de 17% para 79%.

Welber Barral, sócio da consultoria BMJ, acrescenta o fato de que muitos países desenvolvidos aplicaram tarifas maiores que as brasileiras aos elétricos chineses. “Explica, até certo ponto, o desvio de comércio em direção ao mercado brasileiro, que permanece relativamente mais aberto que os demais.”

Ele também avalia que a guerra no Oriente Médio no primeiro semestre e o salto dos preços de petróleo ajudaram a impulsionar a atratividade do segmento. “Existe essa avaliação que o [presidente dos Estados Unidos, Donald] Trump acabou ajudando muito a agenda verde por causa dos sustos e da imprevisibilidade em relação ao preço do combustível, especialmente nos países desenvolvidos.”

D’Atri minimiza o peso do episódio. “Acho que é a questão é mais estrutural. O choque de preços foi temporário e não houve efetivamente uma restrição de produto, como em outros momentos”, diz. “O carro chinês tem vantagens competitivas que independem desse choque pontual. O desafio é outro: abastecimento e manutenção, mas estes também têm diminuído bastante. As empresas que começam a se estabelecer também acabam expandindo para o pós-venda e desenvolvendo parcerias locais com fornecedores.”

 

 
Fonte: Valor
Seção: Automobilística & Autopeças
Publicação: 28/07/2026

 

Amazônia Legal concentra quase metade dos processos de mineração de minerais estratégicos no Brasil

A Amazônia Legal concentra quase metade dos processos de mineração relacionados a minerais considerados críticos e estratégicos no Brasil, mas ainda explora uma parcela limitada de seu potencial. As informações fazem parte de um diagnóstico elaborado pela Agência Nacional de Mineração, divulgado pela Agência Gov, que busca oferecer uma base técnica para a construção de uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

Atualmente, a atividade mineral na região está concentrada principalmente na extração de ferro, bauxita, cobre e ouro. Minerais fundamentais para setores como tecnologia, defesa e transição energética, entre eles cobalto, terras raras e potássio, ainda não possuem produção significativa na Amazônia Legal.

Segundo João Vasconcelos, representante da ANM citado no estudo, “uma política pública de minerais críticos e estratégicos só é robusta quando parte de evidência”.

Quase metade dos processos está na Amazônia Legal

De acordo com o levantamento, 48,2% dos processos minerários de minerais estratégicos registrados no Brasil estão localizados na Amazônia Legal.

O Pará concentra 51% desses processos, seguido por Mato Grosso, com 19%, e Rondônia, com 10,3%. O ouro predomina em cerca de 67% das operações analisadas, indicando que a atividade mineral regional permanece fortemente concentrada em poucos produtos.

O diagnóstico aponta que a diversificação da mineração dependerá da ampliação dos investimentos em pesquisa geológica, inovação tecnológica e infraestrutura.

Investimentos somaram R$ 40,4 bilhões

Entre 2006 e 2024, foram investidos R$ 40,4 bilhões em minas e usinas relacionadas a minerais estratégicos na Amazônia Legal.

O cobre respondeu por 31,3% dos recursos, seguido por projetos de níquel, alumínio, ouro e manganês. Apesar do volume expressivo de investimentos, o estudo destaca a ausência de produção relevante de potássio, terras raras e cobalto.

Esses minerais são considerados essenciais para a fabricação de equipamentos eletrônicos, baterias, sistemas de defesa, turbinas eólicas e veículos elétricos.

Pesquisa ainda está concentrada em ouro e cobre

Os investimentos em pesquisa mineral chegaram a R$ 4,9 bilhões no período analisado. O ouro concentrou 65,8% desse valor, enquanto o cobre recebeu 19,1%.

A ANM avalia que será necessário ampliar e diversificar os esforços de pesquisa para transformar o potencial geológico da região em produção efetiva de minerais estratégicos.

A expansão da pesquisa também é apontada como condição necessária para reduzir a dependência brasileira de importações e fortalecer cadeias industriais ligadas à transição energética.

Preservação ambiental e direitos indígenas

O diagnóstico ressalta que o aproveitamento das reservas minerais da Amazônia Legal deve ser acompanhado de uma governança socioambiental rigorosa.

Parte relevante do potencial mineral está localizada em áreas protegidas, territórios indígenas ou regiões de elevada sensibilidade ambiental. Por isso, o estudo defende consulta prévia às comunidades afetadas, licenciamento ambiental adequado e destinação de recursos para o desenvolvimento sustentável dos municípios envolvidos.

“Não dá para planejar o aproveitamento mineral da região de forma responsável sem reconhecer que parte relevante do potencial está em áreas protegidas”, afirmou Vasconcelos.

A ANM também destaca que a exploração mineral deve respeitar os direitos dos povos originários e ser acompanhada de instrumentos capazes de evitar desmatamento, contaminação de rios e conflitos fundiários.

Projetos estruturantes dependem de avanços

O estudo aponta a necessidade de destravar projetos considerados estruturantes para o setor mineral brasileiro, entre eles Autazes, Araguaia e Vermelho.

Para que esses empreendimentos avancem, será necessário ampliar a segurança regulatória, fortalecer parcerias entre os setores público e privado e garantir que as operações cumpram critérios ambientais e sociais.

A demanda global por minerais críticos deve continuar crescendo nos próximos anos, impulsionada pela expansão das energias renováveis, dos veículos elétricos, da indústria de defesa e das tecnologias digitais.

Nesse contexto, a Amazônia Legal poderá desempenhar um papel estratégico, desde que a exploração de seus recursos seja realizada com planejamento, controle público, preservação ambiental e respeito às populações locais.

 
Fonte: Brasil 247
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 27/07/2026

Após tarifaço de Trump, Lula discute acordo China-Mercosul com Xi Jinping

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da China, Xi Jinping, conversaram por telefone na noite de domingo (26/07) e defenderam o aprofundamento da cooperação bilateral em áreas estratégicas, além da aceleração das negociações para um acordo entre o Mercosul e a China.

Em nota, o governo brasileiro afirmou que a ligação durou mais de uma hora e tratou "da implementação das sinergias entre os projetos nacionais de desenvolvimento dos dois países".

"O presidente Lula ressaltou que seu governo segue comprometido com a diversificação de mercados e parceiros comerciais. Ambos coincidiram a respeito da importância de acelerar as tratativas para um acordo MERCOSUL-China, que contemple as necessárias flexibilidades", diz ainda o comunicado.

A ligação telefônica veio poucos dias após a entrada em vigor de uma nova tarifa de 25% implementada pelo governo de Donald Trump contra parte das exportações brasileiras. Na semana passada, os Estados Unidos também anunciaram uma segunda tarifa, de 12,5%, contra 60 de seus parceiros comerciais — entre eles o Brasil —, sob a alegação de que teriam falhado em combater adequadamente o trabalho forçado.

A nota do Planalto não cita explicitamente o tarifaço como um dos temas discutidos na ligação entre Xi Jinping e Lula.

Em sua própria nota sobre a conversa, o governo chinês ressaltou que "diante de novas circunstâncias e desafios", Brasil e China devem se posicionar "firmemente do lado certo da história" e desempenhar um papel maior "na reforma e no aprimoramento do sistema de governança global, e na defesa da equidade e da justiça internacionais".

Ainda segundo Pequim, Xi teria afirmado na ligação que a China valoriza muito "o status internacional e a importante influência do Brasil", e apoia o país "na defesa de sua soberania e independência, na oposição à interferência externa e na contribuição para a manutenção da paz e da estabilidade regional e mundial".

"Xi Jinping afirmou que a China está pronta para fortalecer ainda mais a coordenação estratégica bilateral e multilateral com o Brasil, mantendo assim o ímpeto positivo na construção de uma comunidade China-Brasil com um futuro compartilhado", diz a nota.

 
Fonte: Terra
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 27/07/2026

 

Distribuição de aço: Após forte queda nas vendas em junho, setor de aço deve iniciar recuperação só em 2027, aponta Citi

O setor de distribuição de aço no Brasil registrou em junho a maior queda mensal de vendas do ano, segundo relatório do Citi após reunião mensal do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (INDA), referente a julho de 2026. Para o banco, a recuperação consistente de preços e margens no setor só deve se materializar em 2027.

Conforme o Citi, as vendas de distribuidores caíram 6,9% em junho ante maio, e a projeção da INDA para julho aponta nova queda de 2% no mês.

Os estoques do setor subiram para 3,7 meses de vendas em junho, com expectativa de 3,8 meses em julho, patamar acima do nível considerado normalizado, próximo de 3,0 meses.

Aço em excesso trava recuperação de preços

Ainda segundo o relatório, tentativas de recuperação de preços seguem esbarrando na resistência de uma cadeia que carrega estoque em excesso. As compras dos distribuidores somaram 323,8 mil toneladas em junho, queda de 4,9% ante maio, mas alta de 4,4% na comparação anual, com o acumulado do ano em 1.949,5 mil toneladas, retração de 1,9% ante o primeiro semestre de 2025.

O Citi destacou que laminados a quente seguem como a categoria mais fraca no acumulado do ano, com queda de 6,9%, enquanto produtos galvanizados seguem em alta de 10,9% no mesmo período. As vendas de junho totalizaram 317,7 mil toneladas, queda de 6,9% ante maio, com o acumulado de 2026 em 1.916,0 mil toneladas, recuo de 0,9%.

Importações de aço em colapso

Do lado das importações, o volume nacional de aço plano somou 239,1 mil toneladas em junho, queda de 35,6% na comparação anual. No acumulado do primeiro semestre, o recuo chega a 24% ante igual período de 2025, totalizando 1.428,4 mil toneladas, segundo o levantamento repassado pelo Citi.

Bobinas a quente lideraram a retração das importações, com queda de 86% em junho e 48% no acumulado do ano, mesmo com medidas antidumping em vigor para a categoria. Laminados a frio recuaram 43% no acumulado, enquanto produtos galvanizados caíram apenas 7,1% no mesmo período.

Por origem, o Vietnã liderou as importações de aço plano em junho, com 38,3% do volume total, seguido por China (24,1%), Áustria (14,4%, concentrada em chapas grossas), Coreia do Sul (13,1%) e Taiwan (3,7%). No acumulado do ano, porém, a China segue dominante, com 52,6% das importações totais de aço plano, o equivalente a 821,9 mil toneladas.

Aço chinês segue relevante apesar do antidumping

Mesmo com as medidas antidumping em vigor para laminados a quente, a China mantém participação de 29,1% nas importações dessa categoria no acumulado do ano, atrás apenas da Coreia do Sul, com 50,7%. O Egito aparece na sequência, com 19,3%. Em produtos galvanizados, a China concentra 78,7% do volume importado no período.

Para o Citi, o cenário reforça o tom cauteloso já sinalizado na reunião anterior da INDA. O banco avalia que a demanda ainda não avança em ritmo suficiente para absorver os estoques acima do normal, o que reduz o incentivo dos distribuidores para aceitar reajustes de preço.

Normalização de estoques só no fim do ano

Segundo o Citi, a normalização dos estoques do setor não deve ocorrer antes do fim de 2026. O banco avalia que esse ajuste é o principal fator para destravar uma recuperação mais consistente de preços e margens, com efeitos mais visíveis a partir de 2027.

O ritmo dessa normalização, segundo o relatório, depende da aceleração da demanda final, sobretudo nos setores automotivo e de bens de capital, além da dinâmica cambial, que segue como fator relevante para novos reajustes de preço.

 
Fonte: Times Brasil
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 24/07/2026