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Menos pão, mais carne: canetas emagrecedoras redesenham demandas do agro brasileiro

O impacto de medicamentos usados para emagrecimento, como Ozempic e Mounjaro, avança da área da saúde para a mesa do consumidor e, consequentemente, ao campo. Ao reduzir o apetite e alterar hábitos alimentares, as chamadas canetas emagrecedoras já entram no radar do agronegócio como um fator capaz de redesenhar, de forma gradual, o padrão de demanda por alimentos no Brasil.

Um relatório divulgado recentemente pelo Itaú BBA mostra que a dieta é o comportamento mais impactado entre usuários de medicamentos da classe GLP-1 — usados para diabetes tipo 2 e perda de peso. Mais do que comer menos, essas pessoas passam a comer diferente, com efeitos diretos sobre quais alimentos ganham ou perdem espaço no prato.

Estudos analisados pelo Itaú BBA indicam reduções de até 40% na ingestão diária de calorias em alguns grupos de usuários das canetas emagrecedoras. Isso ocorre, especialmente entre aqueles que utilizam os medicamentos para perda de peso. Em uma pesquisa com mais de 3 mil consumidores nos Estados Unidos, a dieta apareceu como a principal mudança de hábito após o início do tratamento, à frente até da prática de exercícios físicos. “A dieta surge como uma das mudanças comportamentais mais significativas entre os pacientes”, destaca o documento.

Além da redução de calorias, há uma mudança qualitativa no consumo. Dados citados pelo banco mostram que 56% dos usuários afirmam fazer escolhas mais saudáveis e 47% optam por porções menores. O efeito é uma queda mais acentuada no consumo de alimentos ricos em açúcar, gordura e carboidratos refinados.

Proteínas em ascensão

Para medir o impacto por categoria, o Itaú BBA analisou um estudo com um painel de 150 mil domicílios nos Estados Unidos, acompanhados entre julho de 2022 e setembro de 2024. O levantamento mostrou que famílias com ao menos um usuário de GLP-1 reduziram os gastos no supermercado em 5,3% nos primeiros seis meses após o início do tratamento. Entre consumidores de maior renda, o indice chegou a 8,2%.

As maiores quedas ocorreram em snacks e salgadinhos (-10,1%), produtos de padaria doce (-8,8%) e cookies (-6,5%). Massas e grãos também recuaram, com queda próxima de 5%. Em contraste, apenas algumas categorias apresentaram desempenho positivo, como frutas, barras nutricionais, snacks de carne e iogurtes.

Por que a proteína tende a ganhar espaço no longo prazo?

Apesar de uma possível desaceleração inicial no consumo, o Itaú BBA aponta que a demanda por proteína tende a se fortalecer neste cenário. A explicação está nos efeitos colaterais do emagrecimento acelerado provocado pelo medicamento.

Estudos citados no relatório mostram que, de uma perda média de 13,6 quilos entre usuários desses medicamentos, cerca de 62% correspondem à gordura, mas 38% são de massa magra. Como o músculo representa aproximadamente metade da massa magra, isso significa que algo próximo de 20% do peso perdido pode ser músculo.

Para mitigar essa perda, a comunidade científica tem recomendado um aumento significativo da ingestão de proteína durante o tratamento. A recomendação pode chegar entre 1,2 e 1,6 grama por quilo de peso corporal por dia — acima do padrão tradicional de 0,8 grama.

Essa mudança favorece cadeias ligadas à produção de proteína animal e ingredientes proteicos, como carnes, ovos, lácteos e derivados, além de produtos industrializados de maior valor agregado.

O que muda no campo?

Para o agronegócio brasileiro, os efeitos dessa transformação tendem a ser indiretos, mas relevantes no médio e longo prazo. Cadeias ligadas a grãos para consumo humano, como trigo e derivados, podem enfrentar maior pressão, enquanto grãos destinados à ração animal, como milho e soja, podem se beneficiar de forma indireta com o fortalecimento da pecuária.

A produção de carnes, especialmente frango e suínos — proteínas mais acessíveis —, aparece como uma das mais bem posicionadas para capturar essa tendência. Ovos e lácteos também ganham espaço, por combinarem alto valor nutricional e custo relativamente menor para o consumidor.

O relatório destaca que, entre as empresas de alimentos, os produtores de proteína aparecem como potenciais vencedores no longo prazo, enquanto companhias mais expostas a dietas ricas em carboidratos e ao prazer imediato tendem a enfrentar maior pressão.

Impacto ainda gradual no Brasil

Apesar do potencial de mudança, o Itaú BBA adota um tom cauteloso em relação à velocidade e à magnitude dos efeitos no Brasil. Mesmo considerando a forte expansão esperada para o mercado das chamadas canetas emagrecedoras, a difusão desses medicamentos ainda é relativamente baixa.

Em um cenário considerado mais agressivo, o banco estima cerca de 5,5 milhões de usuários deste medicamento no Brasil até 2027, o equivalente a aproximadamente 2,7% da população acima de 5 anos. 

Além disso, fatores como menor renda per capita, uso intermitente dos medicamentos e diferenças culturais devem limitar a velocidade da transformação do comportamento alimentar em comparação com mercados mais desenvolvidos.

 
Fonte: Agro Estadão
Seção: Agro, Máquinas & Equipamentos
Publicação: 16/01/2026

 

Brasil firma parceria com potência árabe para explorar minerais estratégicos e terras raras

O Brasil e Arábia Saudita assinaram nesta terça-feira (13/1), em Riade, a capital saudita, um Memorando de Entendimento (MoU, documento que formaliza intenções entre as partes, embora sem vínculo contratual) para a cooperação bilateral em tecnologias e iniciativas de mineração.

O acordo, com vigência de cinco anos, prevê o fortalecimento da cooperação técnica entre os países em geologia, exploração e avaliação de recursos minerais no âmbito da “mineração sustentável”.

A cooperação deve envolver o intercâmbio entre especialistas e técnicos, o desenvolvimento de programas de capacitação profissional na área e a transferência de tecnologias aplicadas de última geração.

O foco é naqueles minerais considerados estratégicos para a transição energética por seu potencial de alta condutividade e resistência, usados em baterias (como as de veículos elétricos), turbinas eólicas, painéis solares e componentes de tecnologia (como chips e processadores).

Entre eles estão minerais como lítio, cobre, níquel e os elementos de terras raras (ETRs), o conjunto de 17 metais (além do escândio e do ítrio) considerados raros por sua dificuldade de extração.

O acordo incentiva projetos do setor privado de ambos os países e investimentos no setor mineral, como a aquisição de licenças de exploração e mineração. Também estabelece a possibilidade de uma “Aliança de Investimento” entre Brasil e Arábia Saudita, com o objetivo de fomentar projetos de processamento e beneficiamento de minerais.

Atualmente, o Brasil, que possui a segunda maior reserva de ETRs do mundo, ainda não refina os compostos, mas opera, em Poços de Caldas (MG), uma planta de extração em escala piloto como parte do Projeto Caldeira, da mineradora australiana Meteoric. A planta produziu seu primeiro lote de Carbonato Misto de Terras Raras (MREC), concentrado inicial que agrupa os 17 elementos de terras raras antes de sua separação em óxidos individuais, em dezembro de 2025. Atualmente, ele é considerado o projeto de ETRs em escala comercial mais avançado fora da China, país que domina o beneficiamento dos minerais.

Já a empresa Mineração Serra Verde, sediada na planta de Minaçu (GO), é o único produtor em escala comercial, fora da Ásia, dos quatro elementos críticos de terras raras, neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, destacados por seu papel na produção de ímãs permanentes de alto desempenho.

A CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração) tem estudado tecnologias para o beneficiamento de terras raras (processo de separar e purificar esses elementos, que envolve etapas químicas e físicas complexas e agrega valor à cadeia de suprimentos) a partir de rejeitos de nióbio numa planta localizada em Araxá (MG), e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Paulo, está desenvolvendo uma nova planta de processamento de terras raras e minerais críticos que visa avançar na tecnologia nacional de refino.

A assinatura do acordo recente entre os governos brasileiro e saudita aconteceu durante a participação de representantes brasileiros no Future Minerals Forum, evento internacional que reúne governos e empresas em torno de temas relacionados aos minerais do futuro e às estratégias de desenvolvimento sustentável no setor, segundo a Secretaria de Comunicação Social do governo. Empresas sauditas, como a Ma’aden (Saudi Arabian Mining Company), já manifestaram interesse em investir no setor minerador do Brasil.

“A Ma’aden vai se instalar em São Paulo com um escritório pela primeira vez. Isso abre uma perspectiva de recursos muito vultuosos; falaram em algo em torno de R$ 8 bilhões para mapeamento geológico no Brasil”, afirmou, em coletiva de imprensa após o Fórum, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.

A Arábia Saudita, convidada a se unir ao BRICS em 2023, é considerada, atualmente, um membro em processo de adesão no bloco. O país, que mantém laços geopolíticos com os Estados Unidos, estaria “avaliando os prós e os contras” de sua participação, numa postura ainda considerada de “neutralidade positiva”.

 
Fonte: Revista Fórum
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 15/01/2026

 

Acordo entre UE e Mercosul pode deixar os carros importados mais baratos no Brasil

A União Europeia (UE) aprovou, na última sexta-feira (9), o acordo comercial com o Mercosul, bloco que abrange o Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e tem ainda a Bolívia em processo de adesão. A assinatura e devida oficialização está marcada para o dia 17 de janeiro. Entre outros efeitos, o acordo pode fazer com que os carros importados fiquem mais baratos no Brasil.

A abertura do mercado deve resultar em uma redução de impostos nas importações e exportações entre os dois blocos. Como os carros importados da Europa possuem uma carga tributária elevada no Brasil (pagam a alíquota máxima, de 35%), a tendência é que esses tributos sejam reduzidos, o que vai diminuir o custo final para o comprador.

O acordo prevê que essa tarifa seja zerada. Mas, para proteger a indústria nacional, a redução não será imediata. O processo será gradual, ao longo de 15 anos para carros a combustão e até 18 para modelos elétricos e híbridos.

Outras reduções de custos

Além da diminuição nos impostos, outro fator que deve baixar o preço dos carros importados da Europa no Brasil é a redução de custos em componentes e autopeças trazidas do Velho Continente.

Isso reduz o custo de produção das montadoras que já estão instaladas no Brasil, mas que dependem de componentes europeus, como sistemas de segurança e sensores. Com componentes mais baratos, o custo final dos veículos fabricados aqui também tende a cair para o consumidor.

O impacto do acordo entre UE e Mercosul no preço dos carros importados

A redução nas tarifas e no custo dos componentes e autopeças tende a causar uma queda de até 40% nos custos dos carros importados da Europa aqui no Brasil. Por exemplo, um sedã de luxo que hoje custa em média R$250 mil para o consumidor, poderá ser vendido por cerca de R$190 mil – isso aplicando as reduções do acordo entre a UE e Mercosul no cenário atual.

É importante reforçar que, embora a tarifa de importação seja excluída, impostos nacionais e estaduais como IPI, ICMS e PIS/CONFINS seguem aplicados. Além disso, a variação cambial entre o Real e o Euro ainda será o fator determinante para o preço final de venda.

 
Fonte: NSC Total
Seção: Automobilística & Autopeças
Publicação: 14/01/2026

 

Sob tarifaço, exportação aos EUA têm maior queda desde pandemia

Sob tarifaço americano, as exportações brasileiras aos Estados Unidos caíram 6,6% em 2025 ante 2024, maior queda desde 2020, quando o comércio global foi fortemente afetado pela pandemia. A queda veio em um ano em que Brasil bateu recorde na receita total de embarques, com crescimento de 3,5%. As exportações brasileiras aos EUA de bens que escaparam da sobretaxa da política tarifária americana caíram 5,1%. Os atingidos, 7,4%. Os submetidos a imposto de importação de 40% ou 50% recuaram ainda mais, à taxa de 9,5%. Considerando somente agosto a dezembro, período em que o tarifaço já estava em vigor, a exportação dos produtos sob carga maior de imposto de importação nos EUA caiu 21,6% contra igual período de 2024.

Os dados são da Câmara Americana de Comércio (Amcham) e consideram as duas listas de isenção do tarifaço americano de: a de julho e a de novembro de 2025. Também foram incluídos entre os sobretaxados itens atingidos pela Seção 232.

Para Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil, é preciso aproveitar a atual janela de tempo para negociar os produtos ainda afetados. Segundo cálculos da Amcham, 35,9% do que o Brasil exporta aos EUA está submetido às tarifas específicas contra o Brasil, pela IEEPA (lei de poderes econômicos de emergência internacional, na sigla em inglês), e outros 11,9% são sobretaxados pela chamada Seção 232. Desse universo, 7,8 pontos percentuais são de aço e alumínio, destaca Fabrizio Panzini, diretor de políticas públicas e relações governamentais da Amcham Brasil.

“A negociação tem maior probabilidade de gerar bons resultados agora, neste início de ano”, diz Abrão Neto. Com o transcorrer do tempo, a discussão, avalia, fica mais complexa, e outros assuntos passam a concorrer, como as eleições à presidente da República no Brasil e, nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato e a revisão da UMSCA, o acordo entre EUA, México e Canadá.


"Negociação tem mais chance de ter bom resultado neste início de ano”
— Abrão Neto

A IEEPA e a 232 têm impactos diversos e demandam negociações diferentes, ressalta Abrão Neto. “As tarifas de 40% ou 50% afetam exclusivamente o Brasil, o que nos coloca numa situação de competitividade mais comprometida nesses produtos em relação aos demais competidores.”

Na Seção 232, em regra, a condição é a mesma frente aos demais, compara. Ele observa que existem negociações que os EUA têm feito de forma bilateral com parceiros comerciais e que têm dado indicação de acesso diferenciado na 232, com melhores condições. “O Reino Unido foi o primeiro, mas não há ainda detalhamento específico de qual é essa condição mais privilegiada.”

Panzini lembra que, além de específicas ao Brasil, as tarifas da IEEPA são muito mais generalizadas e por isso abrangem um volume de exportação muito mais elevado.

Para Abrão Neto, o quadro atual coloca “mais ênfase e urgência em se buscar uma solução para as tarifas da IEEPA, que singularizam o Brasil, mas sem deixar de lado a tentativa de se buscar avançar também nos produtos da Seção 232, que são muito importantes para a produção e exportação brasileiras, como os setores siderúrgico e de madeira.”

As tarifas via IEEPA devem ser julgadas pela Suprema Corte americana, mas, para Abrão Neto, o melhor desfecho para o Brasil é buscar uma solução via negociação e não esperar eventual decisão do Judiciário derrubando a IEEPA. “Existem outras fundamentações jurídicas e legislações que os EUA podem adotar para estabelecer aumentos tarifários.”

A chamada Seção 301 é um exemplo, diz Abrão Neto. Ele lembra que já há “investigação iniciada e relativamente avançada” envolvendo o Brasil com base no dispositivo. “Um julgamento sobre a IEEPA não é definitivo em relação à situação brasileira, muito embora esse resultado possa servir como gatilho para a revisão das tarifas em relação ao Brasil. Mas o caminho da negociação é inescapável.”
 

 
 

A ação dos EUA na Venezuela, avalia ele, não deve tensionar as negociações sobre tarifas. “O governo brasileiro já deixou clara sua posição. O Brasil tem importância considerável na região latino-americana e tem laços importantes na Venezuela. Pode ser um ator para ajudar no processo de transição.”

Abrão Neto explica que a queda da exportação brasileira aos americanos em 2025 não resultou somente de itens sobretaxados. Também houve redução, diz, de 18,9% nas vendas de petróleo bruto, que não ficou sujeito a tarifas adicionais. Em 2025 o Brasil exportou total de US$ 37,74 bilhões aos EUA, US$ 2,65 bilhões a menos que em 2024. Contribuíram para a queda US$ 1,5 bilhão em produtos sobretaxados a 40% ou 50% e US$ 350 milhões em itens da 232. Também foi relevante o recuo de US$ 1,1 bilhão em petróleo, explica Panzini.

“A exportação de petróleo depende de ciclos. Em alguns anos os países podem colocar mais refinarias em manutenção, o que eleva a importação. Foi o que aconteceu nos EUA nos últimos anos. Já se previa, em razão de investimentos e da parte técnica das refinarias, que em 2025 os EUA produziriam mais petróleo internamente e demandariam menos importações. Houve efeito de preços, mas muito mais dessa retomada da produção americana”, destaca Panzini.

Além de petróleo, registraram quedas importantes no ano passado celulose, semimanufaturados de ferro e aço, equipamentos de engenharia, madeira e motores de pistão. Desses produtos, apenas celulose não é atualmente alvo de tarifas de 40% ou 50%.

Se as negociações permitirem redução das tarifas adicionais aplicadas ao Brasil, diz Abrão Neto, a tendência é de retomada do crescimento das exportações brasileiras, sobretudo de produtos industriais. A indústria de transformação é responsável por 80,6% de tudo o que o Brasil vende aos americanos. Dos dez principais itens exportados aos EUA, oito são da indústria de transformação. Em sentido contrário à tendência geral do setor, aeronaves, sucos e carne bovina tiveram alta nas vendas aos americanos em 2025, contendo a queda do setor manufatureiro.

Em 2025, mostra o estudo da Amcham, as exportações industriais do Brasil aos EUA caíram 4,2% ante 2024, a primeira queda de vendas do setor desde 2020. Mesmo assim o mercado americano permanece como o principal destino das exportações da indústria brasileira, com 16% do total, à frente da UE e do Mercosul.

Com a redução, a participação dos Estados Unidos na exportação brasileira caiu de 12% em 2024 para 10,8% no ano passado. Mesmo assim os EUA mantiveram o posto de segundo maior destino brasileiro, depois da China, que ficou com fatia de 28,7% dos embarques. As vendas brasileiras ao país asiático cresceram 6% no ano passado. Para a União Europeia, que absorve 14% da exportação, a alta foi de 3,2%.

Mesmo com a queda de embarques, a corrente de comércio entre Brasil e EUA, que é a soma de importações e exportações, cresceu em 2025, destaca Abrão Neto. Isso porque a compra externa brasileira de produtos americanos cresceu 11,3% e alcançou US$ 45,2 bilhões, segundo maior valor da série histórica oficial. Entre os principais produtos que puxaram a alta, estão motores e máquinas não elétricas, óleos combustíveis, aeronaves e outros medicamentos.

“O comércio entre Brasil e EUA tem perfil muito saudável, de complementariedade. A importação mostrou resiliência e respondeu à demanda do Brasil em 2025 e ao posicionamento consolidado das empresas americanas no país”, diz Abrão Neto. Ele destaca, porém, que no comércio bilateral cerca de um terço vem de trocas entre empresas do mesmo grupo econômico que atuam no Brasil e nos EUA. “Se houver redução reiterada nas exportações, haverá impacto nas importações também.”

Com recuo nas exportações e elevação das importações, o déficit do Brasil com os EUA se aprofundou em 2025, para US$ 7,5 bilhões, ante US$ 249,5 milhões de 2024. O saldo negativo, porém, ficou abaixo do de 2021 e 2022, quando os déficits foram de US$ 8,2 bilhões e US$ 13,9 bilhões, nessa ordem.

 

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 12/01/2026

Setor da construção civil vive 'melhor momento de sua história'

O setor da construção civil não tem motivos para reclamar. Aliás, com exceção da taxa básica de juros em 15%, apontada como alta pela maioria dos empresários, a perspectiva é positiva para esse mercado. O Produto Interno Bruto (PIB) do setor deve encerrar 2025 com crescimento de 1,8%, segundo estimativas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP). Para especialistas do setor, essa “boa maré” se deve, principalmente, ao avanço do Minha Casa, Minha Vida (MCMV).

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o setor avançou 1,3% no terceiro trimestre de 2025, depois de recuar 0,7% no primeiro trimestre do ano e 0,3% no segundo. “O mercado da construção segue em um momento positivo. Isso se deve aos contratos de infraestrutura e ao bom desempenho do Minha Casa, Minha Vida. É uma boa notícia para o emprego e para a renda no país”, aponta Renato Correia, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

Um dos fatores que impulsionou o programa social foi a mudança da Faixa 1, que era limitada a famílias com renda de até R$ 2.850 e deverá contemplar quem ganha aproximadamente dois salários mínimos a partir deste mês. O ministro das Cidades, Jader Filho, projetou a contratação de 1 milhão de novas unidades até o final deste ano. Com isso, o programa deve encerrar 2026 com 3 milhões de unidades financiadas.

"O MCMV vem exibindo forte ritmo de crescimento. Em novembro do ano passado, foram registrados 80 mil novos financiamentos, acima da média mensal de 60 mil observada até outubro. Uma a cada três contratações tem sido direcionada à Faixa 1", afirma. O programa também passou a contar com a Faixa 4, criada para atender famílias com renda entre R$ 8 mil e R$ 12 mil.

Esse movimento se reflete no desempenho das empresas que atuam em larga escala dentro do MCMV. No Grupo Direcional, que engloba as empresas mineiras Direcional Engenharia e Riva Incorporadora, os resultados do terceiro trimestre de 2025 mostram a força da demanda.

“Na Direcional, a receita líquida chegou a R$ 1,2 bilhão, um aumento de 27% na comparação com o mesmo período de 2024. As vendas líquidas somaram R$ 1,6 bilhão, crescimento de 10% sobre o ano anterior, e setembro se destacou como o melhor mês da história da empresa, totalizando R$ 832 milhões em vendas brutas”, detalha Paulo Sousa, diretor financeiro e de relações com investidores do Grupo Direcional. Na Riva, a outra marca do grupo, os lançamentos atingiram R$ 1,2 bilhão no terceiro trimestre de 2025, alta de 186% em relação ao mesmo período de 2024.

Thiago Correa Ely, diretor executivo comercial da MRV&CO, afirma que “o setor está vivendo o melhor momento de sua história” e que a empresa está otimista em relação aos próximos meses. “Com um déficit habitacional ainda significativo no país, nosso mercado conta com uma demanda constante”, diz.

Nos três primeiros trimestres de 2025, a MRV lançou mais de 31 mil unidades, sendo 97% delas enquadradas no programa federal Minha Casa, Minha Vida. Em Minas Gerais, foram lançados sete empreendimentos, totalizando mais de 1,9 mil apartamentos. “O programa habitacional ajudou a empresa a driblar o cenário de juros altos e impulsionou a receita operacional em 17,6%, além de estimular um aumento de 35,5% no lucro bruto”, revela.

Uma das consequências desse bom momento é que a construção manteve saldo positivo de contratações formais. No acumulado dos últimos 12 meses, até outubro de 2025, o emprego com carteira no setor cresceu 2,84% - somando mais de 3 milhões de trabalhadores no Brasil. Segundo dados da CBIC, São Paulo (23.006), Belo Horizonte (9.727) e Fortaleza (5.881) foram as três cidades que mais criaram novos empregos na construção civil de janeiro a agosto de 2025.

Alta nas vendas do cimento

Matéria-prima essencial na construção civil, o cimento também foi beneficiado pelo aquecimento do setor. De acordo com balanço divulgado pelo Sindicato Nacional da Indústria de Cimento (SNIC), as vendas de cimento em dezembro somaram 4,9 milhões de toneladas, um aumento de 4,7% em relação ao mesmo mês de 2024.

Com esse resultado, o setor encerrou 2025 com um total de 67 milhões de toneladas comercializadas, acumulando uma alta de 3,7% em 2025 — o que representa 2,4 milhões de toneladas a mais sobre o ano anterior.

O balanço também revela que todas as regiões apresentaram crescimento anual acumulado, com liderança do Nordeste (7,2%), seguido por Norte (4,0%), Sul (3,1%), Sudeste (2,7%) e Centro-Oeste (1,9%).

"O desempenho corrobora a trajetória de expansão, embora o volume total ainda permaneça distante do recorde histórico de 2014, de 73 milhões de toneladas", afirma o texto do balanço enviado à imprensa. 

Desaceleração e desafios

Apesar do clima positivo, o setor deve começar 2026 com um ritmo mais lento de crescimento. O PIB do setor, projetado para 1,8% em 2025, ficou abaixo da estimativa anterior, que era de 2,2%. Foi o segundo corte no ano, que começou com expectativa de alta de 3%. Vale lembrar que, em 2024, o setor encerrou com alta de 4,3% no PIB.

Segundo Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), o principal motivo da revisão é a queda no consumo de materiais de construção pelas famílias.

“Juros elevados, renda comprimida e endividamento frearam reformas e pequenas obras, impactando diretamente o setor. Até setembro, apenas 47% da demanda por materiais veio do segmento familiar. Com isso, o crescimento de 1,8% do PIB da construção será puxado pelas construtoras", explica.

A escassez de mão de obra qualificada também segue como maior entrave, de acordo com o Sondagem da Construção. O mercado de trabalho atingiu pleno emprego em 2025, e o custo com pessoal deve fechar o ano com alta próxima de 10% - pressão que pode comprometer o crescimento se não houver resposta estrutural.

O presidente do Sinduscon-SP, Yorki Estefan, afirmou que a construção demandará uma mão de obra mais especializada e cara. Para ele, o Programa Reforma Casa Brasil vai competir com as construtoras, por absorver mão de obra informal.

Felipe Boaventura, vice-presidente de política, relações trabalhistas e recursos humanos do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG), afirma que levantamentos internos indicam a escassez de mão de obra como o principal desafio do segmento. “O problema é reportado por mais de 90% das empresas”, afirma.

Até 2030, o Brasil poderá ter um déficit de um milhão de engenheiros para atuar em obras ligadas a programas governamentais, como o MCMV. O cálculo é do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e a estimativa é feita a partir de um cenário de queda, nos últimos dez anos, do número de estudantes que concluíram a graduação em alguma área da engenharia no país, segundo o Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

 
Fonte: O Tempo
Seção: Construção, Obras & Infraestrutura
Publicação: 12/01/2026

Intervenção dos EUA na Venezuela pode gerar efeitos setoriais no Brasil

A pesada intervenção dos Estados Unidos na Venezuela tende a ter implicações no Brasil, porém os impactos potenciais devem ocorrer em diferentes escalas, dependendo do segmento.

Enquanto, na macroeconomia esses efeitos tendem a ser pouco sentidos no curto prazo, na esfera política e em setores como energia e mineração, no médio e longo prazo, os impactos podem ser mais relevantes.

Desde a captura do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças de segurança dos Estados Unidos, a administração do presidente Donald Trump tem feito uma série de anúncios indicando que, além da captura de Maduro, a intenção é controlar, no longo prazo, a produção e a exportação de petróleo da Venezuela. 

Os EUA também sinalizam diretrizes sobre como o país latino-americano deve utilizar os recursos financeiros obtidos com a venda de petróleo, sugerindo que sejam destinados à compra de produtos norte-americanos.

"Em termos práticos, a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela tem efeito nulo para a macroeconomia do Brasil, porque há anos a Venezuela já apresentava indicadores muito ruins e a relação comercial com o Brasil era praticamente inexistente. Por isso, para o PIB do Brasil, o que acontece na Venezuela agora não terá impacto esse ano", disse à BNamericas Roberto Troster, ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Petróleo

Troster, porém, alertou que esse cenário pode mudar no longo prazo, à medida que avancem os planos dos Estados Unidos no setor petrolífero venezuelano.

A Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, com 303 bilhões de barris, à frente da Arábia Saudita, com 267 bilhões de barris. Mas, em termos de qualidade, o petróleo venezuelano é considerado pesado ou extrapesado, o que limita seu uso e eleva os custos de produção.

Dependendo do avanço dos planos dos Estados Unidos, o Brasil poderia ser afetado tanto em termos de atração de investimentos pro seu segmento de petróleo, com mais empresas globais direcionando recursos para projetos na Venezuela em detrimento de outros países, quanto em caso de um aumento expressivo da produção de petróleo venezuelano, o que poderia exercer pressão baixista sobre os preços internacionais.

Uma pressão baixista nos preços do petróleo afetaria de forma importante a balança comercial brasileira. Em 2025, o petróleo foi o produto mais exportado pelo Brasil, superando a soja e também o minério de ferro.

Mineração

Outro segmento que pode sentir efeitos no longo prazo é o setor de mineração. 

Analistas têm observado que, além do petróleo, as reservas minerais da Venezuela, hoje pouco exploradas, também podem entrar no radar dos Estados Unidos. Isso ocorre em um momento em que o presidente Trump tem reiterado interesse em anexar a Groenlândia aos Estados Unidos, região conhecida também por suas elevadas reservas minerais, inclusive de terras raras.

"A Venezuela interessa aos Estados Unidos por causa de suas reservas de petróleo, mas também é preciso lembrar que os EUA têm demonstrado interesse crescente no setor mineral da América Latina, especialmente em elementos de terras raras. Esse movimento sinaliza que os Estados Unidos querem reafirmar a região como parte de sua esfera de influência e conter a crescente presença da China nas últimas décadas", disse à BNamericas André Pereira César, analista político da consultoria Hold Consultoria.

A China exerce um papel-chave na mineração brasileira. O país asiático é o principal comprador de commodities minerais produzidas no Brasil e, além disso, nos últimos anos, empresas chinesas têm realizado uma série de aquisições de ativos e projetos de mineração no país.

"Por tudo que estamos vendo nos últimos dias, não dá para descartar que, em algum momento, os Estados Unidos queiram impor algum tipo de sanção a países que fazem negócios com a China, o que afetaria o Brasil. Isso, claro, para reduzir a influência da China na região, " disse César.

Eleições no Brasil

A crescente influência dos Estados Unidos na América Latina também coloca analistas em alerta para uma potencial interferência no cenário político. 

No Brasil, o tema é particularmente sensível, à medida que, em outubro, o país terá eleições para presidente, governadores, deputados e senadores.

O atual presidente de esquerda do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, já anunciou intenção de se candidatar à reeleição. Enquanto isso, partidos de direita no país, desde a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado nas eleições anteriores, têm encontrado dificuldades para articular um nome de consenso.

"Hoje, trabalhamos com uma probabilidade de cerca de 60% de reeleição do presidente Lula, que segue como favorito", disse à BNamericas Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da consultoria de risco político Eurasia Group. 

"A questão venezuelana pode ter alguma ressonância no discurso da oposição do Brasil e pesquisas mostram apoio relevante à intervenção americana na América Latina. Isso pode ajudar taticamente a oposição no curto prazo, mas não deve alterar de forma estrutural o cenário eleitoral," disse.

Lula, que historicamente foi um apoiador de Maduro, criticou a operação dos Estados Unidos na Venezuela. Já políticos de direita no Brasil, como o governador do estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, cotado como potencial candidato às eleições presidenciais, comemoraram a captura.

As relações políticas entre Brasil e Estados Unidos têm sido marcadas por uma série de nuances desde que Trump assumiu o governo. Em meados do ano passado, Trump impôs uma tarifa de 50% sobre exportações brasileiras aos Estados Unidos, sob a alegação de que o processo judicial contra Bolsonaro representava uma perseguição política.

Com o tempo, o tom tenso deu espaço a uma relação mais equilibrada, com Trump e Lula abrindo espaço para diálogo, o que resultou em uma série de exceções às tarifas. Atualmente, mesmo após condenar a captura de Maduro pelos Estados Unidos, Lula evitou fazer críticas diretas a Trump.

Analistas veem isso como uma tática de Lula para tentar evitar que a administração Trump atue de forma direta nas eleições no Brasil, apoiando candidatos de direita.

Tal tática de Lula ganha força à medida que a administração Trump dá sinais recentes de que não é necessariamente sensível a apoiar políticos de direita, mostrando-se aberta a trabalhar junto com membros da então administração de Maduro, que agora estão assumindo a Venezuela.

Infraestrutura

Enquanto isso, um dos setores mais dinâmicos do Brasil em termos de investimentos e novos contratos, a infraestrutura, deve perceber pouco impacto das questões geopolíticas.

"Não temos registrado, neste momento, nenhuma sinalização de dificuldades no avanço da agenda de leilões, que já está bastante robusta para o primeiro trimestre deste ano", Roberto Guimarães, diretor de Planejamento e Economia da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib),  disse à BNamericas.

"Os investimentos em infraestrutura são decisões que olham para horizontes de vinte a trinta anos, por isso há uma maior resiliência desses investidores", acrescentou Guimarães.

O país terá pelo menos 11 leilões de concessões e PPPs, com destaque para os setores de infraestrutura e saneamento, ao longo do primeiro trimestre deste ano. Até agora, os leilões já agendados devem gerar investimentos projetados de cerca de R$34 bilhões (bi).

 
Fonte: BN Americas
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 09/01/2026