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Indústria do aço no Brasil reduz mais de 5.000 empregos até novembro e culpa importação chinesa

As siderúrgicas instaladas no Brasil reduziram 5.100 empregos e suspenderam R$ 2,5 bilhões em investimentos até novembro deste ano em meio às fortes pressões causadas pelas importações de aço chinês no país. Os dados foram divulgados nesta terça-feira (16) a jornalistas pelo Instituto Aço Brasil, que não detalhou os valores por empresa.

Neste mesmo período, quatro alto-fornos, uma aciaria e cinco minimills (usinas semi-integradas que fundem sucatas em fornos elétricos) tiveram que ser paralisados devido a uma menor demanda pelo aço produzido internamente em comparação com o ano passado.

O instituto, que representa o setor no país, revisou para baixo a produção de aço bruto no Brasil de uma queda de 0,8% para uma queda de 2,2%. A estimativa é que, ao final de 2025, as siderúrgicas brasileiras tenham produzido 33,1 milhões de toneladas de aço e vendido 21,1 milhões no mercado interno e 10,2 milhões para o externo –nessas últimas houve aumento de 6,9% na projeção.

Quanto às importações de aço bruto, a estimativa para o fim do ano é de um aumento de 7,5% em relação a 2024 e de 20,5% em relação aos aços laminados, principal produto vendido para a construção civil, além de fabricantes de automóveis e maquinários. Houve queda na projeção do instituto, que previa aumento de 19,1% e 32,2%, respectivamente.

A queda, segundo o instituto, se dá pela redução de preços dos produtos das siderúrgicas brasileiras, que precisaram se adequar para competir com as empresas chinesas. Mas, apesar da redução, o setor ainda enxerga a entrada de aço chinês no país como o principal entrave do mercado.

Até novembro, o Brasil importou 5,4 milhões toneladas de aço laminado, contra uma média de 2,2 milhões anuais entre 2000 e 2019 –a disparada de importações começou após a pandemia de Covid-19, quando a intensidade do consumo interno de aço na China diminuiu, provocando aumento de exportações pelas empresas chinesas. Do total de importações até novembro, por exemplo, 64% vieram da China.

Além disso, outras 6,2 milhões de toneladas de aço entraram de forma indireta no país, já convertidas em produtos finais, como eletrodomésticos, automóveis e maquinários.

O Instituto Aço Brasil atribui a entrada massiva de aço chinês no Brasil ao que chama de estratégias ilegais do governo chinês.

A jornalistas, a organização apresentou dados da Platts, plataforma de monitoramento global de preços, que indicam queda exponencial no preço do aço chinês de janeiro de 2024 (quando a tonelada de bobinas a quente eram vendidas a US$ 560) para novembro de 2025 (US$ 454). A queda, no entanto, acontece no mesmo momento em que há redução das margens das usinas chinesas, o que, segundo o Instituto Aço Brasil, representa dumping comercial, quando empresas vendem produtos no exterior abaixo do custo ou preço do mercado interno para eliminar a concorrência.

Em maio, o governo brasileiro atendeu a um pleito do setor e renovou as cotas para entrada de 16 tipos de aço no país, sendo que 76% desses produtos vinham da China. A medida, no entanto, apesar de ser vista como positiva pelas siderúrgicas, não resolveu os problemas do setor.

No terceiro trimestre de 2025, por exemplo, o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) das siderúrgicas com instalação no Brasil foi de R$ 2,8 bilhões, quase metade do registrado no mesmo período do ano passado. Já a margem Ebitda, que leva em conta a proporção do índice sobre a receita líquida das empresas, reduziu de 12,9% para 7,7%.

Agora, o setor tenta convencer o governo federal a aumentar as tarifas de importação de aço, hoje entre 9% e 16% sobre os produtos alvos da medida do governo federal e de 25% sobre a quantidade que ultrapassam as cotas determinadas em maio.

Outra frente dos esforços institucionais do setor diz respeito às tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos a qualquer tipo de aço que entra no país, independentemente do país de origem.

De acordo com o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, o instituto espera que, em meio à melhora nas relações entre os dois países, o governo de Donald Trump anule as tarifas ao produto brasileiro e retome o sistema de cotas criado em 2018. Neste período, as siderúrgicas brasileiras podiam exportar até 3,5 milhões de toneladas aço semiacabado para os americanos sem pagar tarifas.

"Em 2018, o Trump fez rigorosamente a mesma coisa [...] e no nosso entendimento, no exemplo de 2018, se for exitoso esse canal negocial, o acordo pode ser restabelecido e o Brasil forneceria a cota e, em vez de ser taxado em 50%, ficaria com 0%", afirmou.

 
Fonte: Folha de São Paulo
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 17/12/2025

 

China anuncia licenças para exportação de aço a partir de 2026 e sinaliza maior controle sobre o setor

A China, maior produtora e exportadora de aço do mundo, anunciou que passará a exigir licenças para a exportação de determinados produtos siderúrgicos a partir de 1º de janeiro de 2026. A iniciativa, confirmada em comunicado conjunto do Ministério do Comércio e da Administração Geral das Alfândegas, representa uma mudança relevante na política comercial do país e ocorre em um momento de forte crescimento das exportações e de intensificação das barreiras comerciais impostas por outros mercados.

Pelo novo sistema, exportadores de cerca de 300 itens — incluindo ferro-gusa, sucata, produtos semiacabados e aço acabado — deverão solicitar autorização prévia para embarcar mercadorias ao exterior. A concessão das licenças estará condicionada à apresentação de contratos de exportação e certificados de inspeção de qualidade emitidos pelos fabricantes. Empresas estatais sediadas em Pequim terão seus pedidos analisados diretamente pelo Ministério do Comércio, enquanto companhias de outras regiões deverão recorrer aos departamentos provinciais.

Segundo o governo chinês, a medida tem como objetivo “manter o equilíbrio entre oferta, demanda e comércio global”. A Associação Chinesa de Ferro e Aço, entidade apoiada pelo Estado, afirmou que o mecanismo ajudará a organizar o fluxo de exportações e a evitar distorções no mercado internacional. Embora analistas avaliem que o impacto imediato possa ser limitado — já que a obtenção de licenças não tende a ser excessivamente complexa —, o consenso é que o sistema cria bases para uma regulação mais rígida no futuro.

A decisão ocorre em um contexto de resiliência surpreendente das exportações chinesas de aço. Nos primeiros 11 meses de 2025, os embarques de produtos acabados somaram 107,72 milhões de toneladas, alta de 6,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. A projeção é que o volume total de 2025 alcance cerca de 117 milhões de toneladas, marcando um novo recorde anual. As vendas externas têm ajudado a compensar a fraqueza da demanda doméstica, afetada pela prolongada crise no setor imobiliário chinês.

Ao mesmo tempo, o aumento dos fluxos de aço chinês tem provocado reações negativas em diversos países, que alegam concorrência desleal e prejuízos às indústrias locais. Apenas nos nove primeiros meses deste ano, mais de 120 processos de defesa comercial foram abertos contra produtos siderúrgicos chineses em diferentes regiões do mundo. Parte das críticas recai sobre a exportação de itens semiacabados, como tarugos de aço, considerados de baixo valor agregado e vistos por setores do mercado como desperdício de recursos estratégicos, como o minério de ferro.

Especialistas do setor avaliam que o novo regime de licenciamento pode gerar atrasos operacionais e aumento de burocracia no curto prazo, reduzindo temporariamente o ritmo das exportações. Há também expectativa de que a medida elimine as vendas externas de cargas que não recolhem imposto sobre valor agregado (IVA), conhecidas como “non-VAT”, que vinham sendo ofertadas a preços mais baixos e pressionavam as cotações internacionais do aço.

Com a possível saída dessas ofertas mais baratas do mercado, os preços do aço chinês para exportação tendem a subir no curto prazo, tornando o produto menos competitivo e desacelerando os embarques. Fontes do mercado indicam ainda que exportadores podem antecipar embarques antes da entrada em vigor das regras, o que deve provocar um pico temporário nas exportações no fim de 2025 e início de 2026, seguido por uma queda posterior.

Mais do que uma ação pontual, a exigência de licenças é interpretada como um sinal de que Pequim pretende exercer maior controle sobre sua indústria siderúrgica, ajustando a relação entre produção, comércio exterior e pressões geopolíticas, em um cenário de crescente protecionismo no comércio global de aço.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 16/12/2025

 

Brasil inaugura 1º laboratório de extração de terras raras; veja como vai operar

Começou a funcionar em Poços de Caldas (MG) um laboratório de extração de terras raras. Segundo a mineradora Meteoric, o empreendimento é a primeira iniciativa de refino dessas substâncias em território nacional e funciona como uma planta piloto do Projeto Caldeira, que prevê a exploração mineral de uma área de 193 km² em Caldas (MG).

Terras raras são minérios considerados estratégicos nos setores de transição energética e novas tecnologias. Essas substâncias são utilizadas na fabricação de produtos como telas de celulares, computadores e notebooks, equipamentos médicos e odontológicos, ímãs permanentes, motores de carros elétricos e de geradores de energia eólica.

A estrutura, inaugurada oficialmente nesta sexta-feira (12), teve um investimento de US$ 1,5 milhão. Para realizar a sua instalação, a empresa australiana conseguiu a primeira licença ambiental para uma planta piloto de extração de terras raras no estado de Minas Gerais. Já a exploração mineral da área em Caldas ainda está à espera da votação da licença ambiental, que já foi adiada duas vezes no Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais (Copam) (leia mais abaixo).

Escala menor

O laboratório tem capacidade para processar 500 quilos de carbonato misto de terras raras (concentrado inicial obtido do minério, contendo os elementos de terras raras) por ano, um volume bastante reduzido em relação às 18 mil toneladas anuais previstas para serem extraídas da mina do Projeto Caldeira.

O local é voltado para testes e ajustes do processo produtivo. A ideia é utilizar essa fase para calibrar a operação antes da construção da planta definitiva em Caldas e comprovar a qualidade dos minérios.

"A planta piloto serve para a gente ajustar o processo, para otimizar, por exemplo, a recuperação de reagente, a recuperação da água, porque a gente não joga água no meio ambiente, recupera tudo no circuito. A gente vai testar tudo isso nessa escala continuamente para que a gente possa chegar em um projeto otimizado na ponta da escala real", afirmou o diretor executivo da Meteoric, Marcelo Juliano de Carvalho.

No local, serão processados 600 quilos de argila por dia, que devem resultar em 2 kg de carbonato misto, dos quais 53% de sua composição são óxidos de terras raras. O material virá de amostras já coletadas durante o processo de pesquisa da área que será minerada.

Segurança radioativa

Os processos de extração de terras raras podem envolver radioatividade, pois estes minérios frequentemente contêm elementos radioativos como urânio e tório. Por isso, as atividades realizadas no novo laboratório serão acompanhadas pela Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN).

"Nós passamos para a ANSN todos os testes pilotos que nós fizemos na Austrália, em que todas as fases do processo foram analisadas, e a agência emitiu o certificado negativo de radioatividade, mas eles vão estar nos acompanhando aqui continuamente para testar os níveis de radioatividade, que são muito baixos", afirmou Carvalho.

Licença ambiental está atrasada

O licenciamento ambiental para a exploração de terras raras pela Meteoric, em Caldas, e pela Viridis, em Poços de Caldas, que deveria ter sido votado inicialmente em outubro, está atrasado.

Por duas vezes, o Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais (Copam) adiou a apreciação das requisições.

A primeira vez por pedido de vista feito por seus conselheiros, após uma pressão popular e política por mais informações. E a segunda vez por recomendação do Ministério Público Federal, que fez uma série de questionamentos sobre a segurança dos projetos mineradores para as comunidades próximas e para o meio ambiente.

Para o executivo da Meteoric, estes entraves são esperados dentro do planejamento da implantação da mina em Caldas.

"É um processo comum a todo empreendimento mineral no Brasil e a gente entende que é um processo justo porque são projetos grandes e pouco conhecidos pela comunidade. Entendemos que é importante respondermos aos questionamentos que os diferentes órgãos fazem para para que eles se sintam à vontade para licenciar o projeto. Os questionamentos feitos pelo Ministério Público Federal já foram respondidos tecnicamente com laudos e o processo deve voltar à pauta do Copam", disse Carvalho.

Região tem uma das maiores jazidas de terras raras do mundo

A região conhecida como Planalto de Poços de Caldas ou Cratera de Poços de Caldas abriga uma das maiores jazidas de terras raras do mundo, com capacidade de suprir 20% da demanda global por estes minérios.

Com cerca de 800 km?2;, a cratera, que engloba os municípios mineiros de Poços de Caldas, Andradas, Caldas, além de Águas da Prata em São Paulo, pode gerar 300 milhões de toneladas de terras raras, segundo o geólogo Álvaro Fochi, responsável por encontrar a jazida no início dos anos 2010.

Duas empresas australianas estão em adiantado processo de licenciamento para a exploração desses minérios nos municípios de Poços de Caldas e Caldas.

Nos anos de 2023 e 2024, la Agência Nacional de Mineração (ANM) recebeu mais de uma centena de pedidos de pesquisa de terras raras na cratera e seu entorno, o equivalente a um terço de todas as autorizações de pesquisa para estes minérios concedidas para Minas Gerais no período.

 
Fonte: G1
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 15/12/2025

México eleva tarifas e tensiona a indústria do aço em meio ao crescente papel chinês na mineração

O México acendeu o alerta na indústria do aço ao aprovar tarifas de até 50% sobre 1.463 produtos a partir de 2026, uma decisão que recalibra sua relação comercial com a China em um momento de sobreoferta global de aço e crescente pressão dos Estados Unidos.

O pacote tarifário faz parte de uma estratégia para reforçar a produção nacional e modificar a estrutura de importações, especialmente em setores nos quais o México mantém forte dependência de insumos asiáticos. A medida também introduz um novo nível de tensão nas cadeias de manufatura, que podem enfrentar custos mais altos em uma ampla gama de bens industriais.

O ajuste afetará setores integrados às cadeias globais de valor, em especial a siderurgia, além de produtos essenciais como aço, ferro e componentes eletrônicos, todos fundamentais para a manufatura e a produção industrial.

A Associação Latino-Americana do Aço advertiu que a região enfrenta uma situação crítica devido à superprodução e aos subsídios estatais ao aço na China. As exportações chinesas de aço acabado e semiacabado para a América Latina aumentaram 233% nos últimos 15 anos, enquanto as de aço indireto cresceram mais de 338% entre 2008 e 2024, com impactos significativos no México.

O intercâmbio comercial entre México e China em 2024 alcançou US$119,5 bilhões (bi), embora apenas 1,61% das exportações mexicanas tenham sido destinadas ao país asiático, principalmente minerais de cobre. Em contraste, a China representou 20,3% das importações mexicanas, incluindo categorias relevantes para a indústria, como componentes eletrônicos essenciais para a produção mineradora e metalúrgica.

Na mineração, embora a produção local seja dominada por empresas do Canadá e dos Estados Unidos, companhias chinesas participam indiretamente por meio de firmas estatais como a China Communications Construction, focadas em infraestrutura chave para o transporte de minerais, e por meio de investimentos industriais de grande escala, como a planta da Lingong Machinery, que destinou US$5bi a um complexo industrial em Nuevo León.

A decisão mexicana gerou críticas de Beijing. O embaixador chinês no México, Chen Daojiang, advertiu que as tarifas poderiam atrasar projetos econômicos bilaterais. Analistas sustentam que a medida pode fazer parte de uma estratégia de alinhamento com os Estados Unidos antes da revisão do T-MEC, aumentando a incerteza para investidores de setores estratégicos como mineração e aço.

“É conhecida a forte relação comercial com os Estados Unidos e existe uma pressão externa para manter um comércio estável com esse país. Embora internamente se busque desenvolver mais produção local, é provável que os produtos norte-americanos supram uma possível ausência da China”, disse à BNamericas Oscar Guillot, cientista político da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no Brasil.

Empresários mexicanos também questionaram a política tarifária por seu impacto em preços e cadeias produtivas, especialmente considerando que mais de 300 produtos pagarão pela primeira vez impostos de entre 5% e 50%. Embora a medida afete outros países como Brasil, Coreia do Sul e Índia, seu anúncio ocorre em um momento em que os Estados Unidos intensificaram a pressão para que a América Latina reduza sua exposição econômica à China.

Resta ver se o governo da presidenta Claudia Sheinbaum conseguirá arrecadar as receitas adicionais necessárias para reduzir o déficit fiscal. Caso não o faça, a política poderia limitar o papel que a China tem desempenhado na construção de infraestrutura essencial para indústrias como a de mineração e a siderúrgica.

 
Fonte: BN Americas
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 12/12/2025

 

Mercado vê Selic em 15% e se divide sobre corte em janeiro

O quadro econômico atual de desaceleração da atividade e melhora da inflação contrasta com a postura persistentemente conservadora de integrantes do Comitê de Política Monetária Copom) do Banco Central, o que leva à expectativa praticamente unânime do mercado de que o colegiado manterá a Selic parada em 15% nesta semana.

Das 112 casas consultadas, apenas duas esperam que o ciclo de cortes da taxa Selic se inicie já na reunião do dia 10. Para os economistas ouvidos pelo Valor, o Copom deve manter um discurso mais cauteloso e preservar algum grau de liberdade para a decisão de janeiro. O levantamento revela, ainda, uma divisão do mercado em relação à primeira reunião de 2026: 54% acreditam que será o mês do início do ciclo de flexibilização, ao passo em que 44% esperam que os cortes serão adiados para o encontro de março e adiante.

A postura bastante cautelosa dos diretores do BC - em especial do presidente da autarquia, Gabriel Galípolo - deixa o mercado em dúvida acerca de possíveis sinalizações do comunicado da decisão desta semana. Entre aqueles que não esperam grandes alterações em relação ao documento da reunião de novembro do Copom, Marcela Rocha, economista-chefe para América Latina da Principal Asset Management, considera que há um incentivo pequeno para o Copom suavizar a sua comunicação neste momento. Para ela, o conteúdo deve ter pouquíssimas alterações e a projeção de inflação do BC dentro do horizonte relevante seguirá em 3,3%.

“Um corte em janeiro seria justificável, mas a comunicação do BC ainda tem sido dura. O BC não tem mostrado euforia com os números melhores de inflação corrente e não dá muita ênfase a essa desaceleração da atividade. O próprio Galípolo tem dado mais importância aos dados ainda resilientes do mercado de trabalho”, destaca.

Embora tenha em seu cenário-base um corte de 0,25 ponto percentual da Selic em janeiro - a 14,75% -, Rocha avalia que a convicção é baixa justamente por conta da postura conservadora do Copom, e entende que há mais chances de o primeiro corte passar para março.

“O que nos deixa ainda com janeiro foi a sinalização dada pelo Galípolo quando ele fala sobre o termo “bastante prolongado”. Havia um desconforto entre nós sobre pensar em cortar juros com essa frase [na comunicação], mas ele reduziu a importância dessa frase”, lembra a economista da Principal.

Rocha se refere à participação do presidente do BC em evento organizado pela XP Investimentos na segunda-feira (1), quando ele afirmou que a manutenção, ou não, do trecho do comunicado que descreve um “período bastante prolongado” de juros elevados não indica qualquer decisão do Copom à frente. “Não sei se a gente tem a necessidade ou obrigação de criar algum tipo de código dentro da comunicação que vá telegrafar quando o BC vai fazer algo”, disse Galípolo.

Nesse sentido, Rocha não vê mais na manutenção da frase no comunicado da reunião de dezembro um impeditivo para que o BC corte os juros em janeiro. No entanto, ela admite que, em relação à expectativa do mercado, “a régua para cortar fica ainda mais alta”.

“Precisaríamos ver uma evolução de dados surpreendendo positivamente, e não apenas em linha com o esperado, e talvez uma nova rodada de queda das expectativas de inflação do relatório Focus”, diz ela. Achamos que os dados de inflação podem vir na ponta mais otimista, mas o mercado poderia, sim, ficar ainda mais cético com o corte em janeiro.”

Para Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, a sinalização sobre o termo “bastante prolongado” tem pouca importância e não deveria significar nenhuma indicação sobre os próximos passos da política monetária.

“O ‘bastante prolongado’ se refere a todo o período de restrição monetária, que vai continuar. A Selic continuaria muito restritiva mesmo se fechar o ano [de 2026] em 12%, que é a nossa projeção”, diz. Ela admite, contudo, que um comunicado muito parecido com o da reunião de novembro indicaria pouca abertura para discutir cortes da Selic.

“Esperamos em outros parágrafos esse indicativo. Estamos muito distantes da taxa neutra [que não estimula nem comprime a demanda], o começo dos cortes servirá para tirar um pouco do excesso.”


"Seria a primeira vez que o Copom cortaria os juros com o modelo fora da meta e com o Focus também”
— Ivo Chermont

Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas, considera que o presidente do BC foi bem sucedido ao desarmar o termo e diminuir a importância que a permanência da frase no comunicado teria para os próximos passos da política monetária. Nesse sentido, o BC não deve querer se comprometer com nenhum cenário, dada a grande quantidade de dados que ainda devem vir até a reunião de janeiro, avalia.

“O Galípolo costuma dizer que não é que ele sabe e não quer dar a dica; é que ele realmente não sabe. Acredito que a linguagem que o Copom utilizará será ‘neutra’ aos preços de mercado de hoje e não vai passar nenhuma sinalização concreta”, afirma o economista, que espera um primeiro corte da Selic apenas em março do ano que vem.

Ainda, na visão de Chermont, houve outras oportunidades em que o BC deu início aos cortes de juros com a projeção de inflação ainda “ao redor da meta”, mas a estratégia seria mais arriscada desta vez, já que as expectativas de longo prazo no Focus também estão desancoradas.

“Seria a primeira vez que o Copom cortaria os juros com o modelo fora da meta e com o Focus também fora da meta. É mais um motivo para esperar. Ganharia três ou quatro meses para o Focus se aproximar do centro da meta. Dados os preços de mercado, uma surpresa para o lado ‘hawk’ [mais restritivo] ajudaria na convergência das expectativas. E até o calendário ajudaria: de janeiro a março tem o carnaval e haveria pouco ruído político. Seria muito vantajoso.”

Chermont reconhece, no entanto, que se os dados de atividade do quarto trimestre derem sinais mais fortes de desaceleração da atividade, o cenário poderia mudar. A gestora espera uma Selic de 11,50% no fim de 2026.

Na ponta mais otimista, Vitória, do Inter, vê espaço para o ciclo de cortes começar em janeiro, com base no quadro de desaceleração da atividade e da inflação, o que deve se refletir no comunicado do Copom nesta semana, prevê.

“Nossa expectativa é por um comunicado um pouco menos duro, abrindo espaço para a discussão de queda da Selic em janeiro”, diz ela. Na sua avaliação, há espaço para um recuo adicional das expectativas de inflação do Focus, além de um cenário externo mais positivo, com a perspectiva de continuação do ciclo de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) mantendo o dólar comportado, o que ajuda no processo de desinflação.

Vitória também considera que os últimos dados de atividade, em especial o PIB do terceiro trimestre, mostraram um arrefecimento “mais claro” da atividade, além da desaceleração gradual que consta no cenário-base do Copom. “A desaceleração ficou mais clara, principalmente pela composição qualitativa [do PIB] com queda maior do consumo, o que favorece o cenário prospectivo de inflação em queda.”

O cenário-base do Inter é de uma Selic em 12% ao fim de 2026, projeção próxima daquilo que o mercado embute na curva de juros futuros. Por enquanto, segundo Vitória, não há por que identificar o cenário eleitoral como um impeditivo para a redução dos juros no curto prazo, mas se a volatilidade tradicional do período levar o dólar a patamares mais próximos de R$ 6, é possível que o Copom se veja obrigado a diminuir a extensão do ciclo de cortes da Selic.

Já Rocha, da Principal, espera um corte menor da Selic ao longo do ano que vem, para o patamar de 13%. Segundo ela, o mercado de trabalho resiliente e as medidas de estímulo à demanda esperadas para o ano eleitoral colocam um risco de alta para o crescimento da atividade, o que pode alimentar a inflação.

Além da volatilidade eleitoral e as perspectivas fiscais voltando ao foco, ela identifica um cenário externo menos favorável ao real. “Apesar de o diferencial de juros ser contra o dólar [com a flexibilização monetária do Fed], o crescimento da economia dos EUA ainda será de mais de 2%. Então, não vemos muito espaço para o dólar se desvalorizar. Com um dólar um pouco mais forte ou estável, o ambiente de maior incerteza por aqui por conta da eleição pode pesar na moeda brasileira”, afirma.

 

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 08/12/2025

 

O que são terras-raras? Entenda como é a extração desses minerais e por que se tornaram tão cobiçados no mundo

O rápido desenvolvimento de novas tecnologias avançadas, das baterias de carros elétricos e painéis fotovoltaicos aos semicondutores e armamentos, provocou um aumento global da demanda por minerais críticos que são insumos dessas novas indústrias.

As chamadas terras-raras estão entre as mais cobiçadas matérias-primas do mundo atualmente e ganharam uma importância geopolítica sem precedentes com a guerra comercial promovida pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

O Brasil desponta com vantagens naturais nessa corrida. Reportagem do GLOBO mostra que oito projetos de mineração de elementos de terras-raras (ETRs) em curso no Brasil poderão desenvolver mais de um terço da reserva potencial do país — considerada a segunda maior do mundo, só atrás da da China, que domina esse mercado, incomodando Trump.

São 21 milhões de toneladas totais de óxidos de terras-raras (TREO, em inglês), atrás só da China, conforme o Serviço Geológico dos EUA (USGS). Os projetos mais avançados, em Minas, Goiás, Bahia e Amazonas, somam 38% disso, com capacidade de produzir 7,98 milhões de toneladas de TREOs, segundo o relatório do Cebri e informações das empresas.

Para acadêmicos, consultores e executivos, o Brasil se destaca nesta nova dinâmica pelo tamanho e pela qualidade das reservas. Segundo estimativa recente do Ibram, que reúne empresas brasileiras de mineração, os investimentos somam US$ 2,2 bilhões (R$ 11,5 bilhões) de 2025 a 2029.

Do que estamos falando?

São muitos os bilhões envolvidos sempre que se fala neste assunto, mas, afinal, de que tipo de matéria-prima todo o mundo está cobiçando como nunca? O que de fato está em jogo? Confira a seguir infográficos que vão te ajudar a entender mais desse assunto.

 

Onde estão as reservas brasileiras?

O Brasil tem interesse em atrair investimentos para explorar ETRs, cuja produção demanda uma cadeia industrial de beneficiamento. Os oito projetos mais adiantados no país foram mapeados em um relatório do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), feito com o Ibram e instituições de pesquisa.

Estão à frente deles empresas estrangeiras, principalmente pequenas mineradoras de capital aberto, conhecidas como “junior mineral companies”, de EUA, Austrália e Canadá. No entanto, a maior parte está em estágios inicias e apenas um está em operação. Faltam planos para explorar cerca de dois terços do potencial brasileiro.

 
 

O Brasil tem ainda outros 12 projetos nessa área, a maioria ainda sem reservas estimadas. A Terra Brasil Minerals espera concluir nos próximos meses a venda de uma fatia minoritária de suas ações para investidores internacionais como forma de levantar US$ 1 bilhão (R$ 5,3 bilhões) para iniciar um outro projeto em Patos de Minas (MG) que combina ETRs com fosfato e potássio, usados na fabricação de fertilizantes, informou a Reuters.

Por que nossas reservas são competitivas?

Além de o Brasil ter grandes reservas de terras-raras, está em uma posição única fora da Ásia no quesito qualidade. O país tem ETRs em depósitos de argila iônica. Reservas desse tipo, na província de Jiangxi, no centro-sul da China, foram o diferencial do país asiático para dominar o setor.

Antonio de Castro, gerente de exploração da Brazilian Critical Minerals (BCM), mineradora de capital aberto na Bolsa australiana, diz que a transposição de tecnologia chinesa para o Brasil reduz o investimentos necessários para a produção, confirmando a competitividade brasileira

— Não é o momento de inventar e, sim, de copiar. Toda a Ásia faz (a lixiviação, uma espécie de lavagem) in situ (no local). Resolvemos fazer também — diz Castro, prevendo o início das operações para 2027. — Hoje, a BCM é a única empresa no Ocidente que está caminhando para produzir como os chineses e os asiáticos produzem (fora da China).

Por que esse tipo de mineração importa?

O investimento da China no setor, mantido estrategicamente por Pequim desde os anos 1980, deu-se com saltos tecnológicos que derrubaram custos de produção e deram à China uma grande competitividade no momento em que a indústria de tecnologia e transição energética precisa cada vez mais de terras-raras.

Enfrentar a competitividade da China não é simples, mas as rusgas diplomáticas com os EUA estão estimulando o Ocidente a buscar fontes alternativas. Esse desafio é uma oportunidade de atração de investimentos e negócios para o Brasil.
 

Como é a complexa cadeia de produção de terras-raras?

Segundo Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP, a corrida por alternativas à China nos ETRs precisa ir além da pesquisa de reservas e concessões. Passa por investimentos nas demais fases industrias de beneficiamento dos minerais.

No caso das terras-raras, trata-se de um sofisticado processo de separação de elementos e tratamentos para chegar aos insumos que as indústrias de tecnologia buscam. A China desenvolveu muito bem essa cadeia. Nem EUA nem a Europa têm capacidade de refino para atender a demanda ocidental. A produção de baixo custo chinesa inviabilizou vários projetos similares fora da Ásia nos últimos anos.
 

 

O Brasil tem uma estratégia?

A resposta para o título acima é: não. Ou ao menos não ainda. Um projeto de lei (PL) tramita no Congresso para dar ao Brasil uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O relator, deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), já indicou informalmente nas linhas gerais de seu parecer um pacote de incentivos para atrair investimentos em beneficiamento e refino.

Parte dos especialistas defende políticas industriais para o setor, embora incentivos malsucedidos do passado sejam frequentemente citados como sinal de alerta. Executivos apontam a importância de priorizar e agilizar os processos de licenciamento ambiental, ainda que seja mantido o rigor. Por outro lado, a mineração é um dos setores que mais preocupam ambientalistas.

— Temos um problema estrutural: é difícil desenvolver indústria no Brasil — diz Aline Nunes, gerente de Assuntos Minerários do Ibram. — Sem incentivos fiscais e atração de investimentos é impossível.

O relatório de Jardim deve prever um pacote com benefícios tributários, autorização para emissão de títulos de dívida incentivados — similares às chamadas “debêntures de infraestrutura”, com isenção tributária — e o Fundo Garantidor da Atividade Mineral, destinado à concessão de garantias a financiamentos para pequenas mineradoras, que têm caixa apertado e poucos ativos.

A falta de garantias é um obstáculo até mesmo para créditos do BNDES, que estimula investimentos produtivos. Os benefícios não seriam restritos ao setor de terras-raras.

O BNDES promete para o início de 2026 a aprovação dos primeiros projetos da Chamada Pública de Planos de Negócios para Investimentos em Transformação de Minerais Estratégicos, que distribuirá R$ 5 bilhões, em parceria com a Finep, agência de fomento à inovação do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Em junho, a primeira etapa de seleção da chamada escolheu 56 projetos, que preveem R$ 45,8 bilhões. Embora os R$ 5 bilhões disponíveis — para crédito, títulos de dívida e até investimentos em participação acionária — pareçam pouco perante os planos de investimento, BNDES e Finep veem espaço para conseguir mais recursos ao longo do tempo.

O Ministério de Minas e Energia (MME) diz, em nota ao GLOBO, que está “contribuindo para que o marco regulatório resultante ofereça segurança jurídica, previsibilidade e ambiente competitivo para investidores e operadores”. E defende, no caso das terras-raras, “o domínio de tecnologias de separação e refino”. “A visão do MME é de que o desenvolvimento da cadeia de terras raras deve ocorrer de forma integrada, sustentável e com foco na agregação de valor no país”, diz a nota.

A experiência brasileira do nióbio pode ajudar?

A mineradora brasileira CBMM é apontada como um paradigma para o país planejar o desenvolvimento da cadeia de terras-raras. O desenvolvimento do mercado global de nióbio — usado para melhorar ligas de aço e que tem sido testado em baterias — está ligado a investimentos da empresa da família Moreira Salles em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de refino e aplicações para a matéria-prima.

Hoje, o Brasil domina 90% da produção mundial do nióbio, sem incentivos específicos, embora André Pimenta, coordenador do Instituto de Terras-Raras do Senai de Minas, aponte o apoio do governo mineiro ao longo dos anos.

A CBMM evita comentar políticas de incentivo, mas ressalta, em nota, que “não vende minério, somente produtos industrializados de alto valor agregado, buscando maximizar a geração de valor e avançar na cadeia produtiva”. Investe até R$ 300 milhões por ano em tecnologia, em “mais de 200 projetos em parceria com universidades, centros de pesquisa e clientes” no Brasil e no mundo.

 
Fonte: O Globo
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 08/12/2025