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EUA garantem acesso a terras raras do Brasil em acordo bilionário

Os Estados Unidos avançaram na disputa global por minerais estratégicos ao garantir acesso a terras raras produzidas no Brasil como parte de um financiamento de US$ 565 milhões à mineradora Serra Verde.

O acordo, conduzido pela U.S. International Development Finance Corporation (DFC), inclui mecanismos que permitem aos americanos influenciar o destino da produção, uma condição inédita até então não divulgada.

A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla dos Estados Unidos para reduzir sua dependência da China, que hoje domina a cadeia global de terras raras, insumos essenciais para tecnologias que vão de carros elétricos a sistemas de defesa.

Brasil no centro da corrida por minerais estratégicos

O Brasil ocupa posição estratégica nesse tabuleiro. O país possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas ainda tem produção limitada.

Atualmente, a Serra Verde opera a única mina ativa dedicada a esses minerais no país, localizada em Goiás.

A jazida de Pela Ema, explorada pela companhia, é uma das poucas fontes relevantes de terras raras pesadas fora da China, um diferencial que tem atraído atenção crescente de governos e empresas ao redor do mundo.

Esses elementos são fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes usados em turbinas eólicas, veículos elétricos, eletrônicos e equipamentos militares, tornando-se peças-chave na transição energética e na segurança nacional.

Acordo inclui controle sobre destino da produção

Segundo executivos da DFC, o financiamento está atrelado a cláusulas de “offtake”, que garantem prioridade de fornecimento a empresas americanas ou alinhadas aos interesses dos EUA.

Na prática, isso significa que parte relevante da produção da mineradora brasileira poderá ser direcionada ao mercado norte-americano, limitando sua disponibilidade para outros compradores, inclusive a própria China.

O movimento reflete uma mudança de postura de Washington, que tem adotado uma política industrial mais ativa para garantir acesso a insumos críticos, especialmente após gargalos nas cadeias globais durante a pandemia e tensões geopolíticas recentes.

Disputa global se intensifica

Além dos EUA, outros atores também buscam acesso às reservas brasileiras. A União Europeia, a Índia e a própria China já demonstraram interesse nos projetos de terras raras no país.

A competição ocorre em um momento de forte crescimento da demanda global, impulsionada pela eletrificação da economia, expansão das energias renováveis e corrida por tecnologias avançadas, incluindo inteligência artificial e armamentos.

Especialistas apontam que o controle dessas cadeias pode redefinir relações de poder nas próximas décadas, substituindo o papel histórico do petróleo por minerais críticos.

Estratégia dos EUA vai além do Brasil

O acordo com a Serra Verde não é isolado. A DFC também negocia participação acionária em empresas de minerais estratégicos, como a australiana Syrah Resources, produtora de grafite, outro insumo essencial para baterias.

A agência americana avalia converter dívida em participação acionária, o que ampliaria seu controle direto sobre ativos considerados estratégicos.

Além disso, instituições como o banco de exportação dos EUA analisam financiamentos bilionários para projetos de mineração de outros minerais críticos, como antimônio, usado na indústria de defesa.

Desafio brasileiro: potencial versus financiamento

Apesar do interesse internacional, o Brasil ainda enfrenta entraves para expandir sua produção.

Pelo menos meia dúzia de projetos de terras raras está em desenvolvimento, mas a falta de financiamento e infraestrutura limita o avanço.

Nos últimos anos, a Serra Verde chegou a redirecionar parte de sua produção, antes destinada majoritariamente à China, para compradores globais — movimento alinhado à diversificação de mercados.

O governo brasileiro mantém diálogo com os EUA sobre cooperação no setor, enquanto busca equilibrar interesses econômicos e soberania sobre recursos naturais.

 
Fonte: Veja
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 02/04/2026

 

Minerais Críticos: relatório do marco legal não inclui nova estatal, diz Jardim

O deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) afirmou nesta terça-feira (31) que o texto final da proposta de marco legal dos minerais críticos não vai incluir a criação de estatal ou restringir exportações de minerais. As duas medidas foram ventiladas nas discussões de integrantes do governo que integram o GT (Grupo de Trabalho) criado para tratar deste tema.

“Não acredito e vou ser contra à visão, que dialoga mais com o passado, de que nós temos que criar uma ‘Mineirobras’ ou que devemos cercear de alguma forma a exportação. Nosso parecer não vai nesse sentido. Ele incorpora conceitos do interesse público”, disse o parlamentar

Jardim é relator PL (Projeto de Lei) 2.780/2024, que reúne outros 12 propostas legislativas a exploração de minerais críticos. A declaração foi dada durante almoço da FPE (Frente Parlamentar do Empreendedorismo), em parceria com a FPMS (Frente Parlamentar da Mineração Sustentável).

Para o deputado, a criação de uma estatal para ditar o ritmo da exploração dos minerais críticos e também defender o interesse nacional é uma forma “old-fashioned estatizante”, que não ajudará o país. A possibilidade de criar uma estatal foi levantada por integrantes do governo após os Estados Unidos buscarem acordo de cooperação com os governos estaduais na extração de terras raras. A nova estatal foi chamada em conversas internas de “Terrabras”, disseram fontes.

Parecer final
Jardim afirmou que o parecer final do PL 2.780 será protocolado na proxima semana, no dia 7 de abril, liberando o texto para análise e votação em plenário. No entanto, ele disse que a votação dependerá do que for prioridade para os deputados.

O deputado afirmou que o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tem interagido com o Senado para alinhar a tramitação de propostas discutidas nas duas Casas. “Motta já dialogou com o presidente Davi Alcolumbre [União-AP] para que haja uma sintonia, ou até uma sincronia, de tramitação. O projeto tramitando na Câmara vai estar observando a dinâmica do Senado”, afirmou.

 
Fonte: Agência iNFRA
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 01/04/2026

Indústrias calculam o ‘preço’ do tarifaço

A fabricante de armas Taurus espera em algum momento reaver US$ 18 milhões pagos em tarifas de exportação para os Estados Unidos, as quais foram derrubadas em fevereiro pela Suprema Corte do país. Assim como ela, outras grandes companhias brasileiras, exportadoras ou com produção na América do Norte, passaram a segunda metade de 2025 buscando formas de contornar os impactos do tarifaço.

Passada a safra de balanços do quarto trimestre e do exercício de 2025, indústrias como Tupy, Iochpe-Maxion, WEG e a própria Taurus fazem as contas dos estragos que as tarifas americanas fizeram em suas contas.

“A nossa guerra acabou”, afirmou o diretor-presidente da Taurus, Salesio Nuhs, na teleconferência de resultados do quarto trimestre da companhia, ao referir-se ao fim da cobrança da tarifa de 50% que vinha incidindo sobre os embarques para os EUA. Armas não entraram na lista de produtos isentos da sobretaxa de 40%, anunciada por Donald Trump em julho do ano passado e somada à alíquota “recíproca” de 10% aplicada inicialmente.

A multinacional brasileira Iochpe-Maxion, com atuação em 14 países na produção de rodas para veículos e insumos para a indústria de transporte, registrou um impacto de R$ 700 milhões em sua receita devido ao tarifaço. Como tem quatro unidades no México e nos EUA, a companhia não teve efeitos diretos das tarifas, já que, por acordos regionais, seus produtos fabricados no México são isentos quando o destino é o mercado americano. Mas sua produção foi impactada por uma queda no volume de vendas de rodas de aço e chassi para caminhões de grande porte. Foi um efeito indireto, já que, com as tarifas, as importações americanas caíram, levando junto o volume e o preço dos fretes e a vontade dos transportadores de renovar a frota.

“A queda de volumes esteve muito mais relacionada ao enfraquecimento da demanda final do que a um efeito direto das tarifas”, resume Renato Salum, diretor financeiro e de relações com investidores da Iochpe-Maxion, ao Valor. “A queda da produção de caminhões na América do Norte no ano passado teve um efeito mais indireto do que direto das tarifas. O comprador final não percebe imediatamente o impacto inflacionário nos preços, o que aumenta a incerteza e leva ao adiamento da decisão de compra, afetando a demanda ao longo da cadeia, inclusive no México”, afirma Salum.

Segundo o executivo, em termos financeiros, a Iochpe-Maxion teve “uma redução de aproximadamente R$ 700 milhões no faturamento, o equivalente a cerca de 35% da receita [da área] de componentes estruturais na América do Norte”.

Segundo Salum, com base em conversas com clientes e análises de consultorias especializadas, há expectativa de normalização da demanda no segundo semestre de 2026. “Essa visão é sustentada pelo aumento dos pedidos de veículos extrapesados observado desde o fim de 2025, movimento que se intensificou no início deste ano.”

Para a Taurus, a nova tarifa de 10% anunciada por Trump no mesmo dia da decisão judicial, com base em outro dispositivo, este da Lei de Comércio, foi praticamente compensada pelo aumento de 7% que a companhia implementou sobre os preços dos seus produtos praticados nos EUA ainda no início do tarifaço, segundo Nuhs.


"Queda de volumes esteve mais relacionada ao enfraquecimento da demanda final”
— Renato Salum

Para minimizar os efeitos, a companhia também ativou linhas de montagem na subsidiária Taurus USA, no Estado da Geórgia, passando a exportar peças, que têm valor agregado menor do que os produtos já montados. Hoje, são fabricadas na unidade todas as pistolas da família G.

“Além disso, tomamos medidas radicais com relação à produtividade, seja por redução de pessoas, ou por alteração dos nossos processos produtivos”, conta Nuhs ao Valor. Mesmo assim, a Taurus estima em US$ 18 milhões o montante pago em tarifas em 2025 e no início deste ano.

A Taurus chegou a contratar dois escritórios de advogados nos EUA para buscar a devolução das tarifas e recentemente decidiu seguir com um só.

A fundição Tupy citou o tarifaço como um fator de pressão sobre as vendas de componentes estruturais, como blocos e cabeçotes de motores, no seu desempenho do quarto trimestre. A receita líquida com esse segmento de produtos recuou 5,1% na base anual, para R$ 1,31 bilhão no período.

Para este ano, o comando da fundição disse, na teleconferência de resultados, enxergar sinais positivos no cenário externo, com a redução de incertezas relativas às tarifas refletindo-se em um aumento de pedidos em montadoras, o que deve ampliar a produção da Tupy a partir do segundo semestre. Procurada, a empresa não quis comentar.

Em relatório, analistas do banco Safra apontaram que a remoção da tarifa de 50% deve aumentar a competitividade da WEG, permitindo a ela retomar exportações diretas do Brasil para os EUA, em vez de necessariamente usar o México como intermediário. Em entrevista ao Valor em outubro do ano passado, o diretor-financeiro, André Rodrigues, contou que a unidade mexicana da companhia estava quase que totalmente dedicada ao mercado dos EUA.

Na teleconferência do quarto trimestre, após a derrubada das tarifas, Rodrigues afirmou que ainda era cedo para desenhar um novo cenário e ressaltou que continua em vigor a tarifa de 50% colocada sobre importações de aço e alumínio e vários derivados, por meio da Seção 232 da Lei de Expansão do Comércio. Em uma análise do balanço, o Citi afirmou que, apesar de a receita ter seguido pressionada, a margem bruta de 34% alcançada no quarto trimestre sugere que a WEG “está melhorando seu ‘mix’ e enfrentando os impactos das tarifas mais rapidamente do que o mercado havia antecipado”. Procurada, a WEG não quis comentar.

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 01/04/2026

 

EUA apostam bilhões em empresas sem histórico no setor de terras raras

O governo Trump está prestes a investir US$ 1,6 bilhão em uma mineradora que pretende extrair terras raras e fabricar ímãs de alta tecnologia nos EUA. Mas a empresa, que opera no prejuízo, ainda não fez nenhuma das duas coisas comercialmente.

O acordo com a USA Rare Earth faz parte de uma série de tratados similares que o governo Trump fechou no último ano, na busca por cadeias de suprimentos domésticas seguras para minerais críticos, incluindo terras raras.

Mas alguns especialistas do setor questionaram se as empresas escolhidas pelo governo são capazes de cumprir suas promessas, enquanto um executivo observou que empresas em estágio inicial como a USA Rare Earth não estão preparadas para "resolver problemas".

Além disso, empresas que conquistaram apoio governamental têm vínculos financeiros com pessoas próximas ao governo Trump, o que levou democratas a questionar os acordos.

As terras raras são cruciais para a segurança e economia dos EUA, e são usadas em ímãs presentes em carros elétricos, armamentos e uma ampla gama de indústrias. Mas sua produção é dominada pela China, que tem explorado seu controle restringindo o acesso a elas.

Heidi Crebo-Rediker, pesquisadora sênior do Council on Foreign Relations e ex-economista-chefe do Departamento de Estado, disse sobre as negociações do governo: "É uma questão de assumir riscos maiores, o que acredito que este governo está disposto a fazer. Em vez de verificar se o governo perde dinheiro em cada investimento, devemos olhar se o dinheiro está ajudando a aumentar a resiliência".

O governo estava adotando uma "abordagem tipo capital de risco, onde se você investe em 10 empresas e, se algumas delas têm sucesso, você pode ter uma grande diferença", disse Ryan Castilloux, diretor-geral do grupo de pesquisa em terras raras Adamas Intelligence.

Round Top, o depósito da USA Rare Earth em Sierra Blanca, Texas, nunca foi minerado comercialmente, mas espera-se que contenha 15 dos 17 elementos de terras raras.

O plano da empresa de produzir as chamadas terras raras "pesadas", que são especialmente difíceis de obter fora da China, foi fundamental para o interesse do governo na empresa, disse Joel Fetter, diretor-geral do grupo de lobby Clark Street Associates, que trabalhou na transação.

Mas ainda não está claro quanto de cada metal pode ser extraído. A USA Rare Earth, fundada em 2019, ainda não concluiu um chamado "estudo de viabilidade definitivo", um marco que analisa se os metais são recuperáveis e economicamente viáveis para mineração.

Round Top tem um histórico que remonta a décadas de não ser desenvolvido, e especialistas do setor disseram que a concentração de terras raras no depósito — metal por unidade de rocha — era relativamente baixa, o que significa que podem ser mais caros e difíceis de extrair.

Em fevereiro, o Center for Strategic and International Studies dos EUA caracterizou o teor como "excepcionalmente baixo", o que, segundo eles, poderia desafiar a "viabilidade comercial" de Round Top.

Outro teste era a "sopa" de minerais do local, disse o Centro. A avaliação econômica preliminar de 2019 da USA Rare Earth disse que metade das vendas esperadas da mina viria não de terras raras, mas de outros metais, incluindo urânio, háfnio e lítio.

Merriman disse que produzir uma ampla variedade de minerais "complicaria significativamente o processamento e aumentaria os requisitos de capital".

A USA Rare Earth disse que a avaliação de 2019 não refletia mais seu plano de desenvolvimento atual — embora a CEO Barbara Humpton tenha dito a analistas em janeiro que o háfnio ainda seria um "divisor de águas" para a economia de Round Top.

A empresa mirava iniciar a mineração em escala comercial em 2028, em meio a um plano para competir com a China. O projeto envolve a extração de metais em Round Top, com testes indicando a possibilidade de recuperar quantidades relevantes de terras raras pesadas.

Humpton ingressou na USA Rare Earth em outubro, vinda da Siemens, onde liderava as operações nos EUA. Segundo Fetter, o acordo com o governo "se concretizou em questão de meses", após discussões iniciais com o secretário de Comércio, Howard Lutnick.

O antigo banco de investimentos de Lutnick, Cantor Fitzgerald, apoiou a empresa na oferta pública via Spac e na captação de US$ 1,5 bilhão anunciada em janeiro. Os recursos eram uma das condições para o financiamento governamental provisório, que também exige a conclusão do estudo de viabilidade e o cumprimento de outros marcos.

A ligação com Lutnick gerou críticas de parlamentares democratas, que apontaram possível benefício à sua família e à antiga empresa. O Departamento de Comércio afirmou que o secretário cumpriu integralmente as regras de ética e que a Cantor não participou do acordo. A Casa Branca, por sua vez, disse que a prioridade é reforçar cadeias de suprimento estratégicas para a segurança nacional.

Outras empresas apoiadas pelo governo incluem a Vulcan Elements e sua parceira ReElement Technologies, que garantiram US$ 1,4 bilhão. A ReElement integra o portfólio da American Resources Corporation, que, em relatório recente, indicou "dúvida substancial" sobre sua capacidade de continuar operando, embora espere avançar na captação de recursos.

O Pentágono afirmou que o financiamento é diretamente com a ReElement, e que haverá diligências adicionais antes do desembolso. A American Resources contestou as críticas públicas, mas sem detalhar. Em seu balanço mais recente, reportou cerca de US$ 2,1 milhões em caixa.

A companhia também enfrenta processo movido pelo UMB Bank por US$ 45 milhões, relacionado a um financiamento firmado em 2023. A ação alega transferências irregulares de recursos, o que é negado pela empresa, que entrou com reconvenção. O caso deve ir a julgamento em 2027.

Apesar das dúvidas sobre a viabilidade de Round Top, a USA Rare Earth adquiriu a britânica Less Common Metals por US$ 217 milhões —um ativo considerado estratégico. A empresa possui expertise na transformação de terras raras em metais usados na fabricação de ímãs, embora opere com prejuízo e receita limitada.

A USA Rare Earth pretende expandir essa operação com novas unidades na França e nos Estados Unidos, incluindo uma fábrica de ímãs em Oklahoma, com planos de produção em escala até o fim da década. Especialistas apontam a Less Common Metals como uma peça relevante da cadeia fora da China.

Para o setor, um desafio central é a dependência de apoio público. Empresas argumentam que não conseguem competir com rivais chineses, que operam com custos mais baixos e maior escala. Isso tem impulsionado a defesa de mecanismos como preços mínimos garantidos —modelo já adotado em acordo com a MP Materials.

Humpton, no entanto, afirmou que a empresa não depende desse tipo de instrumento, citando a existência de demanda suficiente fora da China para sustentar o negócio.
 

Fonte: Folha de São Paulo
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 31/03/2026

 

Confronto entre Brasil e EUA expõe fragilidades da OMC e impõe novo realismo ao comércio global

O crescente embate comercial entre Brasil e Estados Unidos tem colocado à prova não apenas a relação bilateral entre as duas economias, mas também a efetividade da Organização Mundial do Comércio (OMC) como mediadora de disputas internacionais. O cenário atual revela um choque de realidade para o sistema multilateral de comércio, que enfrenta limitações cada vez mais evidentes diante das tensões geopolíticas.

Nos últimos meses, o Brasil recorreu à OMC para contestar medidas comerciais adotadas pelos EUA, incluindo tarifas consideradas excessivas sobre produtos brasileiros. O movimento segue o rito tradicional do organismo, que prevê consultas formais entre as partes antes de eventuais sanções. No entanto, o desfecho dessas disputas tem sido cada vez mais incerto.

Sistema de resolução de conflitos enfraquecido

Um dos principais problemas apontados é a paralisia do órgão de apelação da OMC, responsável por dar a palavra final em disputas comerciais. Sem esse mecanismo plenamente funcional, decisões acabam perdendo eficácia prática.

Na avaliação de analistas, isso reduz o poder do sistema multilateral e incentiva países a adotarem medidas unilaterais, mesmo que controversas. O caso envolvendo Brasil e Estados Unidos ilustra esse cenário: embora haja instrumentos formais para contestação, sua capacidade de impor soluções concretas está limitada.

Disputa comercial reflete mudança na ordem global

O confronto também reflete uma transformação mais ampla no comércio internacional. Potências econômicas têm priorizado interesses estratégicos domésticos, muitas vezes em detrimento das regras multilaterais.

Os Estados Unidos, por exemplo, vêm adotando políticas comerciais mais assertivas, com uso frequente de tarifas e medidas de proteção. Já o Brasil tenta preservar o funcionamento das instituições globais, apostando no diálogo e nas regras da OMC como forma de garantir previsibilidade.

Essa diferença de abordagem evidencia uma tensão central: enquanto países emergentes dependem mais de regras multilaterais, grandes potências têm maior capacidade de agir unilateralmente.

Impactos econômicos e riscos para o Brasil

Para o Brasil, o conflito traz riscos relevantes. As tarifas impostas pelos EUA afetam diretamente setores exportadores e podem reduzir a competitividade de produtos nacionais no mercado internacional.

Além disso, a incerteza jurídica e institucional dificulta o planejamento de empresas e investidores. Sem garantias claras de arbitragem internacional, o ambiente de negócios tende a se tornar mais volátil.

Por outro lado, o recurso à OMC ainda tem valor político e estratégico, ao reforçar a posição do país como defensor do multilateralismo e da previsibilidade nas relações comerciais.

OMC enfrenta crise de relevância

O episódio reforça uma percepção crescente: a OMC enfrenta uma crise de relevância. Criada para garantir equilíbrio e previsibilidade no comércio global, a instituição encontra dificuldades para lidar com um mundo mais fragmentado e competitivo.

A ausência de consenso entre grandes potências e o enfraquecimento de seus mecanismos decisórios colocam em dúvida sua capacidade de resolver conflitos de forma eficaz.

Um novo cenário para o comércio internacional

O confronto entre Brasil e Estados Unidos simboliza uma mudança estrutural no comércio global. A lógica baseada em regras e instituições multilaterais dá lugar, gradualmente, a um ambiente mais marcado por disputas diretas e interesses nacionais.

Para o Brasil, o desafio será equilibrar a defesa do sistema multilateral com a necessidade de proteger seus interesses econômicos em um cenário cada vez mais incerto.

Mais do que um episódio isolado, o embate atual indica que o comércio internacional está entrando em uma nova fase — menos previsível, mais estratégica e com regras em constante redefinição.

 
Fonte: Infomet
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 30/03/2026

 

Com importações e estoques em alta, vendas de aço devem cair 4,2% no 1º trimestre

Durante o mês de fevereiro, as vendas de aços planos contabilizaram alta de 1,1% quando comparadas a janeiro, atingindo o montante de 297,2 mil toneladas frente a 293,9 mil toneladas do primeiro mês do ano. A alta, no entanto, não deve contribuir para um bom resultado no primeiro trimestre do ano, já que a expectativa do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda) é de queda de 4,2% nos três primeiros meses do ano em comparação ao mesmo período do ano passado.

Mesmo com projeção de elevação de 15% nas vendas para março, a expectativa do Instituto é de um trimestre com resultados aquém do ano passado. A justificativa do superintendente da entidade, Gilson Bertozzo, é que os estoques de aço no País seguem elevados, fato que tem preocupado o setor.

O volume acumulado gira em torno de 1,13 milhão de toneladas contra 1,12 milhão de toneladas no mês passado, uma expansão de 0,8%, o que corresponde a quase quatro meses de comercialização. O nível que a entidade considera aceitável é de três meses de estoque.

Perspectivas para o segundo semestre

Para Bertozzo, as vendas só melhorarão no segundo semestre, quando os estoques de aço que estão nas mãos dos importadores forem reduzidos. “Acredito que teremos uns três meses de expurgo que tirarão do mercado os aventureiros”, afirmou.

O superintendente do Inda explica que a partir da redução dos estoques de importações, já com os efeitos das medidas antidumping, a indústria brasileira tem espaço para recuperar, ajustar preços e apresentar melhor desempenho.

“Estamos sustentando ainda que este ano será melhor do que 2025 e teremos um crescimento de 1,5%. Acreditamos que as medidas do governo foram acertadas e isso, a médio prazo, proporcionará um efeito positivo para nós”, afirmou.

Importações de aço seguem em alta

Ainda de acordo com os dados do Inda, as importações do aço no Brasil continuam em alta. No segundo mês do ano, o acréscimo foi de 91,7% se comparado ao mesmo mês do ano anterior.

Parte desse efeito foi justificado em função do calendário, já que o Carnaval do ano passado não ocorreu em fevereiro, deixando o mês de análise, em 2025, com mais dias úteis. Comparando as importações de fevereiro com janeiro deste ano, a alta foi de 79%, com volume total de 404,8 mil toneladas contra 225,6 mil.

Outro motivo apresentado pelo superintendente do Inda para a alta é o fato de as importadoras terem antecipado a nacionalização de muitos produtos. “Em função das ações antidumpingaplicadas pelo governo, as importadoras anteciparam a nacionalização dos produtos que estavam nos estaleiros e nos portos. Além disso, soubemos que muitos navios ainda em trânsito também tiveram seus produtos nacionalizados pelas importadoras, com vista aos preços praticados antes do antidumping”, comentou Bertozzo.

Guerra do Oriente Médio pressiona frete e eleva preço do aço

A escalada das tensões no Oriente Médio foi outro ponto comentado por Bertozzo. Segundo ele, o conflito já impactou o mercado do aço, mas a expectativa é de que esses impactos percam força nas próximas semanas.

De acordo com o superintendente do Inda, o aumento da insegurança internacional tem pressionado os custos de frete marítimo e contribuído para a alta dos preços do produto no exterior. “Se analisarmos os números, os preços das bobinas no mercado internacional já cresceram. O preço mundial subiu 5% e uma das causas é o reflexo da guerra”, explicou.

Apesar da pressão atual, a expectativa do setor é de que o cenário seja temporário. “A expectativa é de que essa insegurança não dure mais que duas a quatro semanas em função dos prejuízos que esse conflito já está trazendo para os Estados Unidos”, finalizou Bertozzo.

 
Fonte: Diário do Comércio
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 27/03/2026